Depois do aclamado renascimento, o ritual de peso repetiu-se, maior e mais sentido do que nunca. Cumprindo a tradição, a negra romaria dos devotos aos sons metálicos parou em Vagos, a capital portuguesa do Metal. Durante três intensos dias, reinou a distorção, por entre nuvens de poeira, cânticos sentidos e gritos de libertação.

Um mar de gente nunca antes visto em festivais do género em Portugal alimentou-se de concertos memoráveis, acompanhados pelo doce e reconfortante hidromel, a bebida dos deuses, deuses esses que marcaram presença em palco. Com um cardápio sonoro rico e variado, houve música para todos os ouvidos, em concertos pautados pelo respeito para com as bandas e pela forte interação do público.

Concertos
Dia 1 (11 de Agosto)

O primeiro dia do Vagos Metal Fest 2017 ficou marcado por emoções fortes: o orgulho no Metal nacional, com a inesperadamente forte presença de público nos concertos de Tales For The Unspoken e Revolution Within; a energia e boa disposição dos And Then She Came e Gama Bomb; a curta mas sentida e nostálgica despedida dos Rhapsody; o poder revolucionário dos Arch Enemy; a muito aguardada estreia dos Wintersun; o fecho teatral com os históricos Therion e os bizarros Grunt.

Tales For The Unspoken

a força do Metal nacional

Os termómetros marcavam 29° às 16 horas, com o sol ainda demasiado alto para haver sombra no recinto. Sem um segundo do atraso, o Vagos Metal Fest arrancava ao som de Possessed dos Tales For The Unspoken. Cá em baixo, indiferentes ao desconfortante calor, centenas de pessoas criavam uma moldura humana de respeito ao Metal português. Em palco, a banda agradeceu a todos a deslocação à “Meca nacional do Metal”, aproveitando o caloroso apoio do público para festejar em grande os seus 10 anos de carreira.

Numa setlist curta e equilibrada, com três temas de cada um dos dois álbuns, Marco Fresco mostrou-se um frontman puro, dando voz a temas como Mental Strength, Soul For A Soul e Say My Name, com a ajuda esporádica do guitarrista fundador da banda, Nuno Khan. Em I, Cladius, o som venceu o calor, e o recinto levantou a primeira poeira com a abertura do mosh pit. Despedindo-se com o ritual N’Takuba Wena, na qual tiveram ajuda do público, os Tales For The Unspoken mostraram o porquê de serem um dos nomes que mais badalados do novo Metal que se faz por cá.

And Then She Came

a simpática anime saltitona

O segundo concerto teve início às 17 horas, com a estreia em Portugal dos alemães And Then She Came. Com uma atitude bastante enérgica, sobretudo na sua vocalista de ascendência coreana Ji-In Cho (que ninguém diria já estar nos 40), a banda tocou durante 38 minutos e deu um concerto agradável. Num registo mais próximo do Rock do que do Metal, ao contrário do seu antigo projecto Krypteria, o quarteto teve momentos altos em músicas como Public Enemy #1, Would You Die Tonight? e Hellfire Halo.

Apesar da sonoridade destoar um pouco do conceito do festival, com um Rock alternativo a lembrar por momentos músicas de anime, foram bem recebidos e retribuiram com boa disposição e entrega. A voz nem sempre esteve afinada, mas está desculpada pelo facto de ter aprendido a dizer “está muito calor” em português. Despendindo-se com Like A Hurricane, sairam de palco com sorrisos e sob aplausos do público metaleiro, num exemplo de respeito e tolerância por outras sonoridades.

Revolution Within

sem dó nem piedade

A segunda das três bandas portuguesas do dia subiu a palco também à hora marcada. Eram 18 horas quando Rui Alves e companhia mostraram toda a sua raça, num concerto de Thrash Metal puro e duro. O público, já com o palco a fazer sombra, aproveitou a temperatura a descer para reiniciar o mosh pit, movimentando-se ao som de músicas como Silence, From Madness To Sanity e Without A Reason For Denial.

Depois da Revenge Now, o vocalista dos Tales For The Unspoken, Marco Fresco, subiu a palco, para dividir o trabalho vocal com Raça em Pull The Trigger. Para terminar em grande, a banda pediu uma wall of death em Pure Hate, concedida pelo público presente, que respondeu assim afirmativamente ao pedido de “tornar este dia memorável”. Em resumo, 37 minutos de pura loucura, noutra prova que o Metal português tem tudo para tocar em palcos principais.

