Foi numa noite de temperatura amena e no típico cenário urbano de Lisboa que os Mayhem se propuseram a projectar a atmosfera fria, negra e inóspita patente no clássico álbum De Mysteriis Dom Sathanas gravado nos primórdios do movimento do black metal. Este álbum, que representa para muitos o black metal na sua mais pura forma, iria ser explorado pela banda norueguesa uma vez que os ingleses Dragged Into Sunlight dessem forma ao seu assalto sensorial, isto já após concerto dos portugueses The Ominous Circle. Iniciado por um som ominoso e ensurdecedor que assombrou o Armazém 3 da Avenida Infante D. Henrique, efectivou a atmosfera negativa essencial para o espetáculo nihilista e visceral que se seguiria, e foi materializado pelo facto dos músicos interpretarem os temas voltados de costas para o público e pelos vocais repulsivos e de ferver o sangue a acompanhar guitarras de baixas frequências. Com o volume a aproximar-se de níveis desconfortáveis e sem sacrificar a qualidade e definição, o concerto construiu expectativas altas para o que estava para vir.

 

Porém, após uns minutos de sons atmosféricos e de ser revelada a capa de De Mysteriis Dom Sathanas em plano de fundo, o tema “Funeral Fog” teve um início repentino e com graves problemas de som em que seria impossível de identificar a faixa noutro contexto qualquer tendo em conta que apenas a bateria se fazia ouvir com definição. O problema foi rapidamente ultrapassado e, apesar de se ter “perdido” um tema clássico da banda, o espectáculo não deteriorou, antes pelo contrário.

O vocalista Attila, conhecido pela sua voz singular, foi a personificação da atmosfera negra e fúnebre através de movimentos misteriosos e expressões faciais que se instalou gradualmente na sala e que culminou no último tema, homónimo do álbum, após uma pequena pausa para que Atilla surgisse com vestes religiosas. Esta faixa foi interpretada com uma intensidade e atmosfera ímpares em que foram usados adereços como velas e caveiras que acompanharam as lamentações ao estilo de canto gregoriano que adornam o tema, e deixaram uma última sensação de satisfação que fez, porventura, esquecer o infortúnio inicial.

Já passaram vinte e três anos desde o lançamento deste mítico álbum e as motivações que o trouxeram à existência estão dissolvidas pelo tempo, tornando-as impossível de alcançar sem que se viaje no tempo. Nesta tentativa de ressuscitar o negrume, a banda fez a imaginação voltar aos anos 90 e ao frio da Noruega, e mesmo que por pouco, fez valer a visita.

Texto: Ricardo Silva
Fotografia: Nuno Bernardo

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