O terceiro Reverence Valada representava uma assinalável (ainda que não radical) divergência no programa quando comparado com as duas edições anteriores. Se até aqui o festival tinha sido quase exclusivamente uma montra para o stoner e para o psicadelismo nas suas mais variadas formas, em 2016 os nomes sonantes estavam bem mais virados para os violetas enegrecidos do gothic rock. Antes disso, no entanto, seria necessário caminhar na estrada da heterodoxia do festival.

Dia 1 – 8 de Setembro

Em modo de alongamento, e enquanto os 800 Gondomar fazia a referência mais esperta de todo o festival (a Bruxa está mesmo em todo o lado), deu para perceber a reorganização do Reverence  que fez com que o espaço útil do festival fosse menor, nomeadamente junto aos palcos. Foi ainda em clima de habituação que os Sun Mammuth surgiram para uma viagem curta mas surpreendente. A banda da Lousada, apoiada no bastante recomendável Cosmo (2015), não traz nada de novo face aos gigantes do stoner rock (alguns deles até já passaram por Valada) mas a conjunção de distorção usada na proporção certa e as derivas viajantes em modo jam criaram uma união perfeita com o Reverence.

Coube aos norte-americanos Flavor Crystals dar as boas-vindas ao primeiro entardecer do Reverence Valada de 2016. A fórmula tinha quase tudo o que era necessário, marcada por trilhos psicadélicos e saídas ondulantes pelo shoegaze. Parecia demasiado bom para ser verdade e era mesmo: a falta de intensidade na hora de sair um pouco do registo e a excessiva repetição, transformaram o concerto num soporífero de actuação particularmente rápida. É verdade que não se pode dizer o mesmo em relação à enérgica e destructiva actuação dos The Sunflowers, mas tudo ponderado foi uma banda de Garage Rock a tocar uma cover de “I Wanna Be Your Dog”.

A espera por algo que não fosse mera troca de nomenclatura acabou no momento em que os Blaak Heat subiram ao palco. Se Shifting Mirrors (2016) já mostrava uma banda em pleno auge de forma e com uma originalidade cativante, a apresentação em modo mais musculado chegou a ter momentos de brilhantismo. A experiência em palco não pôde contemplar a enorme panóplia de instrumentos tradicionais do Médio Oriente que constituem uma parte fulcral da identidade do colectivo fundado em França (mas já há alguns anos radicado em Los Angels), mas nem por isso se deixou de sentir o bafo desértico. Temas como “Anatolia”, “Sword of Hakim” ou “Black Hawk” tiveram a dose perfeita de virtuosismo, peso e trip psicadélica sem nunca perderem uma sonoridade bastante própria. Uma agradável surpresa mesmo tendo em conta as expectativas elevadas e o ponto alto do primeiro dia em Valada.

Depois de uma surpresa, os (também) franceses J.C. Satàn optaram por uma abordagem tradicional dentro do universo particular do festival com alguns dos temas mais “limpos” que compõe uma discografia dada a deambulações maiores. A voz de Paula Scassa foi o calcanhar de Aquiles de um concerto entretido, mas dificilmente memorável. O mesmo se pode dizer para os Riding Pânico que, embora rodados e tecnicamente irrepreensíveis, acabaram por se deixar levar um pouco pela própria actuação. O resultado foi um prolongamento excessivo de algumas secções do concerto (o que pode ser particularmente grave visto tratar-se de post-rock).

Ainda assim poderiam ter prolongado o concerto mais uma hora visto que os cabeça-de-cartaz eram os Thee Oh Sees. A banda de São Francisco esteve em Agosto no Vodafone Paredes de Coura e esse é o sítio onde deveriam ter ficado. As duas baterias e a gritaria sem qualquer intencionalidade são elementos engraçados para discutir numa tenda do festival minhoto onde a música até é só um extra.

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© Jorge Pereira

Dia 2 – 9 de Setembro

O início quase matinal (para padrões “festivaleiros”) tornou aparente aquela que é uma das características mais marcantes do Reverence: o número descomunal de actuações que se desdobram por três palcos e que tornam toda a experiência fisicamente extenuante. Se é verdade que isso permite cobrir mais géneros e sensibilidades, o reverso da medalha é a impossibilidade física e mental de acompanhar a sequência que tem início às duas da tarde e que termina às seis da manhã. Não é por isso de espantar que tais condicionantes se repercutam negativamente na apreciação de tudo o que se vai (rapidamente) passando, tornando-se por isso necessário omitir algumas das bandas, ainda que com a consciência que apenas se substitui uma injustiça por outra menos grave.