Gama Bomb

o divertido ninja de pijama

No ano em que festejam 15 anos de carreira, os britânicos Gama Bomb subiram ao palco do Vagos Metal Fest à hora marcada, para um dos concertos mais divertidos do festival. Com um majestoso pijama amarelo, Philly Byrne liderou o quinteto que abriu o concerto com Zombie Blood Nightmare. Com um Thrash Metal à antiga, pincelado por humor, o público fez a festa em músicas como Ninja Untouchables (Untouchable Glory), Hammer Slammer e We Respect You.

À semelhança dos And Them She Came, também eles se deram ao trabalho de aprender algo em português além do tradicional “obrigado”, dizendo “é muito bom estar aqui com vocês”. Da música inspirada no vilão do Robocop, OCP, à wall of life que começou com abraços em Avenge Me!, passando ainda pela anti-fascista Mussolini Mosh, foram quarenta minutos de festa bem regados por Super Bock (e não Average Bock, como o vocalista fez questão de sublinhar). A despedida fez-se com Terrorscope e Zombie Brew.

Rhapsody

a despedida dos mestres sinfónicos

Poucas bandas marcaram tanto um género como os Rhapsody fizeram com o Symphonic Power Metal. Quando passavam 15 minutos das 20 horas, os Rhapsody Reunion, que juntam entre outros os míticos Fabio Lione e Luca Turilli, iniciaram o concerto com Emerald Sword. Numa prestação técnica e vocal irrepreensível, os ex-membros dos agora Rhapsody Of Fire revisitaram os clássicos da banda, com uma setlist curta (apenas 10 músicas) mas intensa.

Entoando hinos como Symphony of Enchanted Lands, Land of Immortals e Dawn of Victory, a banda fez as delícias dos fãs presentes. Depois do pico de sentimentalidade na balada épica Lamento Eroico, o concerto partiu para os momentos finais a todo o vapor com a frenética Holy Thunderforce, caindo o pano ao som de In Tenebris e de um mar de aplausos. Apesar de perfeito enquanto durou, uma hora ficou a saber a pouco; não faria mal nenhum ouvirmos também Riding The Winds Of Eternity ou Rain Of A Thousand Flames.

Arch Enemy

o mundo é deles, o prazer é nosso

Os cabeças de cartaz do primeiro dia eram os suecos Arch Enemy. Com um novo álbum a sair já em setembro, foi precisamente com o primeiro single dele retirado que iniciaram as hostilidades, com a forte mensagem de encorajamento The World Is Yours. A bela com voz de monstro e cabelo Smurf, Alissa White-Gluz, cativou grande parte das atenções, numa prestação vocal poderosa e demoníaca. No entanto, por mais bela e intensa que fosse, é impossível ignorar em palco os dois mestres guitarristas Michael Amott e Jeff Loomis, que juntamente com Sharlee D’Angelo criaram um trio de cordas hipnótico.

O pit voltou a incendiar-se, abrindo um círculo na maior enchente da noite. Com toda a gente a saltar em No Gods, No Masters, até a terra tremeu! Uma hora e 15 minutos depois de começar, o apocalipse terminou com Nemesis, deixando para trás corpos suados e empoeirados, prontos para pouco tempo depois verem brilhar o sol de inverno em pleno coração do Verão.

Wintersun

os filhos do inverno a tocar sob as estrelas

Meia hora depois das 23, Jari Mäenpää e companhiam subiam a palco, ao som de um dos temas do seu novo álbum, Awaken From The Dark Slumber (Spring). A tão aguardada estreia em Portugal dos finlandeses Wintersun resultou numa hora épica e alucinante, com o álbum homónimo de estreia a dominar metade da setlist (Winter Madness, Beyond The Dark Sun e Starchild).

Com um vocalista comunicativo e um público acolhedor, chamando pelos Wintersun por várias vezes, a celebração do sol de inverno teve o seu ponto alto no épico de 13 minutos Sons Of Winter And Stars. Com pequenas falhas ocasionais no som, sobretudo nas transições entre camadas nas músicas, o concerto revelou um Jari com uma voz surpreendentemente no ponto ao vivo. A despedida deu-se no tom mais melancólico de Time, naquele que foi, a par de Rhapsody, o concerto da noite.

