Num festival que apresenta, em catadupa, coisas boas e/ou coisas más (ou coisas boas que são más e coisas más que são boas conforme a diluição de substâncias potencialmente comprometedoras), o lançamento da experiência humana é dos melhores exemplos do conceito imortalizado pelo reitor da Universidade de Friburgo entre 1933 e 1934: dasein. O súbito corrupio por entre brilhantismo, competência ou mediocridade estética, obliteram qualquer consideração estrutural de matriz cartesiana e questionam violentamente qualquer tipo de esforço para encontrar categorias de entendimento que não ruam sobre o seu próprio impulso fundador.

No entanto, e apesar do brilhantismo do outrora membro do partido nazi, é talvez nos espectros de J. K. Schmidt que a questão ganha contornos mais substantivos: é o autor de O Único e a Sua Propriedade (obrigado, Dr. Barrento), com a sua proposta radical de ser livre (não confundir com qualquer entrada wikipédiana sobre “liberdade”) que nos pode oferecer a mais abrangente explicação do estado encontrado em frente a qualquer um dos palcos do SMSF e, de forma bem mais evidente, nesta mesma perspectiva aqui descrita: o nada creativo é posição de partida e de chegada, na certeza da insuficiência da palavra e da sua ligação ao engano. Pelo meio aqui usado, a procura de libertação é, simultaneamente, exercício tão fútil como absolutamente necessário.

Dia 1 – 8 de Junho

É quase hipotermia. Sem h ou y, fala-se forçosamente de sensação e não de quem a provoca mas é também figura de estilo (forçada, reconheça-se sem pudores) para o estado actual de Hypothermia. Para gelar falta pouco, mas (já) falta: talvez seja demasiado instrumental, talvez se tenha perdido o corte de outrora e talvez, por consequência, falte sangue. Por tudo isto, a noite só é levemente fria. Não há morte, apenas desmaio. Kim Carlsson sempre percebeu, melhor que muitos (quase todos?) que gravitaram na “cena” dsbm, a importância de olhar para as ruínas enquanto inspiração fundamental. A ironia, tendo em conta o estado actual do projecto sueco, pode ser apreciada com a ajuda de um espelho.

Pondo o cepticismo de lado (as anfetaminas ajudam sempre), é impossível não sentir o bafo venenoso da depressão – o da esperança fica enterrado com o Pacheco – em Hypothermia. De perceber que há um universo emocional complexo e perturbado que é acentuado pela simplicidade da música. Repetir para marcar um momento ou uma sensação só faz sentido quando se sabe exactamente para o que se está a apontar e, no caso de Kim, poucas vezes se cai na redundância.

A explicação está no aperfeiçoamento do improviso como motriz deste universo, uma estranha intrusão em muitos musicalmente longínquos que, nas lides mais “extremas”, quase só no black metal consegue encaixar.

É “Melankoli” que tudo acaba. O sangue que faltava está cá e não é nos braços de ninguém que escorre, mas sim por entre o ritmo lento de riffs carregados daquilo que o poeta que todos citam (e ninguém leu) chamou “paz de angústia”. “Melankoli” é analepse que dá vontade de fixar. Intenção e resultado indiscerníveis.

Noutro mundo (mas no mesmo sítio), Rotten Sound provava que o grind pode ser algo mais que Clitgore, mas que, afinal, a credibilidade pode ser apenas um bom poster que diga “Speed & Violence”. Compreende-se e aceita-se. Afinal, o eclecticismo é uma óptima desculpa para triggar literatos presunçosos (como este) e para isso nada melhor que Trollfest.

Dokuga continua a ser a melhor promoção turística que a embaixada do Japão nunca fez.

 

Dia 2 – 9 de Junho

Constantes que se cruzam: primeiro, o momento ternurento para os Klingons da música extrema não surpreendentemente se surpreenderem com o concerto do Paulo Colaço (“até gostei”, kek); segundo, e bem mais importante, “Fæmin” ser um dos momentos altos em qualquer sítio que seja tocado. “Aquele” riff. O riff. O apocalipse é dissonante, vem de dia e a primeira vítima é a descrença. Nem que tocasse em loop durante os três dias se tornava saturante e tinha dado tanto jeito durante o concerto de King Dude.

Um dos conceitos mais debatidos sobre o seminal Das Kunstwerk im Zeitalter Seiner Technischen Reproduzierbarkeit é o conceito de autenticidade. Muito longe de se procurar reproduzir uma pequena parte desse debate (que é fastidioso ao ponto de ser cómico), a referência torna-se importante referir a passagem em que Benjamin expõe o principal problema com dois eventos que tiveram lugar no palco dois do SMSF: “[A partir] do instante em que o critério da autenticidade deixa de ser aplicável à produção artística, o conjunto da função social da arte encontra-se arrasado”. É de ter em conta que a citação se encontra descontextualizada das preocupações políticas da obra, mas há um valor que se encontra suspenso nesta análise e que não pode ser ignorado: o profundo impacto que a capacidade de reprodução mecânica da obra tem no próprio conceito de obra. A questão da função social da arte, muito cara ao autor alemão, tem que ser aqui ignorada para se atingir o ponto mais radical da questão: quando a autenticidade deixa de ser critério (enquanto forma livre de expressão) para a criação artística a própria função artística encontra-se arrasada. No palco dois do SMSF tocaram Naðra e Misþyrming e a separar as duas bandas estiveram apenas quatro horas.

