O mítico festival do Barreiro regressa mais cedo que o habitual este ano, e com a sua programação habitual encaixada apenas em dois dias, poderíamos preparar-nos para uma edição incomum. Ou não fosse a constelação de eventos gratuitos que é sem demora anunciada em redor do evento principal. Desde o DJ set de Dia de Los Muertos ao punk experimental da polaca The Pau na vizinha ADAO, o Barreiro Rocks descola muito antes de começar. Há ainda tempo para homenagear Crooner Vieira, notável ícone do festival e ausente do recinto no ano corrente. Homenagem essa que ocorre em pleno recinto, através da pintura pela Art in Town de um enorme mural do Crooner na parede do Grupo Desportivo dos Ferroviários do Barreiro.

Dia 1 – 3 de Novembro

A entrada no recinto é já familiar para quem está habituado a estas andanças: longe do habitual aparato comercial, o Barreiro Rocks é um festival de amigos, para amigos. Caras locais mesclam-se com bandas e editoras em pleno convívio nas bancas que ladeiam o pavilhão gimnodesportivo onde se localiza o palco principal. Bancas onde podemos encontrar os clássicos vinis, t-shirt, e até cortar o cabelo se nos aprouver. O bar, na sala adjacente ao pavilhão, está repleto de temática memorabilia ferroviária. É aqui o palco de DJ sets e literal partyfiesta, dado que é no canto entre as prateleiras de antigos troféus que as bandas do palco secundário actuarão.

A arrancar o primeiro dia oficial, sendo a densidade de espectadores ainda notoriamente baixa, o palco principal é aberto por The Brooms. O quarteto barreirense joga em casa e sobe de imediato a temperatura com o seu garage psicadélico tingido de blues e rock’n’roll. Os riffs são energéticos e pingam fuzz, e o teclado, em modo orgão groovy faz-nos regressar de imediato aos 70s. Com um espetáculo que traz menções honrosas a figuras do festival bem como convites ao público para dançar em palco, o grupo cumpre bem o seu papel e deixa-nos de sorriso aberto.

Mighty Sands não escondem no seu nome a imagética da sua música. Desde a poeira de desertos western à areia branca da costa californiana, a prometida roadtrip é devidamente entregue numa viagem caleidoscópica desde o primeiro instante. Ritmicamente, acabam por ser possivelmente os mais calmos da noite que se segue, facto que fortalece o formato que a banda apresenta. Mais livres do que em álbum (e com um novo alinhamento) são privilegiados os arranjos hipnóticos e crescendos de repetição no que acabam por ser os momentos mais intensos da sua actuação.

Terminado o concerto e de novo em exploração pelo recinto, somos surpreendidos pela multidão que se começa a agrupar no bar, até aí ocupado pela DJ residente do dia, María P. É o início do concerto de Mr. Gallini. Bruno Monteiro, baterista e vocalista dos Stone Dead (que actuariam na noite seguinte), apresenta-se coberto de instrumentos: chocalhos nos pés, harmónica no pescoço e guitarra acústica a postos. Senta-se, rodeado de faces curiosas, e abre sozinho o palco #partyfiesta. O seu folk açucarado e despreocupado acaba por ser um dos momentos mais carismáticos da noite, que, apesar de acústico, não tem definitivamente falta de vitalidade.

Seguem-se os Samesugas no palco principal, ainda enquanto decorre o espetáculo no palco secundário. A banda galega, já repetente do festival, oferece-nos rock num registo bem diferente do groovy e psicadelismo que marcou o início do dia. Sem quebras de energia, o seu som é denso e texturado, roçando a fronteira entre o punk e o grunge. Coros de gritos e explosões sonoras marcam os momentos fortes, que chegam a erguer satisfatórias paredes sonoras.

 

Para o momento seguinte no palco #partyfiesta pouco nos poderia ter preparado. Debut! são do Barreiro e trazem-nos o momento mais experimental e arriscado da noite após uma década inteira de silêncio. A proposta é simples, mas a combinação inédita: guitarra esquizofrénica, baixo em constante hipnose e drum machine encomendada directamente dos trópicos. Estamos num festival de rock, mas a potência aqui é outra: longe da típica distorção, é entrelaçada no infinito caos sonoro e esmagada pelo ritmo lisérgico, diluída em contagiante dança de rumo impossível de prever. São notáveis as influências de Nada-Nada, projecto de Cláudio Fernandes, um dos elementos do duo, mas de pouco mais nos podemos socorrer para descrever o indescritível. Gingar com Debut! é como mergulhar numa auto-estrada de strobes fractais e não mais querer travar. Demasiado curto.

Johnny Throttle são os seguintes no palco principal. O momento é o mais aguardado da noite: Afonso Pinto, vocalista, é também figura frontal de The Parkinsons – mítica banda lusa habituada a palcos internacionais, bem como a levar ao rubro o do Barreiro Rocks. O desenfreado brit punk, sem espaço para respiração ou interlúdio, é, à semelhança de Parkinsons, competente e vigoroso, apesar de ficar aquém na variação e desenvolvimento sonoro. Afonso, no entanto, e como habitual, cobre sucessivamente todos os pontos de perfeito animal de palco: interage com público, conta histórias e lança-se, sem interrupção, em constantes coreografias de palco — e espectadores! É, porém, impossível deixar de notar o quão datados acabam por soar face ao refrescante fogo-de-artifício sonoro que iluminava o palco secundário minutos antes.