Therion

uma peça com muitos actores

Quarenta minutos depois de terminar o concerto anterior, os históricos Therion, no ano em que celebram 30 anos de carreira, fizeram soar a entrada divinal de The Rise Of Sodom And Gomorrah. Equilibrada na discografia, com 10 músicas retiradas de 7 álbuns diferentes, a setlist foi uma viagem do longínquo Theli ao mais recente álbum de originais Gothic Kabbalah, passando pelo clássico Vovin com, além da música de abertura, Wine Of Aluqah, e pelo marcante Secrets Of The Runes com Ginnungagap.

Apesar da qualidade das músicas, o concerto pareceu algo disconexo, com excessiva movimentação em palco e um Thomas Vikström demasiado brincalhão e errante. Sem Lori Lewis e Snowy Shaw ao vivo, a magia vocal não é a mesma, apesar da competência técnica das duas vocalistas em palco. Momento marcante foi o regresso aos palcos do fundador da banda Christofer Johnsson, que fez um breve discurso emocionado, referindo o quão bom é voltar aos palcos depois de uma hérnia discal no pescoço ter ameaçado um final precoce da sua carreira ao vivo. Brincando com o facto dos HammerFall terem roubado o seu antigo baterista, Johan Koleberg, Christofer e companhia tocaram To Mega Therion e Cults Of The Shadow, num final de concerto bastante melhor que o resto.

Grunt

BDSM ✋

O final do primeiro dia teve como protagonistas os portugueses Grunt. Passavam menos de 15 minutos da hora marcada, quando a banda subiu a palco, vestida a rigor para um espectáculo mais visual e brutal. O destaque teria ido para a símbolica e misteriosa mão na vertical à frente da cara, não fosse a mulher em lingerie à frente do baterista, onde ficou na mesma posição praticamente durante todo o concerto.

A brutalidade do som deu energia ao pit, onde até copos voaram. A banda frisou que, por muito que tocassem no estrangeiro, era ali que queriam estar, connosco. Perto do final, o vocalista Boy-G disse que se o público quisesse mamas, teria que pedir por elas; e assim foi, a mulher em palco foi (ainda mais) despida, numa pequena e algo confusa encenação de domínio masculino. Num concerto onde se aplaude o esforço para terem algo diferente, na verdade o som acabou por ser mais interessante que toda a teatralidade. Passavam 10 minutos das três da manhã quando a banda saiu de palco, muito satisfeita, dizendo que nós tínhamos sido as estrelas daquela noite.


Dia 2 (12 de Agosto)

Uma multidão sem fim tomou Vagos de assalto no segundo dia do festival. Da surpreendente revelação que foram os Implore, saltámos para o core que se faz lá fora e cá dentro, tendo os Hills Have Eyes ganho o saudável duelo aos Brutality Will Prevail. O metal clássico teve espaço com os Metal Church, mas foram os Primordial que nos fizeram viajar e os Korpiklaani festejar de copo na mão. A fechar a noite, em Soufly fez-se história, seguindo-se uma ligação épica entre banda e público com Powerwolf e um ritual intenso com os magníficos Batushka.

Implore

tempestade sonora sob o astro escaldante

O segundo dia do Vagos Metal Fest comecou com os alemães Implore. Sob um sol quente, que inicialmente afastou o público, a banda impôs a sua sonoridade agressiva, com riffs rasgados e batida potente, naquela que foi uma das mais agradáveis revelações do festival.

Agradecendo à plateia, que ia crescendo aos poucos, por suportarem o calor para os ver, os Implore aproveitaram para tocar músicas do seu novo álbum, Subjugate. Foram 36 minutos que deram para mostrar o potencial da banda, que deu um bom espectáculo e arrancou da melhor forma o dia de maior enchente no festival.

Brutality Will Prevail

gymcore

Ainda faltavam dois minutos para a hora marcada quando se ouviu trovoada, anunciando a entrada em palco dos Brutality Will Prevail. Com uma presenca em palco extremamente enérgica e movimentada, que cansou só de ver, o conjunto galês mostrou-se capaz de fazer o pit fervilhar.

