Odeio comboios. Pronto, está dito, eu odeio comboios. Especialmente quando se viaja para sítios tão distantes e isolados, toda a experiência pode-se tornar exaustiva. Atrasos, trocas de linha, um stress constante. Mas há sacrifícios que valem a pena e o SonicBlast, que acontecera nos passados dias 11 e 12 de Agosto em Moledo do Minho, é o exemplo perfeito de como uma longa viagem se torna recompensadora. Passar dois dias ao ritmo lento do stoner enquanto se dá um belo mergulho na piscina? Já dizia o outro: “Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha”.

Dia 0 – 10 de Agosto

Mas não há muitas montanhas em Moledo, pelo menos geologicamente falando. Aqui as montanhas são outras, umas mais corporais, outras mais metafísicas, mas ambas belas na sua essência e curvatura. Divagações à parte, o dia 0 fez-se junto à praia, em dois bares distintos: o Paredão 476 e o Ruivo’s Bar. Os Jesus The Snake e os Chaos Ritual animaram, de forma subtil, o terraço do primeiro na parte da tarde, numa altura em que o que os festivaleiros mais queriam era refrescarem-se na praia pós-montagem das tendas. Já na parte da noite, no Ruivo’s, coube aos Desert Mammoth e Mr. Mojo de apresentar o lado mais hostil da cena, nem que fosse uma forma mais pesada da música que iria ecoar durante o festival. Deu para aquecer o pescoço, enquanto não se parava para beber cerveja ou dar aqueles dois dedos de conversa com o amigo ou amiga sobre o “dia de amanhã”.

Dia 1 – 11 de Agosto

Mas a verdadeira festa começou na sexta-feira com It Was The Elf, que nos trouxeram os ares frios da Serra da Estrela para arrefecer uma tarde que se via calorenta demais. Nem a varanda ao lado do palco nos salvava às vezes. No outro lado do espectro aguardava-nos o som desértico dos Black Bombaim, que nos presentearam com um concerto igual a tantos outros já assistidos pelo público, mas os quais valem sempre a pena.

Dirigindo-nos para o palco principal, somos recebidos pelo trio israelita The Great Machine, que trouxeram consigo a intensidade do oriente, mas fora com o improviso espacial de Yuri Gagarin que as coisas começaram a ganhar outro ritmo. Focados no seu álbum At The Center Of All Infinity, os suecos levaram os presentes até outro plano de existência com o seu peso psicadélico, retendo sempre os pés em terra firme. A contrabalançar esta emoção, os japoneses Kikagaku Moyo subiram ao palco para relaxar os presentes com um som claramente inspirado nas suas raízes ancestrais. Fora uma espécie de calma antes da tempestade, pois o resto da noite estava reservada para duas bandas muito esperadas pelo público.

 

A primeira delas, os Monolord, envolveram-nos numa ambiência bem negra, ao bom estilo do doom/sludge. Com temas como “Harbinger of Death”, “We Will Burn” e até a novíssima “Rust” no repertório, proporcionaram bons momentos de headbanging, num concerto competente, mas sem grandes surpresas.

A segunda banda deste duo, no entanto, era a principal razão para muita gente ir ao festival. E consegue-se perceber porquê. Afinal, não é todos os dias que vemos Elder em território nacional. E esta era mesmo a estreia da banda de Massachusetts por cá, que tratou logo de disparar em todas as direcções a um ritmo alucinante, mal entraram em cena. Concentrados na apresentação do seu mais recente registo, Reflections of a Floating World, mas não deixando para trás o material anterior, os norte-americanos deram um concerto que não deixou ninguém indiferente, agradando até aqueles que não conheciam a banda.

A noite ainda não se dava por terminada, pois tínhamos o regresso dos The Cosmic Dead a terras lusas. Com um atraso significativo devido ao voo e trocas de material, a banda escocesa não deixou de agradecer o público pela paciência enquanto faziam um soundcheck meio à pressa. “É Natal!”, gritava James McKay, vocalista da banda, dando por começada a festa. A felicidade de poder estar de volta ao nosso país era notória, a banda adora-nos e nós adoramo-los de volta. Já o concerto podia-se descrever como um exercício em improviso, já que a banda, tal como uns tais de Bong, se recusa a tocar as versões de estúdio das suas músicas, optando por uma abordagem mais inédita, ficando às vezes a dúvida se a banda toca sequer material já gravado, ou apenas composições feitas na hora. Mas os riffs estão lá, conseguem-se discernir algumas coisas. Um bom fecho de primeira noite.

