A ideia a reter do cartaz do North Dissonant Voices 2017 era sem dúvida uma tentativa ousada de conciliar os pergaminhos do Black Metal mais tradicional (embora até neste a definição de “tradicional” se tornasse algo ambígua) com uma série de experimentações que têm, nos últimos largos anos, quebrado uma série de barreiras e criado familiaridades que hoje até parecem mais ou menos “óbvias”.

O projecto de abertura – Tendagruta – encaixava-se bem mais no “segundo grupo” atrás descrito estando, neste caso, bem para além das barreiras do Black Metal. Todavia, e contrastando em parte com a vertente ambiental que ocupa a discografia do duo, o encontro entre o Industrial e o Noise resultou num ataque violento aos sentidos que não fica longe de alguns dos objectivos, neste campo, mais beligerantes do género que dominava o cartaz.

Com a segunda banda a subir ao palco – e a primeira da armada holandesa que invadiu o Cave 45, no Porto, nos dois dias de festival – confirmou-se que não há muita coisa melhor do que uma banda de Black Metal sólida nos fundamentos, com ideias claras e coesa em palco. Quando há foco e intensidade o género transforma-se num ritual selvático que envolve mentes e corpos, algo que Turia conseguiu fazer na perfeição. Apenas com dois álbuns (Dor de 2015 e Dede Kondre de 2017), o trio explorou os caminhos escorregadios do Black Metal mais atmosférico mas sempre com uma competência fora do comum e liderados por um baterista com apontamentos desequilibrantes de sobra. As várias vozes também ajudaram a completar uma massa de som que se foi tornando mais interessante conforme o tempo foi passando.

Se Turia foi uma (meia?) surpresa agradável, o mesmo efeito não se esperaria dos portugueses Dolentia. Os portuenses têm vindo a trilhar um caminho elevado há mais de dez anos e não foi por acaso que a aparição no festival se pautou pela excelência. Não deixa de ser curioso que um som que é obtido de forma tão “moderna” evoque sobretudo o passado mas a verdade é que o “ontem” continua a ser o norte do colectivo e é por isso que qualquer ritual ao vivo é sobretudo uma evocação do que já só existe em memória ou ruínas. É de notar, no entanto, que o som da banda tem sofrido pequenos refinamentos dos quais os temas de Iniciação Eversiva (2015) são exemplo perfeito: não há muitas bandas capazes de misturar este tipo de Black Metal com riffs dessasombradamente Punk e sair disso em quererem preencher alguma quota de géneros a tocar numa só faixa. É por isto (e pelo resto que se passou no Porto) que são uma das principais bandas portuguesas de há uns anos a esta parte.

 

Quando Lubbert Das for uma banda mais conhecida vai ser possível dizer que fizeram uma aparição em 2017 num festival no Porto. Porque é praticamente impossível que estes holandeses continuem “só” a ser uma tesouro escondido. Não reinventando tudo, a verdade é que tocam praticamente em tudo o que de bom se tem feito no género de há uns dez anos a esta parte: desde riffs que remetem para os anos 90, um certo pendor ritualístico e a até uma certa sensibilidade à lá Aluk Todolo (embora bem mais veloz e musculada) virtude de um baterista (o mesmo de Turia) que não é normal ver neste tipo de palcos. Até agora há Keye (demo, 2014) e Deluge (EP, 2015) mas com tamanho potencial é de esperar um monumento de valor semelhante ao que já conseguem proporcionar em concerto.

Para o fim do primeiro dia estava reservado o encontro entre Atila e Sinter no que prometia ser uma viagem bem diferente do que tinha acontecido até então. A mistura da electrónica negra de Atila com a cacofonia de Sinter foi uma forma audaz de acabar a noite mas sem se abdicar dos decibéis. Aliás, estes continuaram bem no limite à medida que André Coelho se ia dividindo por objectos de duvidoso valor musical (só à priori, pois claro) e a coisa ia ficando mais densa. É algo irónico dizer que se calhar até foi demasiado contido mas ainda há tempo de aprender (para uma próxima colaboração quem sabe?) que barulho é melhor que música.