Pelo meio os holandeses Urfaust vieram compensar falhas anteriores a um sítio onde a redenção se faz somente em palco e não começa no press release. A música do duo é, cada vez mais, uma ode dionisíaca que se afasta a passos largos do black metal radicalmente original que faziam no início da carreira. A verdade é que Empty Space Meditation é de digestão difícil. Não pela complexidade ou pelo afastamento ao som original, mas sim porque o projecto é responsável por alguns dos melhores álbuns de música extrema do século XXI. Se calhar alguém caiu. Talvez tenha sido da embriaguez e daí tenha resultado alguma chaga, mas algo se tem vindo a perder desde 2010.

Ao vivo há aspectos dos trabalhos mais recentes que são, ironicamente, atenuados pelas insuficiências técnicas do duo. Um concerto de Urfaust é sempre um momento caótico e catártico. Reduzidos ao mínimo indispensável, é nos ombros de IX que recai quase toda a responsabilidade de reproduzir o ambiente único que (quase) sempre lhes foi reconhecido.

A intoxicação como meio de apreciação mais benévola de um concerto é truque gasto e rasteiro, mas não com Urfaust. Essa intoxicação faz parte da essência do “ritual” e é indispensável ao acesso da essência do mesmo. A névoa que sempre acompanha a memória em momentos em que semelhantes estados de espíritos estão presentes é o objectivo e não uma mera consequência.

Kitsch é termo que não se pode associar a Mão Morta” – diz alguém que pensa que está em 2009 e que o “último álbum” ainda é o Nus. A banda de Braga tem sabido reinventar-se ao longo de mais de três décadas, não raras vezes de forma brilhante, mas não é alheia a algumas opções “populistas”. A escolha de um alinhamento “mais pesado” (o que quer que isso signifique) foi uma delas mas a “queixa” só chega até ao momento em que tudo começa. A sequência “Aum” e “Velocidade Escaldante” (quase ninguém acendeu um bic…) é rara e de fazer inveja a muito hipster pequeno-burguês que só os vai ver à Aula Magna e se lamenta que a setlist é manhosa.

Ao longo de mais de uma hora, Adolfo Luxúria Canibal mostrou porque é que a palavra vanguarda no rock português tem destinatário praticamente único desde os anos 80, mesmo quando a “secção” Mutantes S.21 (um dos álbuns mais acessíveis dos bracarenses) começou em força. Não era preciso muito mais, mas o encerramento com “Arrastando o seu Cadáver” terá sido o momento mais negro desta edição do SMSF.

A segunda noite contou ainda com dois acontecimentos estranhos: tentativa de colmatar a falta de interesse musical através de uma pretensa irmandade linguística e, mais grave, ameaças de morte a quem se preparava para passar som. Esta última ocorrência levou ao reforço de segurança na cabine onde se encontravam os DJ’s para evitar eventuais conflitos. Não consta que os seguranças estivessem armados mas, por outro lado, passaram Kickback. Quase a mesma coisa.

Dia 3 – 10 de Junho

Cover audível de Depeche Mode
>HochiminH
Pick one.

Fuse não é o Rei. Aliás, é perguntar a qualquer palhaço. Ainda assim, a actuação do membro de Dealema acabou por ser bem menos meme do que se esperaria. O início da noite (fim da tarde?) não ajudou mas o rapper do Porto excedeu largamente as expectativas. As muitas opiniões divergentes são provavelmente de quem foi para ver Orphaned Land e Exodus. Justo.

Interessava realmente era ver Malthusian. Primeiro porque Below the Hengiform é um monumento de potência como não é habitual encontrar; segundo, Portal é bem mais difícil de apanhar por cá. O buraco negro que se abriu por cima do segundo palco foi claramente a maior atracção do derradeiro dia do festival. Se o death metal fosse nesta direcção daqui a uns anos rivalizava com o black metal em termos de potencial.

Os suecos Wolfbrigade encerraram de facto a edição de 2017 com um atropelo de crust extremamente bem-vindo para começar uma madrugada que incluiu uma confirmação: a Irlanda tem um Fernando Ribeiro melhor que o nosso. Bem melhor.

SMSF é A E S T H E T I C S

Texto: A generous boy
Fotografias: Pedro Roque/Eyes Of Madness

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