Saídos de Sheffield e aclamados um pouco por todo o mundo praticamente desde o seu primeiro álbum, The Fall of Math, os 65daysofstatic dão o seu próprio cunho ao post-rock que praticam, fundindo-o com a electrónica e o glitch de um modo completamente orgânico e que sempre evitou que caíssem nas fórmulas batidas de um género que já viu melhores dias. Após 15 anos de carreira, gravaram a banda sonora de No Man’s Sky, um jogo altamente ambicioso e que, apesar de não ter correspondido às expectativas de todos os críticos, foi frequentemente elogiado pela música. Darão este mês os seus primeiros concertos em nome próprio em Portugal (dia 26 no Porto e 27 em Lisboa, este no Jameson Urban Routes), ambos na companhia dos Thought Forms. E antes disso, uma entrevista.

Apesar de serem frequentemente considerados post-rock, vocês surgiram um pouco mais tarde do que bandas como Mogwai ou GY!BE, e com um som bastante distinto. Para além de nomes óbvios como Arctic Monkeys ou Def Leppard, Sheffield é também a terra dos Cabaret Voltaire e de uma cena musical urbana/electrónica bem ativa. Sentem que isso afetou o desenvolvimento do vosso som, ou sempre prestaram atenção ao que estava a acontecer noutros locais?

Nunca nos sentimos particularmente geográficos enquanto banda. A internet existe. As bandas podem definitivamente tentar demarcar-se através das suas identidades regionais se assim o desejarem, mas isso não devia ser um requisito. As bandas não têm de fazer parte de uma cena local da mesma forma. Podem sempre encontrar colegas algures na internet. O que é ótimo. Quer dizer que não tens de te limitar ao que está a acontecer na tua área.

Ainda assim, estou certo de que fazer música e ser do norte da Inglaterra influenciou o nosso som. Mas como é impossível para nós termos sido de outro local qualquer, provavelmente não somos as pessoas mais indicadas para explicar como.

A incorporação de electrónica na vossa música parece só ter crescido ao longo dos anos e vocês lançaram bastantes álbuns e EPs desde The Fall of Math. No entanto, parece que gostam de tocar ao vivo tanto quanto possível. Com uma porção dos ouvintes de rock a desvalorizar a música electrónica, e alguns fãs de música electrónica a não perceber o sentido de usar instrumentos musicais hoje em dia, diriam que tentam ir buscar o melhor dos dois mundos? Qual é a vossa perspectiva sobre composição musical e performance ao vivo?

Mas ainda há quem pense assim? Existe mesmo uma divisão entre o som do rock e da electrónica? Não é tudo música? Nós não vamos “buscar o melhor dos dois mundos” porque não os vemos nem nunca os vimos como mundos diferentes.

Foram confrontados com um desafio interdisciplinar quando criaram a banda sonora para No Man’s Sky. Li que as conversas começaram com planos de simplesmente licenciar música antiga mas vocês acabaram por sugerir uma banda sonora original. Não se sentiram intimidados pelo mero conceito do jogo?

Não intimidados. Talvez excitados. Sentimos que estaríamos aptos para responder à tarefa. Já queríamos fazer uma banda sonora há muito tempo. E o facto de esta estar tão recheada de desafios criativos e técnicos apenas a tornou mais apelativa. Qual é a piada de facilitar as coisas?

Tentaram encontrar referências através da banda sonora de outros jogos? Estão interessados nesse tipo de banda sonora, e costumam vocês próprios jogar?

Não. “Banda sonora de jogo”, enquanto género musical, não faz muito sentido para nós. Porque jogos podem ser tantas coisas diferentes. Seria como dizer que “livros” são sempre a mesma coisa. Não jogamos lá muito, não.

A banda sonora do Trent Reznor para o Quake é um dos primeiros e mais conhecidos exemplos de um músico de “rock” a compor para um jogo. À medida que os jogos se tornam mais e mais imersivos, pensam que o interesse neles enquanto forma de arte vai motivar os jogadores e até as bandas a prestar mais atenção às possibilidades que isto abre?

Sim. Acho que é algo que já está a acontecer. Acho que é por isso que os 65 fizeram a banda sonora do No Man’s Sky. Espero que de alguma pequena forma empurremos a porta um pouco mais, para que mais coisas deste género possam passar.

Como foi a experiência de trabalhar com o Paul Weir? Se tivesse de adivinhar, diria que foi uma experiência de aprendizagem única.

É um palpite acertado. Ele é muito inteligente e muito prestável. Tivemos uma relação de trabalho excelente. Na verdade, ele é o novo vocalista dos 65daysofstatic.

Qual é o futuro dos 65daysofstatic? Mais música para meios visuais como jogos, filmes, séries…?

Isso seria óptimo. Temos de esperar e ver. Neste momento, vamos passar algum tempo em tour com este novo álbum. É uma recompensa por tudo o resto.

Entrevista: Daniel Sampaio

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