Foi no último espetáculo da banda em Portugal, no NOS Primavera Sound, que se esperava ver a actual iteração do grupo eternamente liderado por Michael Gira a actuar pela última vez em Portugal. Mensagem que chegou a ser passada por Gira no final do concerto, recebendo a efusiva tristeza do público que por lá estava como curta resposta. Correspondeu então a uma ainda maior reviravolta quando as duas datas do grupo foram anunciadas poucos meses depois. A viagem trocou, assim, a noite frondosamente florestal do parque da cidade do Porto por enclausuras citadinas; pormenor que poderia parecer vazio de importância, não fosse a notoriedade da experiência e êxtase causados por um coletivo experimental com o volume e ambiente de Swans. Seria também impossível de ignorar as praticamente três horas ininterruptas de espetáculo que o horário fazia prever – maior que o anterior – apesar do alinhamento se manter notoriamente estável ao longo desta última fase de digressão da banda.

A primeira parte foi assegurada por Baby Dee, artista transgénero marcada pelo seu longo e inesperado passado, que, acompanhada pelo próprio sobrinho, abre com o seu folk teatral a atmosfera e apetite para o prato principal. As suas músicas surgem como um cruzamento entre o burlesco e o circense: linhas de acordeão, tocado pela própria Dee, repetem-se interminavelmente de música para música num drone suspenso, enquanto a sua voz conta de modo apropriadamente dramático situações caricatas da sua própria família, vida e amor. A similaridade sonora, desprovida de intensidade, acaba por reverter o acto de abertura a ruído de fundo que acaba por não encher as medidas. Mas o pano ficou aberto.

 

Em palco, o emblemático chapéu de Gira é deixado de lado. Com os cabelos longos e grisalhos, o sombrio líder olha para a sua própria banda num círculo privado. Sem aviso, o inicio chega com uma única nota de órgão, tensa e arrepiante, invulgarmente suspensa num progresso oscilante. A um ritmo glacial, o infindável sonoro é introduzido. Frequências e texturas em toda a gama espectral rebentam numa caótica sinfonia desprovida de percussão, num volume perigosamente elevado. Notas soltas de piano ecoam, desconexas. A urgência cresce. O gelo derrete e racha com sinuosas muralhas sonoras erguidas pedra por pedra. Evoca-se em palco um monstro sonoro, eternamente crescente em volume ensurdecedor. Gira, qual maestro, esbraceja ao sabor do som, fita o público de olhos fechados, perdido na sua própria explosão sonora – por um lado, quase tão desnorteado como qualquer um de nós, por outro, os seus gestos abrem e fecham volumes, aceleram, congelam, e destroem o tempo. Finalmente, diante do microfone, entoa mantras, profundas, urgentes, lentas como magma; sobrepostas à catarse rítmica subjacente. Swans não são apenas Michael Gira, mas é ao vivo que esta definição mais se esbate, com todos os elementos visuais do palco focados sobre si. O som, porém, em toda a sua complexidade, textura e agressão, é o reflexo perfeito de todos os rostos que pisam o palco.

A música de Swans na presente era (de The Seer a The Glowing Man) é feita de vales, etéreos e arrítmicos, negros e espirituais; e de montanhas, picos de êxtase no topo de escaladas de ascensão e repetição. “The Knot”, a música de abertura (não presente em qualquer álbum de estúdio), estende-se ao longo de praticamente 45 minutos de incontáveis destes movimentos, entregues com uma força, vitalidade e consistência avassaladoras. O resto do espetáculo não difere muito destes moldes. “Screen Shot”, a música que abre To Be Kind, é servida em segundo lugar e representa possivelmente a maior excepção a esta fórmula, bem como o ponto mais acessível da actuação. Entregue em modo single, fica-se pelos 8 minutos originais com um único crescendo massivo e monolítico. “Cloud of Unknowing” e “The Man Who Refused To Be Unhappy” atravessam registos menos violentos (tendo em conta os estandartes máximos até ao momento) até que “The Glowing Man”, peça final do concerto, marca um dos seus momentos mais épicos, com enormes variações estéticas em relação à versão de álbum (algumas partes até reminiscentes da era inicial de Swans) e um final que oscilou entre o desvanecido silêncio e a absoluta destruição tectónica.

A actuação, no entanto, não foi desprovida de incidentes. A banda mostrou-se irrepreensível, especialmente tendo em conta a longa tour de despedida que têm atravessado, tocando praticamente todos os dias. Gira não deixou de mostrar vocal desagrado em relação a certos elementos do espaço, aproveitando a maior parte dos interlúdios entre músicas para pedir alterações nas luzes e no ar condicionado. Para os espectadores, a área em frente ao palco acabou por se revelar excessivamente quente e muitos foram os que fugiram para outros espaços do recinto, onde, infelizmente, a intensidade sonora pecava – uma das maiores desvantagens em relação à actuação em espaço aberto do Parque da Cidade do Porto.

Terá sido a despedida do alinhamento actual de Swans tão épica e memorável quanto poderia ser? Apesar da perfeição técnica e vigor interminável da banda, pormenores do ambiente e da sala baixam alguns pontos desta performance, que, não obstante, se mantém recomendável. Para os nostálgicos, curiosos, ou apenas para os que preferem estar em casa a ouvir Swans, Delinquescence, o álbum ao vivo correspondente ao que ouvimos, está disponível. Para os Swans, resta-nos desejar que, qualquer a nova forma com a qual renasçam, se mantenham tão eternos e intensos como o seu som.

Texto: João Rosa
Fotografia: Nuno Bernardo

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