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Wife e Oathbreaker no Cave 45. Entre marido e mulher

Muito tem sido dito e escrito sobre Rheia, o novo trabalho dos Oathbreaker que vem ditar este regresso a Lisboa e Porto, poucos meses depois de terem passado pela quinta edição do Amplifest. Em digressão acompanhada por Wife, projecto a solo de James Kelly e que marcou igualmente presença no festival portuense um ano antes, o artista irlandês trouxe também material novo para cima da mesa, com o lançamento de Standard Nature bem recente na memória.

Certamente entre o melhor do ano passado para quem vos escreve, Kelly foi aí sublime na sua abordagem grave e fluída, numa fusão íntima entre a electrónica encorpada e a sensualidade mais ou menos latente do r&b. Agora a coisa foi já bem distinta; os cinzentos passaram a verdes vibrantes e a palete orgânica com que pintava foi trocada por uma clivagem mais dura, por transições vincadas a um registo clínico que nem sempre lhe saiu bem. Os subs da sala não colaboraram, lutando mesmo por reproduzir com fidelidade as frequências mais baixas do espectro. Nem que seja pela sua capacidade de reinvenção, Kelly merecerá pontos; talvez algumas ideias que se patenteiam em Standard Nature cresçam mesmo à medida que maturam, até porque o que o que se ensaia mostra potencial para descoberta, pecaram sim pela concretização.

 

Se existe efectivamente um rift entre a música de uns e de outros, a transição até se fez de forma fácil, com a banda belga a subir ao palco sem chocar em forma com o que Wife tinha deixado. Elemento central e mais facilmente reconhecível de Oathbreaker será a sua vocalista, Caro Tanghe; ela que passou de trunfo maior para um dos nossos senãos com o quarteto. Lembram-se do filtro para as vuvuzelas que lá inventaram na copa de 2010? Há alturas em que o facto de Tanghe estar tão inevitavelmente presente neste novo registo, faz-nos querer que houvesse um parecido. A sua voz limpa, nasalada e agoniada é virtualmente impossível de ignorar no material recente, surgindo muitas vezes deslocada e sem propósito, tanto funcionando como uma segunda camada de instrumentação ou como fio condutor quando tudo o que está à sua volta abranda. Afinal de contas ela já lá estava em Eros|Anteros, o que mudou foi realmente a forma e relevo com que se insere no trabalho final. Olhe-se para a sucessão de “10:56” e “Second Son of R.”, que da mesma forma que abre o disco abriu também o concerto. Esta segunda, provavelmente a melhor faixa a sair do seu registo recente e exemplo perfeito da intensidade e emoção crua que até conseguem transmitir, é fechada de forma estapafúrdia por um clímax completamente arruinado pela avalanche vocal de Tanghe, caída do céu nos contornos tragicómicos do dsbm.

A verdade é que se a fórmula “suave/forte” de que se alimentam os Oathbreaker  tem capacidade para dinamizar o que lhes falta em escrita, a forma e a previsibilidade com que esta se repete acaba por fazer o preciso oposto. O caminho traçado em Eros|Anteros desapareceu do mapa e do alinhamento, e com ele grande parte da urgência que impunham à sua música. Todas as canções vão desaguar ao mesmo mar e da mesma forma, perdendo intensidade e relevo à medida que se repetem em sucessão. O que os Oathbreaker arrancaram foi precisamente um set em decrescendo a pique, em perfeita sintonia com o que se ouve na segunda metade de Rheia, o que nos faz mesmo perguntar se todos os projectos debaixo da asa da Church Of Ra padecem do mesmo mal.

Texto: Rui P. Andrade
Fotografia: Daniel Sampaio

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