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Placebo no Coliseu de Lisboa. Sem Bowie não são nada, com os clássicos são tudo

“We were tight, but it falls apart as silver turns to blue”, canta-nos Brian Molko num dos versos de “36 Degrees”, faixa do miolo do homónimo álbum de estreia de Placebo lançado há já vinte e um anos. Mas são essas duas décadas de existência que fazem a banda britânica ensaiar uma retrospectiva e uma antologia da sua carreira que atravessou diversos rótulos conforme as necessidades de empacotamento musical impostas pelas tendências: foram britrock quando disso se falava e passaram a alternative rock pouco depois do virar do milénio quando a primeira designação caiu de uso. Mas o rock, esse, é transversal a estas duas décadas.

Mas como Brian Molko canta naquele verso, os Placebo já foram bastante firmes com consecutivos lançamentos acima da média, provavelmente (e aberto a discussão) da estreia até Meds de 2006. Mas o decaimento de forma em Battle For The Sun de 2009 e o estado alarmante de Loud Like Love de 2013, onde a musicalidade tem e deve ser posta à frente da lírica, obrigaram a banda a um exercício de reflexão pelo seu passado na hora certa.

Foi essa reflexão, numa forma visual, que abriu o concerto no Coliseu dos Recreios no passado dia 2 de Maio. O videoclipe de “Every You Every Me” serviu de celebração destes vinte anos ancorados nas díspares origens belgas de Molko e da frieza sueca de Stefan Olsdal, e também na androgenia associada à sua imagem. A aurora dessa recordação com a banda já em palco deu-se com “Pure Morning”, atacada em força e a puxar de galões pela voz de uma sala completamente esgotada.

Mas foi imposto um teste logo desde cedo, obrigando também o público a ponderar toda a carreira da banda. Daí terem sido jogados também temas mais recentes e faixas bónus de alguns lançamentos ou EPs, como “Jesus’ Son”, “Lazarus” e “Too Many Friends” – esta última, apesar de um pouco enfadonha, é um claro destaque de Loud Like Love pela forma como o refrão se cola ao ouvido. A demanda pelas faixas fora dos focos de um best of mostrou-se, no entanto, inteligente, como “Twenty Years” a ser perfeita para a ocasião.

A ritmo de explorar faixas menos reconhecidas dos seus álbuns, foram lançadas às gargantas dos presentes as letras de “Devil In The Details”, “Space Monkey” e “Exit Wounds” antes de se crescer para “Protect Me From What I Want”. O público respondeu com satisfação, mas ainda de pé atrás à espera de um desfile de faixas não-melancólicas, não sem antes de obter o seu ouro. “Without You I’m Nothing” foi o ponto mais alto da noite, aliando o brilhantismo da faixa em si à decisão de a dedicar a David Bowie com várias imagens suas no ecrã de fundo. A ovação após este tema, tendo até levantado a maior parte das suas cadeiras nos camarotes, falou por si: um longuíssimo minuto de aplausos de aprovação e de compreensão, de quem entende quão importante pode e deve ter sido um patrono como Bowie numa carreira que aborda a androgenia de uma forma tão explícita, servindo desde há muito como activismo LGBT. Sem Bowie, nem os Placebo teriam sido os Placebo e eles fizeram questão de o afirmar.

Mas enxutas as lágrimas e secas as palmas, tudo pronto para abraçar duas faixas da sua estreia – “36 Degrees” fez mexer a sala e houve tempo para entender as amarras de “Lady of the Flowers”. Seguiu-se uma viragem no concerto, como Brian Molko fez questão de referir na primeira vez que se dirigiu ao público, deixando para trás a metade melancólica e impondo um corso de dança e pulmões cheios – “For What It’s Worth”, “Slave to the Wage” e “Special K” apuraram o paladar para “Song to Say Goodbye” e “The Bitter End” para uma fingida despedida.

Um primeiro encore foi uma machadada perfeita no redondo aniversário do álbum de estreia, obrigando a audiência a gastar mais um pouco a voz com “Teenage Angst” e “Nancy Boy”. Mas a segunda despedida de palco só se fez com “Infra-Red”, abrindo caminho para uma pequena pausa até à habitual rendição de “Running Up That Hill” de Kate Bush.

Para trás ficaram apenas as duas horas de concerto e não os vinte anos de sucessos – ainda por cima tantos que ficaram de fora, desde a óbvia “Every You Every Me”, que se optou por servir de aperitivo do PA, a “Meds”, “Taste In Men”, “Bruise Pristine” ou “You Don’t Care About Us”. Mas impôs-se uma festa de aniversário para todos os que lhe prestam ou prestaram a vénia ao longo dos anos, da malta do indie à malta do punk e do metal. Essa abertura à percepção e a diferentes públicos tem valido aos Placebo uma oscilação única no panorama do rock actual. Bem vistas as coisas, talvez os Placebo nem tenham mudando assim tanto em vinte anos. Nem o mundo.

Texto: Nuno Bernardo

A fotografia utilizada não corresponde ao concerto da reportagem. Foto de Lino Silva, tirada no Pavilhão Multiusos de Gondomar na noite anterior a este concerto em Lisboa.

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