Estava dado o alerta vermelho para a zona norte do país: ventos fortíssimos, ondas de catorze metros e chuva incansável. E talvez por pura coincidência ou brilhantismo divino, era também dia de ir ao Hard Club ver Napalm Death, esse furacão britânico que por cá já causou muitos estragos, e cuja última passagem pelo nosso país fora ainda este ano, em Abril.

Uma tempestade, no entanto, nunca vem só e antes sequer de termos o prazer de presenciar os padrinhos do grind em palco mais uma vez, tivemos que aguentar mais um concerto de Besta. E digo aguentar porque foi mesmo sofrível – não me levem a mal, eu gosto da banda – Ajoelha-te Perante a Besta e o EP John Carpenter são dos melhores trabalhos do género que ouvi nestes últimos cinco anos, mas depois de ver a banda umas quantas vezes  a tesão perde-se um bocado, algo que até no entusiasmo do público se notou. Excepto quatro ou cinco almas perdidas que faziam a dança do hardcore lá à frente. Mas ao menos tocaram “A Cidade dos Malditos”, por isso nem tudo foi mau. Saudades Roque, no entanto.

 

Logo de seguida, e sem grande tempo de espera, tivemos a estreia dos Deathrite em Portugal. Não se regendo apenas pelo seu álbum mais recente e não se sentindo intimidados por um público que ao início se encontrava quase imóvel, tomaram o palco de assalto, despejando tema atrás de tema, provocando assim os primeiros movimentos na Sala 2 do Hard Club. As semelhanças do som dos alemães aos primeiros álbuns de bandas como Entombed e Obituary são notórias: voz rasgada, guitarras a cortar o ar como serrotes e uma bateria suja como que vinda do fundo do poço. São os ingredientes perfeitos e a banda aproveitou-os ao máximo, dando-lhe o seu toque pessoal. Uma lufada de ar fresco, portanto.

 

Por fim, tivemos o tal furacão Napalm Death. Logo no pontapé de saída notava-se na cara dos presentes a sua sede por violência, o sorriso rasgado por presenciar mais uma vez ao vivo aquilo que seria um autêntico cenário de destruição. E foi tal e qual como se esperava. De um momento para o outro, a sala tornou-se numa trincheira, com corpos a voar em todas as direcções, malta a imitar o baterista Danny Herrera a cada batida e ainda uns quantos a berrar cada letra cuspida pelo vocalista Mark “Barney” Greenway. Houve até quem praticasse ambas as modalidades, enfiando guitarradas aéreas na mistura.

Falando do alinhamento em si, a banda fez questão de tocar de tudo um pouco, fosse “Smash a Single Digit” ou “Dear Slum Landlord…” do mais recente Apex Predator – Easy Meat, ou material mais antigo como “Suffer The Children” ou a combo de Scum, na qual se incluía a eterna “You Suffer”. Houve ainda tempo para duas versões: “Victims of a Bomb Raid” dos Anti Cimex e o hino antifascista dos Dead Kennedys, “Nazi Punks Fuck Off”.

Esta última fora também o ponto alto do concerto para muitos, evidenciado pela vontade do público gritar “bem alto e com orgulho” o refrão emblemático da música da banda californiana. Feitas as contas e o suor limpo da testa, fora uma noite que valera a pena, apesar do temporal lá fora. Temporal esse que se iria voltar a enfrentar após terminado o concerto.

Texto: Filipe Silva
Fotografia: Marta Rebelo

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