Deambulando pelas sonoridades de músicas como The Path, Casket e Fallen Apart, foi o primeiro cheirinho de core no festival, que teria um papel mais predominante no terceiro dia. Meia hora depois de terem começado, despediram-se com Trapped Doors Moving Walls, recolhendo aos balneários depois de uma brutal aula de educação física.

Hills Have Eyes

de olhos postos no mundo

Do core internacional para o nacional, chegaram-nos os Hills Have Eyes. Com uma presença em palco natural e convidativa à loucura, tocaram também durante cerca de meia hora, com temas compostos por doses equilibradas de peso e melodia.

Aproveitando para reforçar a importância de toda a gente fã de sonoridades pesadas se respeitar e apoiar, independentemente do género, foram organizados no seu próprio caos e despediram-se em grande, não deixando margem para dúvidas que são, actualmente, os grandes catalisadores do género em Portugal.

Metal Church

o culto do Heavy Metal

Depois da dose dupla de core, chegara a vez da velha guarda invadir o palco, com os históricos de Heavy/Thrash Metal Metal Church. Os norte-americanos foram bem recebidos pelo público, que cantou, moshou e surfou, mas durante os 50 minutos de concerto, este nunca pareceu realmente atingir a qualidade esperada.

Apesar dos quase 40 anos de carreira parecerem não pesar na banda em estúdio, como prova o excelente álbum de 2016 XI, ao vivo parece já faltar alguma energia a todos, bem como afinação ao vocalista Mike Howe. Não obstante, deram um concerto agradável, que terminou 15 minutos antes das 20 horas e serviu para chamar de volta ao recinto aqueles cujos ouvidos são menos receptivos ao core.

Primordial

aqueles que trazem a escuridão

A edição de 2017 do Vagos Metal Fest teve o seu apogeu nos últimos cinco concertos do segundo dia. Foi pouco depois das 20 horas que os irlandeses Primordial, com Where Greater Man Have Fallen, criaram a atmosfera negra, sufocante e épica que estariam omnipresentes durante a hora de concerto. O vocalista Alan “Nemtheanga” Averill incarnou a pele de um fantasma de antigas guerras e glórias caídas em desgraça, sempre intenso na sua actuação e com vocalizações arrepiantes em músicas como No Grave Deep Enough e Babel’s Tower.

Os mortos ergueram-se, cidades foram queimadas e os traidores subiram ao poder, num concerto apenas manchado pela falha no microfone em The Coffin Ships, que mesmo assim conseguiu ser o momento mais inesquecível do concerto. O vocalista, acompanhado por uma garrafa de vinho que ia revisitando, disse-nos que tinha sido um prazer trazer connosco o pôr-do-sol, despedindo-se com a emotiva Wield Lightning to Split the Sun e a imperdível Empire Falls, deixando no final a promessa de regressar ao nosso país.

Korpiklaani

a festa do clã da floresta

Os concertos de Folk Metal trazem magia a Vagos. Os veteranos finlandeses Korpiklaani não foram exceção à regra; assim que as primeiras notas de A Man With A Plan soaram, o público entrou em modo de festa, transformando este no concerto mais divertido de todo o festival. Os seis músicos em palco mostraram-se enérgicos e saltitantes, sobretudo o vocalista Jonne Järvelä, mas parece-me que, mesmo que estivessem completamente imóveis, a festarola cá em baixo seria igualmente caótica.

Tocando durante pouco mais de uma hora, o concerto manteve-se quase sempre no mesmo ritmo, com o melhor guardado para o fim. Se com Wooden Pints o ritmo já tinha acelerado um pouco, quando se começou a ouvir a Vodka o público explodiu, saltando e cantando como se não houvesse amanhã. O mesmo cenário repetiu-se na despedida com Beer, Beer, qual final boémico épico.