Já depois de Ossos d’Ouvido e Twin Transistors terem iniciado o dia de concertos no Palco Indiegente, os The Black Wizards fizeram questão de distribuir a primeira dose de distorção massiva no Palco Rio, ainda que tenha ficado a sensação nítida que a sobrecarga de doom “abluesado” funcione bem melhor quando o espaço é de forma enclausurado que se torna inevitável a inalação de fumos alheios.

Ainda era cedo mas ficou logo a sensação de que a maior agressão auditiva do dia seria Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs, uma banda fodida. O adjectivo pode ser pouco requintado mas impõe-se para descrever a intensidade quase ridícula que a banda de Newcastle pôs em palco. A percepção estabelecida (e raras vezes exagerada) de que se pode encontrar a libertação da mundanidade numa guitarra suficientemente distorcida ou no grito visceral de um vocalista foi expandida pelos ingleses. O vocalista Matt Baty é, nas palavras do próprio, um demónio a servir de catalisador de uma banda que se sente confortável a explorar campos tão distantes como o sludge, o kraut e o psych. A prova de quem nem só de boas vibrações vive (ou devia viver) o Reverence.

Para contrariar esta última ideia, os LSD And The Search For God fizeram questão de, logo a seguir, transformar a procura divina numa fútil e entediante viagem em direcção a lado nenhum. A segunda parte do nome está, portanto, totalmente adequada à música dos californianos e foi preciso um comboio sem qualquer pudor em evocar (bons) clichés para reanimar os corpos: The Dirty Coal Train passaram rápido mas pertinentemente por Valada, apresentando o recente Super Scum com a fúria que estava a fazer falta.

Uma nova desaceleração marcou o concerto dos nova-iorquinos Silver Apples, segredo mal escondido do psicadelismo dos anos 60 que se posicionava como um dos nomes mais apetecíveis do primeiro dia. Deu para sentir o doce aroma da história e também deu para perceber que a banda é hoje menos dada à experimentação que também os caracterizava (o que no contexto não foi nada negativo). “Oscilations” – que encerrou o concerto – provocou um momento de nostalgia e comunhão genuínos como poucos no festival.

Continuou-se na toada das “lendas” com Yawning Man. Após o cancelamento do ano anterior, a banda californiana estreou-se finalmente na Valada com um sucesso relativo. Se por um lado se estava perante mestres e verdadeiros inovadores (enquanto membros da famosa cena de Palm Desert) daquilo que se convencionou chamar stoner rock, por outro ficou a clara sensação de que o concerto acabou por ser curto demais. É normal que as expectativas estivessem desajustadas, até face ao feedback que chegava das aparições ao vivo de uns anos antes. Apesar de terem sido bastante competentes e tendo momentos de viagem etérea pelo deserto da Califórnia, ficaram a faltar clássicos, como por exemplo “Perpetual Oyster”. Faltou algo para ser inolvidável.

Com um estatuto bem diferente (mas em sentido contrário), os frenéticos Fat White Family mostraram que a atitude é fundamental no rock’n’roll. A aparência pode ser a de uns The Verve “apunkalhados”, mas neste caso as drogas resultaram mesmo. Pelo menos a julgar pela atitude tresloucada do vocalista Lias Saoudi que desde muito cedo incentivou à confusão bem perto do público. Songs For Our Mothers (2016) está longe de mostrar uma banda tão avassaladora ao vivo e talvez por isso a surpresa tenha sido ainda maior. A atitude foi um enorme fuck off para quem já esqueceu a essência do que é o Rock. Foi uma red pill em forma de refrões mal-criados e de imprevisíveis disparos de uma guitarra prestes a começar a arder, acompanhados por uma bateria massacrada com ritmos simples mas estupidamente cativantes. Tirando a experiência transcendente de A Place To Bury Strangers, o melhor concerto do festival.

Não foi fácil recuperar o fôlego depois de tamanha maratona, mas a sequência que começou com Dead Meadow passou por The Raveonettes e terminou com The Brian Jonestown Massacre, ajudou bastante. Os primeiros nunca se conseguiram libertar da ideia de que estão a fazer algo que já foi feito antes mas umas quantas divisões acima; o duo dinamarquês foi (só) um manifesto erro de casting; e a banda de Anton Newcombe nunca conseguiu incendiar a noite, sobretudo devido a uma teatralização excessiva que tornou toda a experiência limpa e previsível.

Felizmente a noite não acabou na toada morna acima descrita. Na verdade, não poderia ter acabado de forma mais incendiada: os repetentes A Place To Bury Strangers deram simplesmente o melhor concerto do festival, num dos raros absolutos que se pode encontrar neste tipo de coisas.