El Señor fecham a cortina do primeiro dia no palco #partyfiesta. O auto-intitulado trio de gaivota-rock injeta a bem necessitada dose de 70s com toques indie que faltava para completar a panóplia de géneros presentes. Agradáveis e harmoniosos que são, o som pode não corresponder à energia que o fecho de um dia de Barreiro Rocks requer, contratempo que o público, no entanto, não tarda em resolver. Mr. Gallini, nas linhas da frente, é encarregue pela própria banda de filmar o momento, e o bar transforma-se em arena onde tudo acontece: mosh, crowdsurfing, participações especiais e toda a euforia de quem ainda tinha energia para gastar.

 

Dia 2 – 4 de Novembro

O segundo dia tem honras de abertura dignas de supergrupo. Três projetos diferentes ocupam ao mesmo tempo o palco: Ra Fa El e Duquesa, integrantes de Glockenwise, de um lado, e Cave Story de outro. Juntos partilham temas cada um dos vários projetos sem comprometer o seu formato, ajustando adequadamente os arranjos. Duquesa, com as músicas mais calmas, acaba por não ficar atrás e ganha força junto do som mais denso dos Cave Story, no que são momentos memoráveis que o grupo prolonga em crescente intensidade. É também uma das actuações mais variadas da noite, dadas as diferenças estéticas entre os vários projectos e a jam em constante mutação que ocorre nos interlúdios entre temas.

Sobem de seguida ao palco Stone Dead, a banda de bons rapazes que traz por fim Bruno Monteiro como baterista ao centro do palco principal. Numa das descargas de energia com mais vitaminas do festival, trazem-nos rock com personalidade, marcado por hooks orelhudos e melodias que ficam no ouvido. Mas não só disso vivem, e acabam por apresentar uma performance equilibrada com um som irrepreensível.

Moon Preachers são a banda que abre o palco #partyfiesta. Lado a lado com um velho manequim a anunciar o seu nome, Rafael Santos e João Ferreira são apenas dois, mas soam a muitos mais. Desta feita, o duo faz-nos viajar de volta ao psych que abriu o dia anterior, e não tarda em encher completamente a sala. O ritmo herda a rapidez do punk, a distorção leva-nos ao lo-fi de interior de garagem e a voz ecoa, evocada como mantra. No entanto, o contexto mais energético do festival acaba por privilegiar os registos mais intensos e rápidos, similares entre si, retirando protagonismo a temas mais delicados presentes em material lançado até ao momento.

 

No palco principal os Twist Connection iniciam a festa de modo diferente a outros presentes. Vestidos a rigor, e num registo entre músicas que quase nos recorda de spoken word, o trio de Coimbra apresenta um rock’n’roll elegante e maduro, quer em som como em estrutura. Consistentes em álbum, acabam por apresentar uma maior dinâmica ao vivo em termos de intensidade.

Tracy Lee Summer, trio Barreirense, está também em casa, e sabe bem disso. O som é garage puro, duro e violento, e serve bem à ocasião, dando início aos alguns dos crowdsurfs mais inesquecíveis da noite. A resposta sonora é em igual medida à do público, num concerto que, desde o primeiro acorde, insiste em nunca desacelerar.

O momento mais aguardado de todo o festival está pronto para começar no palco principal. The Cavemen, neo-zelandeses encontrados com frequência a socializar despreocupadamente pelo recinto, entram por fim em palco já em adequados trajes reduzidos — decerto a prever a meteorologia daí a breves segundos. A previsão revelou-se certeira, e The Cavemen são um terramoto que subterra o pavilhão em volume e desfaz power chords. A atitude conta, e apesar da violência sonora, acrobacias de palco e ameaçadoras biografias pela internet fora, o quarteto do paleolítico não esconde nos sorrisos com que se entrega ao público o prazer que tem em atuação. É mútuo, e a loucura que frequentemente contagia as late nights de #partyfiesta faz finalmente o seu caminho para o palco principal: temos saltos, mosh, crowdsurf, mergulhos da banda para a multidão e até fãs que levantam do chão as grades que delimitam o pit, brandindo-as no ar como troféus no meio do caos.

O que Cavemen começaram, Dirty Coal Train terminaram em beleza. Despejaram o charme a que já tinham habituado o festival em muitas outras edições anteriores, e a sua despedida contou, naturalmente, com tanta ou mais efusividade que as anteriores, levando Candy Diaz, como DJ, a noite até ao final.

 

Embora em formato reduzido e até com a ausência de um dos seus ícones, o Barreiro Rocks prova que mantém bem vivo o estatuto de culto que o rodeia. A proeza que é manter um ritmo de cortar o fôlego, com eventos sucessivos em vários pontos da cidade, é superada com sucesso ano após ano. O mesmo se pode dizer da escolha de bandas: internacionais, nacionais e até locais, que são recebidas com carinho pelo público — público esse que decerto vão encontrar trajados a rigor como em muito poucos outros locais. Em suma, é uma experiência única viver a chama e energia que o festival traz, que, esperemos, seja recuperada e até superada em próximas edições.

Texto: João Rosa
Fotografia: Nuno Bernardo e João Rosa (última galeria)

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