Soulfy

os extremos Cavalera

Era tempo das almas voarem. As duas décadas de carreira dos Soulfly, liderados pelo mítico Max Cavalera, estavam prestes a ser celebradas pela maior enchente de público do Vagos Metal Fest 2017. Dez minutos após as 23 horas, as hostilidades arrancaram, com a explosiva Blood Fire War Hate. Os seguranças do recinto tiveram a noite das suas vidas, enquanto amparavam os muitos que apostaram no crowd surfing, que por vezes chegavam aos três ou quatro de cada vez. Em palco, a banda revisitava o álbum Prophecy com um trio de temas, sendo que antes nos deram também um amostra do seu álbum mais recente trabalho com We Sold Our Souls To Metal.

Um brilhante solo de Marc Rizzo antecedeu Seek ‘N’ Strike e I And I; já Max Cavalera não esteve tão bem, mostrando-se uns furos abaixos daquilo que já foi, tanto a nível de energia como vocalmente. No extremo oposto, o baterista Zyon Cavalera revelou-se um verdadeiro monstro técnico, provando que o legado Cavalera veio para continuar.

A recta final do concerto foi absolutamente caótica. Desde a gigante wall of death em Back To The Primitive ao maior pit do festival em Refuse/Resist, com a futebolística Umbabarauma pelo meio, o extremo da loucura atingiu-se no final com o salto sincronizado em Jumpdafuckup. Uma hora e 20 minutos depois de terem começado, os Soufly despediram-se ao som de Eye For An Eye, num concerto que fica para a história de Vagos.

Powerwolf

a santa missa do Heavy Metal

Depois da loucura Cavalera, a tarefa que incumbia aos Powerwolf era gigantesca. Sem se deixarem intimidar por isso, aproveitando a energia que ainda emanava do público (que já entoava o nome da banda mesmo antes destes subirem a palco), e aliando essa energia à sua música naturalmente cativante, o conjunto germânico conseguiu dar um dos melhores concertos do Vagos, ou mesmo o melhor, se considerarmos a forte interação que teve com o público do princípio ao fim. Apresentando-se com um divertido “good morning”, desde cedo a banda tentou extrair o máximo da plateia, que progressivamente se ia rendendo à boa disposição e refrões catchy da banda de Power Metal.

Com Army Of The Night e Amen & Attack em destaque na primeira metade do concerto, foi com Armata Strigoi que a multidão se revelou um coro cheio de alma, num longo e divertido exercício com a banda. Attila Dorn foi um frontman inesgotável, entoando Let There Be Night com uma mestria vocal impressionante. Depois dos uivos em Werewolves Of Armenia, fomos explosivamente sanctificados com Sanctified With Dynamite, antes da despedida final com o hino We Drink Your Blood. São concertos como este que tornam o Metal único ao vivo.

Батюшка

invocando demónios

Uma das bandas que mais curiosidade suscitava no cartaz eram os misteriosos russos Batushka (em português, pai, no sentido de padre). Um aglomerado considerável de público manteve-se de pedra e cal à sua espera, apesar do enorme atraso de 45 minutos. Por fim, as figuras de demoníaca religiosidade ascenderam dos infernos, para iniciar um ritual onde a visceralidade do Black Metal foi enriquecida por lúgubres cânticos russos, qual evocação da essência das trevas.

O vocalista principal, o padre, tinha um altar, onde proferiu a sua missa rodeado por velas apagadas e adornos dourados. Ao longo do espectáculo, o público foi benzido, um quadro com a capa do álbum foi usado como foco das atenções e uma tempestade grandiosa assolou a plateia, dividida entre a pura admiração e a estupefacção. Tocando o álbum de estreia, Litourgiya, na íntegra, os demónios anónimos deixaram-nos, fechando de forma perfeita aquele que foi o melhor dia do Vagos Metal Fest 2017.


Dia 3 (13 de Agosto)

Numa verdeira mixórdia de sonoridades, o último dia do Vagos Metal Fest 2017 teve do melhor e do menos bom. Reaktion e Chelsea Grin tiveram atitude, mas não surpreenderam; o Metal nacional despediu-se com uns Attick Demons em forma, e o Rock português deu o primeiro e último suspiro na festa de riffs que foram os Miss Lava. O Thrash dos Havok e o Deathcore dos Whitechapel trouxeram a casa abaixo, que se reergueu no grande concerto dos Hammerfall. A fechar, foi impossível ficar indiferente à tecnica de Gorguts, cuja velocidade constrastou com a despedida arrastada dos Cough.

