Uma pequena e óbvia pesquisa na internet define uma canção como uma composição musical para voz humana, geralmente escrita em texto e acompanhada por instrumentos musicais. É importante reter esta curta informação porque PJ Harvey subiu ao palco do Coliseu de Lisboa esta quinta-feira para questionar este significado.

A britânica tem delineado ao longo da sua carreira uma capacidade aparentemente inesgotável de bem escrever, passando de compositora a artista completa nesse processo. No mais recente The Hope Six Demolition Project, apresentado então em Lisboa, Polly Jean assume-se também como uma repórter, jornalista de caneta e papel pronta a usar a sua melhor arma – a canção. Essa não é cantada apenas pela sua voz, partilha-a com mais nove músicos em palco e assume outras formas de comunicação. Seja pelo saxofone, pelos gestos teatrais ou pelo plano de fundo imponente e tridimensional, a mensagem de PJ Harvey atinge a consciência de cada um dos que ajudou a encher a sala de Lisboa.

A entrada com “The Chain of Keys” abre, curiosamente, a porta àqueles que não a têm. The Hope Six Demolition Project é isso mesmo, um retrato da desiguldade, do desfavorecimento e dos desalojados devido a conflitos de guerra. A história contemporânea de Polly Jean estende-se por cinco temas antes de interceptar uma viagem ao seu passado recente, a Let England Shake, de onde arranca a faixa-título. “The Words That Maketh Murder”, “The Glorious Land” e “Written on the Forehead” prosseguem a visita ao aclamado disco para alguns dos maiores aplausos da noite. Faixas não escolhidas ao acaso, lembrando o fantasma do Brexit a pairar sobre a tensão no seu par caneta-papel – quem diria que um disco se torne mais actual com o passar dos anos? A fragilidade é assumida em “To Talk To You” e “The Devil”, em visitas quase góticas a White Chalk.

A banda em palco aqui já se tem rodado pelo incontável número de instrumentos em palco e cada um parece querer mostrar-se mais multi-facetado do que o próximo. O trabalho extenso e latente de cada um acaba por se revelar na incansável “The Wheel”, single recente e orelhudo que faz dançar pelo seu ritmo e reflectir pelas suas palavras. Também “The Ministy of Social Affairs”, qual desfile de saxofones, merece a intensa salva de palmas. O silêncio que se segue prova que um espectáculo bem preparado dispensa discursos de circunstância quando a canção o faz tão bem.

Mas se a descarga energética de “50ft Queenie” faz tremer a sala, “To Bring You My Love” não aguenta mais tensão do que aquela gerada por um só riff de John Parish, uma das estrelas maiores da formação que a acompanha tal como Mick Harvey. Uma das canções menos detalhadas mas possivelmente a mais sobrenatural de todas elas – é esta a capacidade de PJ Harvey, a de deter toda a força de um instrumento na sua caixa de música.

“River Anacostia” despede a banda do palco uma primeira vez, deixando o eco das palavras finais da faixa. «Wade in the water, God’s gonna trouble the water» chama pelo drama do presente em repetição, mas as palmas e os pés batem por todo o Coliseu a exigir um encore. A despedida em pleno chegou com “The Last Riving Rose”, mas antes disso fazem-nos chegar “Guilty”, uma faixa que acabou por ser deixada de parte do novo disco. Eis a prova de que até uma antologia de canções poderosas como esta que PJ Harvey continua a expandir nunca será definitiva.

Texto: Nuno Bernardo
Fotografias cedidas por Alexandre Antunes/Everything Is New

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