A chuva não conseguiu assustar aqueles que, no passado dia 4 de fevereiro, se reuniram no Campo Pequeno para celebrar os 20 anos de Irreligious, um dos álbuns que catapultou os Moonspell para o seu aclamado sucesso além-fronteiras. A celebração sob o feitiço da lua estendia-se também aos 25 anos de carreira que a banda lusitana comemora este ano e a noite prometia um espetáculo único de três horas de duração, a ficar para sempre registado em DVD, com a interpretação na íntegra dos emblemáticos Wolfheart, Irreligious, e ainda o mais recente Extinct.

Entrando na toca do lobo, fazíamos todos parte dessa mesma alcateia que se ia compactando cada vez mais na zona da plateia, contrastando com as bancadas que apesar de preenchidas, ficaram um pouco aquém do que era merecido. Passava pouco depois das 22h quando os lobos protagonistas da noite foram, um a um, ocupando os seus lugares em cena. Para despertar a alcateia, “Wolfshade (A Werewolf Masquerade)” fez as honras, seguindo-se o alinhamento original de Wolfheart. Lançado em 1995, é um álbum que marca pelas influências góticas que se aliaram à já proeminente vertente de black metal com que a banda se estreou, e que a par com o singular uso da cultura lusitana através de elementos folk, converteu à banda essa particularidade que os fez destacar dos demais.

Apesar dos esforços de Fernando Ribeiro em interagir com o público, o ambiente permaneceu à imagem do álbum, sombrio e denso, com um público demasiado parado para a ocasião – nem o facto de estar a ser gravado um DVD foi o suficiente para fazer o povo revelar-se.

Um dos destaques desta primeira parte vai sem dúvida para a bela “Lua D’Inverno”, pela magia invocada, e pelo calmo e sereno misticismo em que nos envolve. Também aqui coloco “Trebaruna” e “Ataegina”, a sua «irmã malvada» como referido por Fernando Ribeiro, duas músicas que se destacam no álbum por serem totalmente cantadas em português e pela sua alusão a criaturas da mitologia lusitana, e onde esta última foi a impulsionadora de um dos poucos momentos de entusiasmo pelo recinto, onde ainda que por breves momentos, se dançou e cantou sem acanhamento.

“Vampiria” como sempre tem também o seu impacto especial no público e a fechar esta primeira parte do concerto, um dos mais emblemáticos temas da banda, “Alma Mater”, conseguiu finalmente puxar por aqueles gritos de peito cheio e os coros em uníssono que ecoaram até a banda sair de palco.

Finda a primeira parte, uma pequena pausa trouxe até nós a banda portuguesa de música medieval Cornalusa, uma surpresa que não estava no cardápio, e que tentou em ambos os intervalos animar o ambiente. Tarefa complicada, diga-se de passagem, apesar do esforço de tocar até covers dos anfitriões.

Irreligious veio intensificar um pouco mais o ambiente, com a lua cheia a dar lugar ao olho de Hórus e uma “Opium” a fazer agora estremecer o chão. Esta segunda parte foi talvez a mais forte da noite, não fosse ela também conter alguns dos mais aclamados temas destes vinte e cinco anos na estrada. A produção visual também esteve no seu expoente máximo, com efeitos pirotécnicos pensados ao pormenor para cada uma das faixas.

A última parte do álbum trouxe algumas surpresas a palco como a presença da vocalista dos Tristania em “Raven Claws”, Mariangela Demurtas, e também do coro feminino Crystal Mountain Singers. A rematar, “Herr Spielgelmann” trouxe-nos um ser quase alienígena a palco. Fernando Ribeiro apareceu-nos com um fato de robot metalizado, com lasers verdes nos dedos que se dispersavam no espaço em direção ao público. Com “Full Moon Madness” somos trazidos de volta à alcateia e, sendo um dos temas que melhor define a banda, é também sempre responsável por alguns dos momentos mais marcantes ao vivo, sendo que ali não foi excepção.

O salto cronológico para a terceira e última parte do concerto foi enorme. São vinte anos de trabalho árduo que ficam pelo meio, sem nunca seguirem as vias mais fáceis e sempre a manter a mesma linha que hoje os define. Nisso, ninguém lhes pode tirar o mérito, porque não é qualquer banda de metal nacional que consegue, por si só,  atrair tantos fãs para uma sala tão emblemática como a do Campo Pequeno, e ainda os presentear com um espectáculo daquela envergadura.

A última mudança de cenário trazia-nos agora uma imponente tela com a artwork do álbum Extinct, emoldurada pelos cintilantes candelabros que compunham o resto do palco. A energia passada pelo público é que, nesta fase, ia descendo a pique. Talvez pela longa duração do espetáculo, talvez pela grande atração serem os primeiros álbuns, as razões podem ser muitas mas nenhuma delas se notava em palco, já que os Moonspell continuavam grandiosos sem mostrar falhas.

“Extinct”, “Domina”, e “The Last of Us” foram temas que mostraram já estar na ponta da língua de boa parte dos presentes, e era a passos largos que caminhávamos para a recta final. As Crystal Mountain voltaram a fazer uma belíssima aparição, e também  Carolina Torres esteve entre os convidados, encarnando uma persona de dominatrix que ameaçava degolar os músicos.

A despedida não poderia ser melhor, feita ao som de “The Future is Dark”. Num álbum que acaba por nos trazer temas mais ‘cantaroláveis’, era o público mais jovem que ainda ia fazendo a festa, o que demonstra que o futuro pode não ser assim tão negro.

Texto: Rute Pascoal
Fotografia utilizada da autoria Paulo Mendes

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