Reaktion

a todo o gás para meia casa

O último dia do festival tinha chegado. Com o tempo ainda quente, a maior parte do público guardou forças para os últimos concertos, resultando num número baixo de espectadores no primeiro concerto do dia. Os catalães Reaktion apresentaram-se em palco com o seu álbum de estreia, Blackmailed Existence, na bagagem, que tiveram tempo para tocar quase na íntegra.

Um Thrash Metal pouco original mas bem executado recolocou o Vagos Metal Fest em marcha. Com uma atitude intensa, sobretudo do vocalista Iván Lara e o seu olhar maníaco, a banda mostrou-se competente e capaz de entreter os thrashers que esperavam pelos Havok.

Attick Demons

a voz do Heavy nacional

Apesar de terem apenas dois álbuns lançados, relativamente recentes, são já 21 anos de carreira que pesam nas costas dos Attick Demons. Com eles vêm a experiência, bem vincada na curta mas bem recheada meia hora de concerto. Com a voz de Artur Almeida em destaque, a referência vocal do Heavy Metal nacional, o quinteto lisboeta provou em apenas cinco músicas ter qualidade para dar e vender.

Com três temas retirados do seu álbum mais recente, Let’s Raise Hell, foi com os dois de Atlantis que o público mais vibrou, City of Golden Gates e o tema homónimo a fechar o concerto. Despedindo-se dos seus demons, um grupo fiel de seguidores que marcou presença, os Attick Demons foram, à semelhança da banda anterior, um aperitivo de entrada apetitoso para, desta feita, o concerto de Hammerfall.

Miss Lava

o peso do stoner

O final de tarde prosseguiu com um pouco de Rock, mas pesado o suficiente para não destoar num festival de Metal. Em apenas uma década, o quarteto stoner lisboeta conquistou um lugar de destaque no panorama nacional, muito culpa dos riffs contagiantes que pudemos testemunhar em Vagos, logo à primeira, com The Silent Ghost Of Doom.

A última banda nacional a actuar no Vagos Metal Fest 2017 fez jus às cores da nossa bandeira, num concerto onde não faltou Black Unicorn, no seu novo EP Dominant Rush, nem o seu hit de referência Ride, uma pérola do Rock nacional. A banda saiu de palco após meia hora, certamente conquistando novos fãs entre a malta da pesada.

Chelsea Grin

explosão core

Dez anos de carreira, seis músicos, quatro álbuns, dois EP’s, uma infinidade de breakdowns. Os norte-americanos Chelsea Grin foram a primeira banda do dia que realmente contribuiu para consideráveis nuvens de poeira, fruto de um pit insaciável, que formou também a primeira wall of death do dia 13.

Brutalmente pesado, este concerto foi a prova que às vezes menos é mais; no meio de tanto ruído, o mais interessante foi mesmo ver o público e a movimentação dos artistas em palco, uma vez que o som se torna bastante cansativo e repetitivo ao fim de poucas músicas. Meia hora depois de subirem a palco, despediram-se ao som de Broken Bonds.

Havok

a voz da resistência

A última despedida do sol foi feita ao sabor do Thrash Metal dos Havok. Naquele que era, para muitos, o concerto mais esperado do dia, a banda dos Estados Unidos provou o porquê de serem já um fenómeno, apesar de ainda não ter passado uma década do seu álbum de estreia. Sem rodeios, o seu som estridente penetra o corpo, abundante em riffs para abanar a cabeça e com uma vertente técnica que por vezes os aproxima dos seus conterrâneos Vektor.

Se toda a banda esteve a grande nível em palco, não há como não dar o pódio ao baixista Nick Schendzielos, uma verdadeira máquina demolidora. Durante uma hora, o ar tornou-se menos respirável, com nuvens de poeira a levantaram-se sob os pés do pit frenético. Com palavras de incentivo ao pensamento livre e crítico, apelando à revolta contra as normas estabelecidas, o concerto teve uma forte carga (anti) política, ligeiramente menos forte que o peso que fluia dos instrumentos. Na despedida, o único membro fundador restante, David Sanchez, apelou a todos para deixarem para trás um mundo melhor do que aquele que encontraram.

