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Camarro Fest. Há espaço e lugar para nova tradição no Barreiro

A cidade do Barreiro, na Margem Sul do Tejo, não pode ter muitas razões de queixa na forma como preenche a agenda. Embora os subúrbios alimentem a tendência de respirar apenas da cultura que brota em Lisboa, o Barreiro subsiste. E em apenas seis meses a cidade viveu o experimentalismo do OUT.FEST, o frenesim de garagem do Barreiro Rocks e agora o metal do Camarro Fest.

Celebrado nos dias 3 e 4 de Fevereiro na SIRB Os Penicheiros bem no centro da actividade nocturna, este segundo ano de Camarro Fest não mostrou receio em querer subir degraus. Não pela qualidade do cartaz – que, à primeira edição, soube jogar com valores seguros e conhecidos da cidade como Switchtense e Ibéria -, mas sim pela ambição e força com que se afirma aos olhos de todos, convidando abertamente os conterrâneos e uma nova fatia de público de outras partes do país.

Ao primeiro dia a chave de abertura foi dada a um novo valor do hard’n’heavy barreirense. Os Skyard, que precisamente duas semanas antes apresentaram o seu EP de estreia no bar d’Os Penicheiros, sublinharam em palco o seu estudo e desenvolvimento para um capítulo seguinte. Strange New World junta quatro temas mais lineares, mas as suas versões ao vivo ganham outra pujança e podem dar o salto para outros festivais do genéro. Já Son Of Cain é uma dupla de dois rotinados músicos – Hugo Conim (Dawnrider) na guitarra e Alexandre Mota (Corpus Christii, Morte Incandescente) na bateria e voz assumiram o comando do heavy/doom. As maravilhas de uma guitarra duplicada para baixo através de um octaver contribuiram para um concerto energético e com um certo paladar de blues rock. A dada altura Hugo afirmou que “a música é a melhor droga”. Mas há dúvidas?

O black metal dos Decayed teve, no entanto, mais dificuldades em agarrar a sala. Não quer dizer que não tenha agarrado o público, que nesta altura já preenchia e de que forma o salão do Camarro Fest, mas sabia-se de antemão a complexidade de reunir as condições para provocar uma atmosfera mais condizente ao ocultismo e satanismo. Ainda assim ficou um bom registo de apresentação de The Burning of Heaven. Mas se a noite esteve difícil em relacionar as bandas com a sala, maior impasse encontraram os Grog. Habituados a velozes agitações nas frentes de palco, o seu grindcore ficou despido de um pouco mais de violência e serviu-se de pretexto para relacionar os temas do novo Ablutionary Rituals a ser lançado em Março com o seu longo repertório. Tecnicamente nada ficou a faltar.

Depressa se percebeu que o público estava muito mais a pender para o ritmo do punk de Mata Ratos do que para o peso complexo do metal nesta noite. O cronómetro não aguentou muito até assinalar a desordem nas primeiras filas, ora com empurrões ora com cachecóis do FC Barreirense. A agitação constante fez da histórica banda a missa da noite, com Miguel Newton a ser o sacerdote pela descarga da raiva contra o “sistema”, qual apocalipse anunciado sob a forma de álcool. Por circunstância das horas ou por opção própria, ficou de fora “A Minha Sogra é um Boi”, apesar de muito entoada pela audiência a cada intervalo de faixas. Pouparam-se as mães de todos.

 

A estrutura para o segundo dia de Camarro Fest não diferenciou muito do primeiro e as semelhanças saltaram à vista. Os Affäire, tal como os Skyard, tiveram espaço para a sua quota-parte de hard rock e o stoner de Dollar Llama viu alicerçada a sua performance no peso da guitarra à semelhança de Son Of Cain. Argumentos diferentes mas com uma fórmula capaz de fazer passar a noite.

O terceiro concerto, tal como Decayed na noite anterior, exigia um maior poderio atmosférico e os Sinistro saíram de cena prejudicados. A banda que tem dado passos de gigante, já passando pelo holandês Roadburn Festival e com visita marcada ao gigante belga Graspop, encontrou uma estranha oposição. O peso esteve todo lá e Patricia Andrade registou uma noite incrível, vocalmente e na sua presença fria em palco, mas o âmago de Sinistro e a sua Semente nunca foram realmente alcançados. Em contrapartida, se os Grog na noite anterior não conseguiram fazer mexer o público, os nortenhos Holocausto Canibal tornaram a tarefa um pouco mais fácil. Já bem conhecidos do Barreiro, foi a mesma banda que em 2012 acabaria por dar o último (e abruptamente interrompido) concerto do Barreiro Metal Fest. Claramente o trunfo da noite para os que apreciam a velocidade no metal, encontraram na sua slot a altura ideal para lançar o caos q.b. no salão e justificaram porque são um dos nomes maiores do goregrind do sul da Europa, com ou sem alvoroço na dianteira.

A fechar o festival os eborenses Process Of Guilt fizeram do Barreiro um dos seus primeiros destinos para desvendar o que aí vem. Black Earth, novo disco a editar este ano, terá que competir com as expectativas construídas depois de um trio de registos com uma clara evolução orientada para o post-metal mais neurótico e gélido. Alternando com a faixa-título do anterior FÆMIN, foi na troca de velocidades e na explosão colectiva que conseguiram reter a pujança até ao fim. Apesar de ainda terem sido cinquenta minutos de duração, o fim parece ter sido um pouco súbito – não é possível dizer com clareza se foi ríspido ou se simplesmente ficou a sensação de terem usurpado o doce de uma criança. Os ingredientes de Black Earth deixaram um bom gosto com o quarteto a salientar ainda mais as suas valias: Hugo está cada vez mais furioso a atacar o microfone e a guitarra, Nuno duplica a frieza do seu lead introspectivo, Gonçalo parece ter aumentado a robustez da sua bateria tentacular e Custódio é compressor e pêndulo de toda a veemência distorcida. Venha o disco.

 

Terminado o Camarro Fest, pode-se dizer que à sua segunda edição já dá provas de saber reerguer as cinzas de um passado histórico metaleiro. Barreiro é cidade dos Black Cross, muito provavelmente a primeira banda portuguesa a explorar o black metal ainda na sua fase de embrião, traduzindo a partir de 1985 aquilo que uns tais de Venom e Bathory começaram por fazer uns anos antes. E também por isso, e não só, que a tradição vive de uma maneira ou de outra pela cidade que há meia-década viu perder o seu Metal Fest. Esse vazio parece estar (finalmente) preenchido e com espaço e lugar para crescer.

Fotografia e Texto: Nuno Bernardo

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