 

Se o primeiro dia superou expectativas, o mesmo não se pode dizer do segundo marcado por demasiados “quase” e apenas com duas (muito boas) confirmações.

Até estava tudo mais alinhado com um palco mais composto de velas e um ambiente ainda mais propício mas a verdade é que logo com Paean as coisas ficaram começaram a amenizar. É certo que o objectivo era bem diferente mas do brilhantismo de Turia só mesmo os membros repetidos. O Drone do duo nunca conseguiu ser envolvente o suficiente e transformou-se em música de fundo sem grande relevância demasiado rápido.

Outro duo, desta feita catalão, encarregou-se de pegar numa Cave 45 adormecida naquilo que tinha tudo para ser um concerto bem melhor mas que se foi perdendo à medida que a vontade de montar um “ritual” se sobrepunha ao que saía do PA. Com o impronunciável nome DE · TA · US · TO · AS, o projecto de Barcelona trilhou os caminhos da exploração vocal com percussão que variava entre o tribalismo minimalista e o Industrial mecânico mas nunca conseguiram libertar-se duma certeza pobreza na execução. Se fosse canto difónico (e não uma simulação) em vez de preocupações com a quantidade de vezes em que se sentia a Sua presença talvez tivesse sido melhor até porque as indicações deixadas em estúdio assim o indicavam. Assim foi mais ritualístico mas também bem mais frustrante.

Foi preciso chegar à terceira banda (visto que houve uma troca no alinhamento) para que as coisas ficassem realmente sérias. E de que maneira: Gnaw Their Tongues confirmou as credenciais de concerto mais aguardado do festival e fê-lo de forma arrasadora. Com uma média a rondar um álbum por ano, seria fácil que a música de Mories se torna-se repetitiva e até em certa medida cansativa (ver Striborg…) após uns anos a explorar a melhor forma de misturar Black Metal com o Noise mais abstracto e abrasivo que se pode encontrar. No entanto, como prova o mais recente Hymns for the Broken, Swollen and Silent (2016), a fórmula não está gasta ou ultrapassada uma vez que ainda continua a ser um dos projectos com mais capacidade de adicionar elementos sem perder um som inconfundível que criou praticamente sozinho. O atropelo foi relativamente curto mas deixou marca e foi especialmente interessante perceber que ao vivo a grande qualidade da música de GTT permanece intacta: por “detrás” de todo o ruído há composições de Black Metal de absoluta excelência que só fazem sentido depois de todo o massacre. É uma espécie de “prémio” a que se chega com dificuldade mas que é sintomática do que o Black Metal tem de melhor. Ainda que a noite tivesse continuado tão pobre como até ali (não foi bem o caso mas não esteve longe) a avalanche sonora do duo radicado nos Países Baixos teria sido compensação mais do que suficiente.

 

Para o final de noite (e virtude da mencionada troca) estiveram reservados os nomes mais ortodoxos de todo o festival. Os incógnitos Gaerea subiram primeiro ao palco para uma descarga de Black Metal que tem tanto de tradicional como moderno mas que necessitaria de um som bem melhor para não empobrecer o que pode ouvir no EP de estreia visto que há demasiados pormenores (nomeadamente na guitarra) que passaram despercebidos devido ao som embrulhado. Nota-se que há capacidade para ultrapassar o estigma do BM mais “emocional” para algo que não soe ostensivamente auto-comiserativo mas desta feita o caminho ficou a meio.

Sem tantas contemplações, os belgas LVTHN encarregaram-se de satisfazer outro tipo de apetites no encerramento do North Dissonant Voices. É preciso dizer que seriam a aposta no cartaz que acarretava menos risco mas, por outro lado, um concerto que começa com um banho de sangue de porco e acaba com “666” dos saudosos Katharsis nunca pode defraudar. Uma viagem pelos caminhos mais explorados mas ainda bem vivos do Black Metal tradicional que acabou por ajudar a salvar um dia menos conseguido.

Numa nota final há que referir que seria bom que o NDV se mantivesse por muitos e bons anos. A atenção ao detalhe, o cariz multifacetado e as ofertas do cartaz não são comuns em Portugal,  nomeadamente neste tipo de terrenos.

Texto: Filipe Adão
Fotografia: Daniel Sampaio

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