Whitechapel

o som do apocalipse

Não se esperava menos do que um terramoto sonoro no concerto de estreia em solo lusitano dos Whitechapel. Sem espinhas, abriram com a tempestiva The Saw Is The Law. Apesar de terem menos público que as duas bandas que os rodeavam no alinhamento do festival, os que estavam fizeram jus à sonoridade da banda, incansáveis enquanto moshavam ao som de I, Dementia, Mark Of The Blade e Let Me Burn.

This Is Exile foi o final extremo para um dos concertos mais ruidosos do Vagos Metal Fest 2017, onde 53 minutos bastaram para deixar os fãs rendidos. Já para quem não gosta de core, fossem ou não Elitist Ones, foi uma boa hora para aproveitar para jantar.

Hammerfall

à conquista dos (nossos) corações em fogo

A espera adivinhava-se longa. Com o concerto anterior a terminar antes das 22 horas e o próximo previsto para as 23, muitos aproveitaram para ir comer, dar uma última volta pelo recinto ou simplesmente descansar. Apanhando toda a gente de surpresa, porque não foi anunciado previamente, os Hammerfall começaram a tocar meia hora antes do esperado. Uma multidão confusa, mas desejosa de ver as lendas suecas do Power Metal, apressou-se a formar uma moldura humana considerável, possivelmente a maior da noite, enquanto em palco o vocalista Joacim Cans cantava as primeiras notas de Hector’s Hymn.

Com um controlo do palco e do público firme, o quinteto deu aquele que foi porventura o melhor concerto do dia. Intercalando as supersónicas Bring It! e Renegade com o ritmo mais baixo com solos magníficos de Last Man Standing e Any Means Necessary, sem esquecer clássicos como Let The Hammer Fall ou a longa balada antes do encore, Glory To The Brave, a banda provou estar a envelhecer bem. Nas palavras dos próprios, “podemos ter uma aparência velha, mas seremos eternamente jovens; não existe limite de idade para o Metal”. Regressando a palco para o encore de três músicas, foi com Hearts On Fire que se deu a despedida final, com o público a dar uma ajuda no refrão, num dos momentos mais sentidos do festival.

Gorguts

monstruosidade técnica

O festival caminhava a passos largos do fim. Do céu negro começava a surgir uma ténue neblina, dando as boas vindas ao históricos canadianos Gorguts. Ao centro do palco, o portentoso mentor da banda, Luc Lemay, começou, com a ajuda do trio que o rodeava, a despejar sobre o público atento uma rajada brutal de Death Metal técnico, rico em riffs complexos e com uma dose equilibrada entre brutalidade e controlo instrumental.

Numa setlist onde não constaram os dois históricos primeiros álbuns da banda, houve espaço bem distribuído para os restantes três, com as faixas homónimas do From Wisdom To Hate e do Obscura, a abrir o concerto. O álbum mais recente, Colored Sands, teve direito a três temas, dois deles a fechar: An Ocean Of Wisdom e Forgotten Arrows. Naquele que foi, tecnicamente, um dos concertos mais deliciosos do festival, o mosh pit despediu-se de Vagos, esgotando as últimas energias, que não seriam necessárias para a banda final.

Cough

a lenta, imóvel, arrastada tosse

Passavam 43 minutos da 1 da manhã. Grande parte do magote das trevas já tinha dispersado, recolhendo nas sombras, num adeus precoce ao festival. No entanto, um bom número de resistentes manteve-se de pedra e cal no recinto, testemunhando a entrada em palco dos estado-unidenses Cough. O que se seguiu, nos 47 minutos seguintes, foi um memorial ao Sludge Doom, acompanhado por imagens de um filme macabro a preto e branco, em ritmo ultra lento, com vozes viscerais arrastadas e uma parede de distorção a ecoar na noite.

O nevoeiro era agora cerrado, criando o ambiente perfeito para a sonoridade funeresca da banda. Praticamente imóveis e sem interação durante todo o concerto, interromperam apenas o espelho de indiferença quando agradeceram ao público presente por ainda estarem de pé. Depois dos 10 minutos da diabólica Possession, o quarteto saiu de palco sem despedida, colocando um ponto final no Vagos Metal Fest 2017. Lentamente, anestesiados pelo doom e pelo cansaço, os metaleiros recolheram finalmente para o merecido descanso, após três dias de festa intensa e memorável.