Para contextualizar há que voltar atrás uns anos quando numa das Cartaxo Sessions explicaram como expandir as fronteiras do post-punk, em direcção ao puro e simples ruído, podia ser a melhor ideia dos últimos anos. Aí traziam na bagagem Worship (2012) e já tinham muito pouca paciência para convenções. O primeiro concerto na Valada em 2014 foi uma desilusão moderada em comparação, mas houve qualquer coisa de redentor na enormidade do concerto deste ano. Quando a hipnótica “You’re the One”, soou já se contavam duas guitarras destruídas e inúmeras tentativas para fazer com que o baixo resistente escapasse mais ou menos incólume. Tamanho caos resultou numa parede de som gigante e disforme que perturbou mais do que os omnipresentes strobes.

Pelo meio, um baixo surgiu entre o público e, junto à régie, a banda enveredou por um momento quase Lightning Bolt, numa imagem que certamente se tornará icónica do festival.

O alinhamento mais centrado em Transfixiation (2015) acabou por ser apenas um pormenor, visto que havia mais preocupação em desconstruir os conceitos onde a música do trio se alicerça do que em reproduzi-los. Provavelmente foi nisto que esteve a chave para a eternidade.

© Jorge Pereira

© Jorge Pereira

Dia 3 – 10 de Setembro

O último dia prometia uma mudança de colorido (ou falta dele) na audiência e isso foi imediatamente visível quando Charles Sangnoir se sentou ao teclado e começou a mostrar porque é que La Chanson Noire é uma entidade com uma incrível capacidade maleável de atrair vários tipos de público, embora tenha pesado o facto de ter sido uma das primeiras bandas a subir ao palco. “Fuck Me”, “Valsa de Escombros” ou “Cornucópia” deram para dançar, chorar e rir, às vezes tudo ao mesmo tempo. Isso nunca pode ser mau.

Só houve verdadeira continuação quando o rock dançável da Nicotine’s Orchestra devolveu algum interesse ao cartaz. Apesar de estarem quase a lançar o álbum I Speak Rock and Roll (2016), foram os temas mais antigos como “Adios Conchita” ou “Open Water” que mais se destacaram numa actuação mais “despida” (se comparada com o passado recente) da banda barreirense.

Com a chegada da noite tudo foi melhorando: ainda se ouvia o psicadelismo esquizofrénico de The Cult Of Dom Keller quando The Quartet Of Woah! tomaram de assalto o Palco Rio numa actuação fulgurante onde se misturaram temas mais antigos e algumas novidades. No entanto, foi a aparição de Mécanosphère que marcou definitivamente a passagem a coisas sérias: música de difícil definição algures entre o free jazz e o rock mas onde a figura de Adolfo Luxúria Canibal prospera em ritual poético, baloiçando corpo e palavras por entre a estranheza do som. Ao contrário do que aconteceu nos dias anteriores, aqui compensou a carta fora do baralho.

A partir daqui o Reverence agigantou-se com presença de alguns veteranos: primeiro foi Nik Turner, de regresso à Valada, com Nik Turner’s New Space Ritual a recordar edições passadas com alguns temas icónicos de Hawkwind, para logo a seguir uma versão profundamente 80’s de The Damned desiludir quem esperou quarenta longos anos pela estreia dos londrinos em Portugal. Seria pedir demasiado um concerto focado na carreira mais inicial do grupo – a verdade é que a roupagem moderna dos temas de Damned Damned Damned (1977) acabaram por arruinar até o que parecia quase intocável.

Intocável parece ainda ser o estatuto que The Sisters Of Mercy gozam junto de algum público que ainda não percebeu que a piada está mesmo em quem olha para o palco. Para não haja interpretações erradas: se Andrew Eldritch perdeu boa parte dos talentos vocais que lhe eram reconhecidos, o resto da banda apresenta uma solidez considerável para não estragar o resto dos inúmeros temas clássicos, que no fundo são o que vale a pena. Afinal, quantas bandas se podem dar ao luxo de abrir um concerto com “More”, fechar com “Temple Of Love” e “This Corrosion” e lá pelo meio ter “No Time To Cry” e “Marion” em sequência? A questão é bem diferente: se é verdade que enquanto experiência sociológica é interessante ver uma banda a manter um secretismo quase ao limite do ridículo, enchendo o palco de uma densa fumarada durante mais de uma hora, o teatro acaba por ter um papel demasiado evidente para esconder aquilo que Eldritch já há muito deixou de ser: um bom vocalista.

Com o festival a caminhar rapidamente para o fim, ainda houve tempo de ouvir algumas das propostas mais pesadas como With The Dead, projecto de Lee Dorrian que, apesar de ter apresentado um álbum de estreia sem mácula, não evitou o suspiro por Cathedral. Pondo o ponto final num Reverence aos soluços, coube à montanha de som dos franceses Mars Red Sky fechar em beleza mais uma edição globalmente bem-sucedida do festival ribatejano.

Texto: Filipe Adão
Fotografias de Jorge Pereira (Reverence Valada)

© Jorge Pereira

© Jorge Pereira

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