Sexta-feira, 20 de outubro, noite cinzenta e abençoada por uma chuva miúda na Cidade Invicta. Abrigando-se do tempo, uma multidão vestida de negro foi aos poucos tomando conta da Sala 1 do Hard Club, onde a noite prometia uma dose tripla de sons metálicos, que se revelou intensa, emocionante e memorável.

Heavenwood: metal nacional a dar cartas

Sem um segundo de atraso, as primeiras notas de The Arcadia Order deram as boas vindas ao público. Jogando em casa, os Heavenwood tocaram um set curto mas eficaz, com todos os álbuns da discografia com direito ao seu momento. Apresentando-se com o vocalista convidado Miguel Inglês, a banda mostrou-se, como sempre, profissional e envolvida na sonoridade, tocando um trio de temas do mais recente trabalho, intercalado com clássicos como Rain Of July e Frithiof’s Saga.

Durante os 42 minutos de concerto, a sala foi-se compondo. Apesar do mau hábito português de ignorar bandas de abertura, sobretudo quando são produto nacional, os que estiveram fizeram a festa com a banda, que nos brindou com o seu metal gótico intenso, rico em camadas sonoras e com um jogo de vozes soberbo; o arranque perfeito para a noite de espectáculos.

Madder Mortem: um mar de influências

Mantendo a pontualidade, às 22 horas subiram a palco os noruegueses Madder Mortem, um dos segredos mais bem guardados do metal gótico e progressivo norueguês. Apresentando o seu mais recente trabalho, Red In Tooth And Claw, foi com um tema desse registo, If I Could, que os irmãos Kirkevaag e companhia começaram a conquistar o público, agora já uma moldura humana satisfatória.

Continuando com a mais dançável The Little Things e a doce balada The Whole Where Your Heart Belongs, cedo se percebeu que a vocalista Agnete seria a estrela maior em palco, com uma voz poderosa, doce nas partes calmas e áspera nos gritos, sem falhas, apesar de constipada. Armour e sobretudo Hangman foram os momentos mais emotivos do concerto, transformando a sala num mar de pura melancolia.

Sempre muito aplaudidos e comunicativos, com uma alegria em palco contagiante por parte de Agnete Kirkevaag, a banda terminou o concerto num registo mais ritmado e agressivo, com a explosiva Fallow Season e a auto-biográfica Underdogs, que explora a temática das dificuldades por que passam a maioria das bandas. Foi uma hora que soube a pouco, mas o pouco que os nossos ouvidos provaram foi absolutamente delicioso; esperemos que a banda nos visite de novo num futuro próximo.

Soen: perfeição progressiva

Meia hora depois das 23, chegara a vez dos suecos Soen, o peso pesado da noite. Começando a pintar uma sonoridade progressiva numa tela (Canvas) do álbum de estreia, o salto para o álbum em cartaz, Lykaia, foi dado logo à segunda música, Sectarian. Mais do que as melodias contagiantes, mais do a destreza técnica imaculada, foi a entrega da banda que deu alma ao concerto, numa amostra de genuína paixão pelo seu trabalho e respeito pelo incansável apoio do público.

Savia e Sister foram momentos altos, mas o destaque da primeira metade do concerto foi para The Words, uma viagem triste e profunda à carga emocional das palavras. O vocalista Joel Ekelöf mostrou-se um frontman carismático e com uma voz impecável, ocasionalmente acompanhada por coros assombrosos, como no final de Kuraman. Também em destaque esteve o mais recente membro da banda, o guitarrista Marcus Jidell, mas o claro foco de atenção em palco foi para o monstruoso Martin Lopez na bateria, dono de uma mestria sobretudo palpável em temas como Fraccions.

O público esteve à altura da banda, entoando as músicas e aplaudindo efusivamente os músicos em palco. O encore deu-nos dois dos temas mais marcantes da sua ainda curta carreira discográfica, a rebelde Tabula Rasa e o diamente lapidado pela mão da melancolia, Lucidity. A banda despediu-se e com ela a noite chegou ao fim, esfumando-se do Hard Club um público claramente satisfeito.

Numa noite em que todas as bandas brilharam, num crescendo de emoção e comunhão com a plateia, foi de louvar a pontualidade, a qualidade do som e a entrega de todos os músicos, que transformaram esta numa noite inesquecível, ecoando nas memórias do público presente, certamente já saudoso e com vontade de rever qualquer um dos três protagonistas. É por noites assim que os corações dos amantes da música batem.

Texto: David Matos

Fotos: Marina Silva

Agradecimentos: Free Music Events

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