Para lá da música

Nesta segunda edição, o Vagos Metal Fest aproveitou para fazer melhorias ao recinto. Com um espaço mais organizado e mais preenchido, os festivaleiros puderam disfrutar de uma experiência completa, com muitos locais para sentar e conviver e bem servidos de restauração, sem preços exagerados. Embora no geral a qualidade da comida não fosse a melhor, a oferta foi mais variada do que aquilo que se vê na maioria dos festivais. E claro, não faltou o divino hidromel!

O ponto mais fraco foi mesmo o merchandise, com poucas bancas. Também negativa foi a invasão mosquiteira que assolou o recinto, onde involuntariamente pudemos experienciar picadas de uma variadíssima fauna invertebrada. Nada que precauções extra não resolvam na próxima edição!

No geral, as condições de campismo foram as esperadas, mas podem ser melhoradas. A falta de sombra para tanta tenda não será fácil, mas o problema da escassez de tomadas para carregar equipamentos tem resolução fácil. Já as casas de banho dos festivais são o que são, ninguém gosta mas desconheço alternativas.

Um detalhe bastante positivo foi a permissão de entrada no recinto de garrafas de água. Com o calor que se fez sentir, o levantamento desta restrição foi muito bem vindo!

De salientar que a proximidade do festival com os fãs e com a imprensa continua a ser bastante íntima, com comunicação e disponibilidade constantes. Ao dar ouvidos aos fãs e ao dar à imprensa todas as condições para fazer o seu trabalho, com melhorias prometidas para o próximo ano, o Vagos Metal Fest segue no caminho certo e terá sempre o apoio de todos.

Balanço

A segunda edição do Vagos Metal Fest foi, ao contrário da primeira, planeada atempadamente e ao pormenor. Depois da prova que conseguem fazer o impossível em tão pouco tempo, como foi a organização relâmpago da primeira edição, a confirmação que esta equipa sabe o que está a fazer e que, com tempo, tudo melhora. Prova disso foi a lotação quase esgotada, que transformaram esta edição no maior festival de Metal em Portugal até à data.

Destaque para a pontualidade dos concertos, que, salvo o grande atraso de Batushka, começaram sempre à hora marcada ou, no máximo, com poucos minutos de atraso. No entanto, para se conseguir esta pontualidade, existiram pausas relativamente longas entre eles; pessoalmente, até gosto, mas não será do agrado de todos, sobretudo no último dia do festival, quando muitos têm que trabalhar no dia seguinte.

Também salvo situações pontuais, o som foi bom e sem falhas, permitindo uma experiência sonora alta, como pede o Metal, mas sem excessos. Quase todas as bandas se mostraram à altura do desafio, com destaque para o inesperadamente brilhante concerto de Powerwolf.

Brilhante também foram os HammerFall, mas a falha de comunicação com o público pecou aqui, com o concerto a começar meia hora antes do previsto. Foi uma situação que apanhou todos de surpresa, que só teve como positivo o facto do festival ter acabado mais cedo, o que permitiu a quem tinha que ir trabalhar no dia seguinte ir descansar a tempo e horas.

Se a primeira edição foi excelente, para quem teve poucas semanas para a organizar, esta foi a evolução esperada e natural do festival. Para o ano, espera-se que as pequenas melhorias sejam implementadas, e que os muitos pontos positivos sejam mantidos, para que as almas metaleiras se possam reunir mais uma vez, unidos pelo amor à música pesada. E se alguém vos perguntar onde é o Vagos, já sabem o que responder, certo?

Agradecimentos e Créditos

À Amazing Events, pela acreditação e pelo festival

À Câmara Municipal de Vagos, representada pelo seu presidente Dr. Silvério Regalado, por acreditarem e apoiarem o festival

À equipa de comunicação composta pela Margarida Chrystêllo e pelo Manuel Salvador, pela constante disponibilidade e apoio

Ao Restaurante Bifinho, pela simpatia e excelente comida

Aos nossos colegas de imprensa, pelo respeito mútuo dentro do pit

Aos festivaleiros que interagiram connosco, pela força dada

Texto: David Matos

Fotos: David Matos e Marina Silva

Fotogaleria

Bandas – 1º Dia

 

Bandas – 2º Dia

 

Bandas – 3º Dia

 

Público

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