 

Dia 2 – 12 de Agosto

O segundo dia para muitos começou com os Vinnum Sabbathi. Com nome retirado de uma malha de Electric Wizard, a influência da banda inglesa era notória, fosse no som dos jovens mexicanos, fosse na postura dos mesmos em palco. No geral, deu para acordar a malta que lutava para se manter acordada junto à piscina depois da longa noite anterior. Os Löbo não tiveram grande sorte também. Ar livre e luz não são coisas que combinam lá muito bem com a banda, que consegue criar uma óptima atmosfera se lhes forem dadas condições propícias. Mas eles lá fizeram um esforço, sem grande efeito. E eu também estava mais interessado no Virus TI do Ricardo Remédio.

Seguiram-se os Blaak Heat que nos trouxeram um lado mais progressivo do rock psicadélico. E não foi só isso que trouxeram consigo. Alaúde e tambor africano? Inesperado, mas com óptimos resultados. Até certo ponto fazia lembrar musica de westerns. Alguém trouxe peiote?

Toxic Shock, no entanto, já foi outra história. Quando preparava uma antevisão para o festival descobri que os belgas tocavam, de facto, crossover thrash. Estranho, não é? E apesar de parecerem um pouco desfasados do restante cartaz, foram das bandas que mais participação teve do público. Houve de tudo neste concerto desde meio mundo em palco com a banda ao salto suicida do vocalista para a piscina. Podia ter corrido mal, houve quem avertesse o olhar não fosse haver desgraça. Mas o homem lá mergulhou na piscina de Speedo e o pessoal regozijou-se. O melhor concerto de todo o Palco Piscina com certeza.

 

De volta ao palco principal, tínhamos o regresso dos The Machine a Moledo. Eles que já cá tinham estado em 2013, continuaram o passo acelerado já estabelecido anteriormente, num concerto sem grandes falhas, mas também sem grandes momentos. O mais interessante viria a seguir, com o tão esperado regresso dos lendários doomsters Acid King. Claramente focados no seu álbum mais recente, Middle of Nowhere, Center of Everywhere, de 2015, e com uma Lori S. em excelente forma e bastante sorridente, a banda presenteou-nos com um desfilar de músicas do álbum acima mencionado, como a “Laser Headlights” ou a “Red River”, não deixando para trás os clássicos que os definiram como uma referência do género, como a monumental “Electric Machine”. Não podia ter sido melhor.

Para acalmar um pouco o espírito das constantes descargas eléctricas, tivemos a tão esperada estreia em território nacional dos Colour Haze. Apesar de virem com um novo álbum na bagagem, a banda alemã optou por nos apresentar um pouco da sua discografia, tocando temas como “Aquamaria” e “She Said”, para o gáudio dos presentes. Com a belíssima “Tempel” a fechar, ficou apenas a sensação do concerto ter sido curto demais, especialmente para uma banda que consegue passar largas horas a tocar, se for necessário. Algo que poderá ser facilmente rematado num possível regresso.

Chegara, por fim, a hora de presenciar aqueles que foram claramente os reis da noite e talvez do festival inteiro: os Orange Goblin. Com uma vontade imensa de causar estragos e pôr tudo e todos a mexer, o vocalista Ben Ward passou o concerto inteiro a picar e a incentivar o público, fosse através dos típicos “Hey! Hey! Hey!” ou na forma de uma gigantesca wall of death, enquanto a restante banda despejava o seu heavy metal puro e duro a alta velocidade. O alinhamento fora uma espécie de celebração da carreira da banda, desde a “Saruman’s Wish” do primeiro álbum da banda, até à “The Devil’s Whip” do mais recente, não esquecendo clássicos como “Scorpionica”, “Solarisphere” e “Red Tide Rising”. Um verdadeiro festim de suor e sangue, com pessoas a cair quase sem forças e outras a cair com o queixo partido. Delicioso.

Não tão deliciosa fora a última banda. Formados por Mark Greening (ex-Electric Wizard) e Virginia Monti, os Dead Witches subiram ao palco para um público notavelmente exausto depois da correria que fora o concerto anterior. Mesmo assim, a vocalista ia tentando puxar pelo público que aos poucos ia respondendo com algum entusiasmo, fosse pela vontade de ouvir os riffs hipnóticos de Oliver Hill ou para observar as poses sensuais da própria vocalista. Não fora o melhor fim para o festival, mas nada na vida é perfeito. Fica apenas o desejo que a banda tivesse tocado mais cedo. E que o Verão de 2018 venha depressa, o desejo de voltar a Moledo já é grande.

 

Texto: Filipe Silva
Fotografia: Vítor Domingos

Bónus: Galeria de fotos de ambiente.

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