Já há largos anos que a chegada de Setembro significa a chegada da Festa do Avante. E, perante um marco tão importante quanto as quatro décadas de uma bonita festa, construída pelos militantes do Partido Comunista Português – mas de braços abertos a receber tantas mais pessoas, independentemente da sua cor política – o certame do Seixal trouxe algumas novidades. Desde o espaço, que foi ampliado com a integração dos terrenos da vizinha Quinta do Cabo, à roda gigante que encabeçava o recinto.

Com a ampliação do recinto, a qual teve como resposta um aumento notório da afluência do público, mudou também a disposição dos vários stands, que, durante os três dias da festa, resumem, em alguns hectares, o melhor da cultura e da gastronomia das várias regiões de Portugal, o que fez da primeira volta pelo espaço um processo de (re)descoberta.

Ao segundo dia da festa, o primeiro para a equipa Ruído Sonoro, subimos o novo caminho até ao Palco 25 de Abril, onde Carlão, que casa o nome do disco com o número de primaveras da Festa, já cantava os parabéns ao Avante e reiterava o seu amor pela Atalaia e pela margem sul do Tejo. Sempre acompanhado em palco, quer pelos seus músicos, entre os quais DJ Glue, quer pelos convidados, a sempre sorridente Sara Tavares, com quem interpretou “Blá Blá Blá” e “Krioula”, e Sam the Kid, que subiu ao palco para “O Crime do Padre Amaro” e “Pitas Querem Guito”, num regresso ao projecto 5-30. Deu início, de forma enérgica, à tarde de sábado, debaixo de um sol tórrido naquele que foi um dos “Avantes” mais quentes dos últimos tempos.

Mas nesta tão badalada festa, a música não precisa de palcos e prova disso foi a animação que encontramos em torno dos Tradibombos, grupo de percussões de Montemor-o-Novo, que desfilava pelo recinto, acompanhado também por alguns “Caretos” que por ali passavam e também de um grupo de sopros que iniciou a sua actuação, com direito a espectáculo de fogo, enquanto fazíamos o nosso caminho de novo até ao Palco 25 de Abril onde já tocavam Diabo na Cruz. A banda liderada por Jorge Cruz, já uma presença habitual e muito querida pela Festa, garantiu a animação muito além da frente de palco. Depois de uma emotiva “Luzia”, “Chegaram os Santos”, tema do disco Roque Popular, de 2012, chegou a incitar, inclusivamente à formação de um extenso comboio de pessoas.

E se Ferro Gaita deram a tónica de dança para os quentes ritmos cabo-verdianos, foi Ana Moura e o “não tão típico” fado português que provocou uma enchente quase no final da noite de Sábado. A fadista, vestida de branco, conquistou com a sua forte presença, sempre sorridente e pronta para “dançar o fado”.  Apresentando os temas do mais recente disco lançado este ano – Moura – como “Fado Dançado”, “O Meu Amor foi para o Brasil” e a orelhuda “Dia de Folga”, mostrou-se feliz por estar de volta à festa, desta feita no grande palco. Fora deste, no topo do recinto, num esgotadíssimo Palco Solidariedade, junto ao Espaço Internacional, os Peste & Sida asseguraram a continuidade dos festejos, mesmo quando confrontados com alguns problemas técnicos. Nas áreas em redor do palco, muitos receberam com alegria o já clássico tema “Sol da Caparica”.

Já o último dia da Festa do Avante, como qualquer grande festa de aniversário assim o requer, foi marcado pela junção dos amigos da festa. Dos novos amigos, como a Treacherous Orchestra que trouxe a boa-disposição e a folia da tradição escocesa, ao início da tarde, aos velhos e bons amigos, como os Jáfumega, regressados recentemente aos palcos e, desta feita, também à festa. Ao final do concerto, pudemos ouvir os acordes do êxito “Latin’América” com uma vista privilegiada sobre o palco e a baía do Seixal, no topo da roda gigante.

Também Jorge Palma e Sérgio Godinho recordaram o palco maior do Avante e a Festa como o momento crucial para o início do espectáculo “Juntos”, que têm vindo a apresentar um pouco por todo o país. Velho amigos da Festa a solo, pisaram o conjuntamente o palco que já conhecem tão bem. Alternando entre o piano e a guitarra, trouxeram ao cair da noite temas como “A Noite Passada”, “Mudemos de Assunto”, “Deixa-me Rir” ou “Dá-me Lume”.  O mesmo com os Xutos & Pontapés, que, caso o vídeo de retrospectiva dos 40 anos de Festa que acompanhou a derradeira “Carvalhesa”, o hino emblemático da festa, não o provasse, são e continuam a ser peça fundamental no cartaz desde há várias edições. E o público mostrou a sua afeição pela banda através de cartazes e incentivos a Tim, Zé Pedro, Kalu, Gui e João Cabeleira. Estes, por sua vez, desfilaram os êxitos de uma carreira, quase com tantos anos como os da festa, e, para o final, convidaram Paulo de Carvalho a cantar a sentida “E depois do Adeus”, mas também “Minha Casinha”.

Já no palco Novos Valores, os Glockenwise, convidados a encerrar o palco da cidade da Juventude, apresentaram Heat, o terceiro álbum, de registo mais soturno, mas que mantém o mesmo espírito rock’n’roll pungente que associamos à banda de Barcelos. É também aqui, fazendo justiça ao nome, que a festa se prolonga habitualmente após a hora de fecho. Mesmo finda a música e dançadas todas as carvalhesas, os djambés, os assobios, e mesmo os tampos de mesa, soaram em conjunto, numa melodia que espelha bem o espírito de união e partilha que caracteriza o Avante. É que não há mesmo festa como esta, agora há mais de quarenta anos.

Texto: Rita Bernardo
Fotografia: Nuno Bernardo e Rita Bernardo

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