São já catorze edições daquela que é a mostra de música experimental mais significativa do país. Os anos passam mas a vontade de abrir mentes e lavar ouvidos no Barreiro vai-se mantendo, numa permanência que contrasta com os meios usados: à volatilidade do termo “experimental” há que adicionar a passagem de catorze anos, o que, naturalmente, foi mudando o entendimento do que é este tipo de música.

Dia 1 – 4 de Outubro

O desafio permanente continua a nortear grande parte do festival e a abertura não podia ter sido mais exemplificativa: Jonathan Saldanha juntou dois coros (ambos improváveis) numa sessão de exploração musical que em muito beneficiou da configuração da colossal Igreja de Santa Maria. Os vários grupos de coristas foram-se movendo pela igreja (submersa na quase completa escuridão), fazendo com que a experiência fosse substancialmente diferente consoante a localização no espaço, mas sempre com um efeito de fazer corar muito boa gente que se move pelo mundo do drone. O final, em particular, assumiu contornos catárticos num arrepiante crescendo rítmico que conferiu à actuação um lugar firme na já longa antologia do OUT.FEST.

Dia 2 – 5 de Outubro

O segundo dia foi marcado pelo regresso a uma das salas mais bonitas que já acolheu concertos do festival, o Museu Industrial da Baía do Tejo. A reverberação foi motivo de apreensão para Sei Miguel, mas não foi sequer um factor na viagem pelo mundo do jazz mais abstracto que se seguiu: cinco temas de uma fragilidade e efemeridade tocantes, bem que podiam ser uma banda sonora para o imenso cemitério industrial da antiga CUF.

O começo de Caterina Barbieri não correu bem, mas a partir desse percalço, assistiu-se ao ponto alto do dia. A música da italiana é uma admirável colecção de acidentes orientados que vão tocando um pouco em tudo o que é instituição do mundo da música electrónica, com especial incidência na vertente ambiental. Patterns Of Consciousness já é uma proposta com muito para oferecer mas em concerto o ruído e a experimentação adensam-se de uma forma invulgar em projectos com esta configuração. As subtis transições melódicas evocam a mestria de Klaus Schulze, mas há já muito que é somente de Caterina e isso é o mais admirável.

Uma hora foi perfeitamente suficiente para perceber os méritos da música da italiana mas, por outro lado, a mágoa do momento não se prolongar foi várias vezes revisitada com a actuação de Charlemagne Palestine. Há que não deambular em detalhes como a duração do concerto do nova-iorquino porque há um elemento fraudulento indissociável do mesmo e serve para relembrar (dolorosamente) que nem tudo o que é diferente é necessariamente relevante e, sobretudo, interessante.

 

Dia 3 – 6 de Outubro

A passagem pelo Auditório Municipal Augusto Cabrita é já é um acontecimento natural do OUT.FEST, assim como a escolha do free jazz para iniciar as hostilidades dessas noites – Casa Futuro, trio constituído por Pedro Sousa, Johan Berthling e Gabriel Ferrandini, que deu largas à criatividade. O encontro de Sousa com Ferrandini não é uma novidade e pode ter alguns contornos previsíveis mas, no cômputo geral, o diálogo caótico tem sempre interesse, nomeadamente quando a informidade reina.

Se a regra do primeiro concerto foi a quebra de regras, de Pere Ubu já se esperava algo que se submete a uma série de padrões rock que estão há muito estabelecidos. A discórdia foi semeada pela substituição da bateria convencional por um conjunto de percussão electrónico que se apresentou quase sempre a destempo. Curiosamente, David Thomas não embirrou com este aspecto, embora tudo o resto tenha sido alvo de uma contestação que, sendo entretida, pareceu demasiado teatralizada. No fundo, o espelho de um concerto de rock em 2017.

Estava mais ou menos escrito que a noite teria que pertencer a Lolina. O EP lançado em Maio deste ano revela a continuação do mundo sem planos (e consequentemente sem limites) de Inga Copeland mas a actuação focou-se ainda no muito falado Because I’m Worth It. Se dúvidas houvesse que a carreira a solo de Inga tem algo a acrescentar ao que foi feito com Hype Williams, esta aparição dissipa-as totalmente: o desmembramento dos padrões pop, os beats criativos, a alucinante sequência de referências distintas e a pintura do confuso quadro da urbanidade; tudo em conjunto fizeram desta a actuação do festival. A componente irónica não pode ser dissociada da música de Alina Astrova, mas não a ironia pretensiosa que invade os egos de tantos “artistas contemporâneos”: há uma reflexão descomprometida e quase ingénua sobre a colagem de mundos sonoros (embora não exclusivamente) distintos. Talvez por isto a abordagem seja simultaneamente leve e densa ao mesmo tempo, provocando dança e introspecção no mesmo segundo, como aconteceu várias vezes no AMAC. Uma presença “óbvia” no OUT.FEST, mas que superou largamente qualquer expectativa.

 

Dia 4 – 7 de Outubro

A noite da confusão bem podia ser o subtítulo do derradeiro dia de concertos na ADAO. Como vem sendo hábito nos últimos anos, o festival muda-se para um antigo quartel dos bombeiros e providencia horas de grande agitação.

A electrónica reina na última noite, mas o primeiro grande foco de atenção foram os britânicos (This is Not) This Heat que descarregaram quase quarenta anos de uma história fragmentada, mas riquíssima numa actuação longa e diversificada. A vertente mais avant-garde do prog esteve em exposição numa actuação que foi bem mais que uma viagem ao início dos anos 80, visto que a música de This Heat nem sequer é actual: continua a ser vanguardista num registo muito próprio e dificilmente imitável.

Colectivo Vandalismo, um corpo bem menos estranho ao “tema” dominante da noite, mostrou uma vertente bem mais suja da experimentação electrónica, ao passo que Black Dice entraram em modo rave saltitante, um registo bem distante dos primórdios da banda.

Também dançável, mas bem menos dada a euforias, foi a aparição de Bookworms. Tendo o  techno como ponto de partida, o DJ norte-americano encheu a noite de beats minimalistas e sintetizadores crus, mantendo uma postura impávida durante todo o set: o apelo a certos consumos era meramente sonoro.

Tendo em conta o contexto o encerramento com Nigga Fox não surpreende, mas talvez tenha sido o momento em que a overdose electrónica bateu: o último dia neste registo tem muitas virtuosidades, mas também há tiros ao lado. Nada de grave tendo em conta o que se passou no resto da semana.

Texto: A Generous Boy
Fotografia: Nuno Bernardo

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