Foi no segundo fim-de-semana de Setembro que a música se uniu bem no centro da cidade da Lisboa, com uma das melhores vistas da capital portuguesa. Deve ser também por esta razão que parecia mais fácil encontrar alguém que não falasse português neste que foi um encontro de fim-de-tarde com repetição por três dias.

Ao contrário da noção habitual que temos de festival, onde a malta vai tranquilamente com os amigos para beber uns copos – i.e., imperiais ou finos, por serem mais em conta -, descurando na maioria das vezes o dress code, este parecia antes ser um meeting onde a vaidade, o status e o gin marcavam presença obrigatória.

Um espaço reduzido, embora adequado à dimensão do público, no qual se aproveitam os bancos e os espaços verdes do Parque Eduardo VII… e o gin, já referimos o gin? Muita música electrónica – demasiada até, por horas a fio, para quem não tolera muitas horas de um tal Lux às 4h ou 5h da manhã. Ainda assim, muitos eram os que não paravam de bater o pé e balançar os seus corpos bronzeados, quer o sol raiasse ou a noite já tivesse caído.

São os hipsters de outra geração, diríamos. Entre novos que pareciam velhos, cinquentões e “avózinhas” que sem melhor programa para um domingo ensolarado decidiram abancar por ali após o almoço de família, e até a tia que se esqueceu de tirar o pijama após a ressaca da noite anterior, era possível encontrar tudo menos o provável, sempre claro em estilo casual chic e com a melhor make up. Uma camada mais jovem, na sua maioria estrangeiros e rostos da moda e da televisão portuguesa encontravam também ali espaço para se mostrarem. Porque esta parecia a única coisa a fazer por ali.

Já no que diz respeito às sonoridades, foi com Escort e DJ Harvey que mais nos contentámos, embora o segundo nome mais aguardado justifica-se ter sido Tale of Us. Parece-nos que, mais uma vez, se verifica uma maior adesão por parte do público ao formato banda e não de DJ set, pois na verdade, por muito boa que seja a música e a transição entre faixas, nada substitui o contacto que um artista ou banda a tocar e dançar em palco conseguem estabelecer e transmitir em dose sentimental a quem os escuta.

No último dia, Marcos Valle no seu chill out brasileiro deu-nos o descanso de uma tarde de verão, à sombra, a beber, adivinhem… gin, embora os comentários do público referissem que é possível obter o mesmo ou melhor noutros locais da capital e a custo zero. Talvez a segurança ali presente tenha permitido aos pais estarem mais descansados com os seus pequenos, que descontraidamente se passeavam pelo parque, vestindo fatos de princesa ou brincando com bolhas de sabão oferecidas por um dos patrocinadores. A animar os intervalos dos concertos escutávamos a banda de música clássica da Heineken a tocar temas de electrónica bastante conhecidos com confetti pelo ar.

Entre os diversos artistas, na sua maioria DJs que passaram durante estes três dias no palco do LISB_ON, decidimos destacar Jungle. A banda londrina, que à sua terceira passagem por Portugal e ainda com o seu primeiro e único álbum na bagagem – o homónimo Jungle de 2014 –, atraiu até ao Parque Eduardo VII, enquanto headliner, a maior multidão do festival.

Cerca de 20 minutos após a hora marcada a banda entrou em palco e, em jeito de introdução, iniciou o espectáculo com “Smoking Pixels”, faixa unicamente instrumental, seguindo directamente para “Platoon” que foi recebida de braços abertos pelo público, dando assim início a uma dança incessante que só parou nos últimos acordes do concerto. Sem pausas lançaram-se a “Julia”, “Crumbler” e “The Heat”, que aqueceram ainda mais esta tarde de final de Verão.

Foi tempo então para uma pequena pausa em que Josh Lloyd-Watson, co-fundador da banda, aproveitou para elogiar Lisboa e o país, tendo ainda referido já terem por cá passado duas vezes este ano em férias, referindo que numa delas teve a oportunidade de assistir ao jogo entre as selecções portuguesa e polaca num dos ecrãs gigantes da capital. O público respondeu com uma grande ovação, o que vem sendo hábito de cada vez que algum artista fala sobre a nossa selecção. Com isto atiraram-se a “Accelerate”, que mais uma vez fez o público tirar o pé do chão já em modo eufórico provocado pelo comentário de Josh. Seguiram-se “Lemonade Lake”, “Son of a Gun” e “Lucky I Got What I Want”, menos efusivas, mas igualmente brilhantes ao vivo, parecendo que para recuperação de forças para o grande final que se avizinhava.

Ficaram para último uma “Drops” prolongada e explosiva, a fazer as delícias de qualquer um, e as já esperadas “Busy Earnin’” e “Time” como dupla final, os singles com mais visibilidade mainstream da banda. Deu-se assim por terminado mais um grande concerto de Jungle por terras lusitanas, entre “obrigados” muito bem treinados e promessas de regresso, com um alinhamento sem surpresas em que tocaram todas as faixas do seu álbum. Ainda que tivesse sido bom escutar algo novo, saímos com um grande sorriso na cara, o corpo ainda a dançar e também com a esperança de que o próximo trabalho da banda chegue rapidamente.

Mas nem tudo faz sorrir no LISB_ON, como já referido. De mencionar que ao contrário do que se tem observado em outros festivais este, que por acaso até reverte a favor dos animais, poupou-se à vertente ecológica, mantendo sujo de plástico o relvado, ainda que pouco fosse, do jardim a que chamam recinto. Para o próximo ano recomenda-se a adopção das já conhecidas ecocups e uma possível reavaliação do preço dos bilhetes.

Texto: Ana Margarida Dâmaso e Diogo Lourenço
Fotografia: LISB_ON Jardim Sonoro

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