Sábado, dia 7 de Janeiro, os indignu [lat.] desceram de Barcelos até Lisboa para ao Musicbox apresentar Ophelia, o terceiro registo lançado em Outubro de 2016. Uma viagem até aos palcos de Lisboa que, segundo os próprios, não pisavam desde 2009. À chegada ao clube do Cais do Sodré, o cenário, já devidamente arrumado com os instrumentos da banda, estava vestido de nuvens, que, desta vez, “se cruzavam” aos nossos pés.

Na mente tudo é permitido, viajar além dos devaneios, além do físico, do terreno, onde a imaginação nos levar. Num convite à fantasia, deambulamos acima das nuvens e preparamo-nos para escutar Ophelia crescer ao vivo, diante dos nossos olhos, impregnando-se nos nossos ouvidos. Dois lados, duas capas, duas almas, um disco. Uma dualidade patente além destes temas, mesmo no próprio som da banda, a dicotomia das texturas sonoras que tanto têm de ásperas e frias, como de suaves e amenas. Há desde uma chave de fendas a ser utilizada para fazer soar a guitarra a notas prolongadas e arrastadas no elegante violino. Tudo cabe neste enorme espectro sonoro dos barcelenses e tudo se conjuga.

Os fios das malhas auditivas vão sendo gradualmente compostos e cruzados à medida que os elementos da banda vão ocupando os lugares no palco. Um sexteto, pontualmente reduzido a quinteto, mas sem nunca e de forma alguma descurar a harmonia de todas as músicas, que fluem por entre os aplausos e as breves palavras de agradecimento de Afonso Dorido, guitarrista.

Há as viagens com destino marcado, por entre as correntes frias e revoltas do “Mar do Norte”, a “Jerusalém”, marcada pelas melódicas teclas e o delicado violino, e até à calma cadência de “Santhiago do Shiele”. E as que deixam espaço para idealizar como a quente e ritmada “Tâmaras ao Vento”, a épica “Caravela na ponta dos dedos” ou mesmo a dramática “Santa Helena”, que fechou o alinhamento em Lisboa, as duas últimas num regresso a Odyssea de 2013.

De olhos fechados, é fácil deixar-se levar e embarcar nas paisagens sensoriais auditivas que se desenham à nossa frente. Nuvens que se condensam e dissipam, ondas do mar que se enrolam e desfazem na rebentação, a terra onde exploramos à deriva sem nunca estar perdidos. Uma experiência tranquilizante e, simultaneamente, muito própria e pessoal. Foi dado o mote para viajar sem sair do lugar e, a julgar pelo aspecto compenetrado dos que ocupavam a sala, o repto terá sido aceite. Uma viagem conjunta, mas com múltiplos destinos diferentes. É, pois, citando o Livro do Desassossego, porque “As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos.”. Esperemos que o próximo regresso dos indignu à capital não tarde tanto.

Texto: Rita Bernardo
Fotografia: Nuno Bernardo

Leave a Reply

Your email address will not be published.