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O Sol da Caparica. A música deu novamente à costa

O sol veio para ficar na Costa da Caparica e, pelo terceiro ano consecutivo, a música voltou a dar à costa no Parque Urbano. Como manda o mote tradicional, lá fomos nós para a costa cheios de pica! O cheiro a mar juntamente com  a sonoridade dos palcos torna este festival no local ideal para uns fins de tarde e inícios de noites animadas e recheadas de boas surpresas. Este ano decorreu de 11 a 14 de Agosto, sendo o último dia dedicado aos mais pequenos.

Dia 1 – 11 de Agosto

A ex-vocalista dos Sloppy Joel, Marta Ren, preencheu o Palco Blitz de um soul inconfundível acompanhada pelos The Groovelvets. Tal como dita a música “I’m Not Your Regular Woman”, ficamos a perceber que não é de todo uma actuação comum trazendo ao cimo um soul equiparado aos clássicos do género, abrilhantado com uma vestimenta vintage a aludir ao estilo que esta sonoridade emana. Com uma energia frenética, os passos de dança foram uma constante – energia essa que passava para o público que se ia aproximando do recinto em frente ao palco. Presenteia-nos com “Summer’s Gonne” e a energia não se esgota, uma mulher furacão do soul acompanhada de excelentes músicos e de um álbum (Stop, Look, Listen) que nos deixa com vontade de explorar faixa por faixa. Um grande começo para o que ainda estava por vir.

O público que se reuniu em frente ao Palco SIC|RFM começa a chamar por David Fonseca e temos o vislumbre de um cenário visualmente forte, como uma extensão das suas músicas e a fazer alusão ao seu mais recente álbum, intitulado Futuro Eu. Ainda se encontra na memória o malfadado concerto de há dois anos, onde os problemas técnicos levaram a algumas paragens durante o concerto, mas felizmente este ano o mesmo não se sucedeu e podemos desfrutar um excelente concerto. Assim David Fonseca vai habituando o seu público. “Superstars” deu início ao espectáculo em conjunto com as luzes de palco a roçar o psicadélico. Brindou-nos com “Let’s Dance” de David Bowie, uma homenagem merecida e os seus “clássicos” também não faltaram – “Someone That Cannot Love” teve como fundo o coro da audiência. Houve ainda mais uma homenagem, desta vez a António Variações com “O Corpo é Que Paga”. Houve em suma uma óptima conexão com o público, quer com músicas do álbum mais recente quer com temas mais antigos.

Valete, que há algum tempo se encontrava longe dos palcos, voltou e comprovou que o seu hiphop tem força para ficar e vingar. A área junto ao palco encontrava-se cheia e a espera um pouco prolongada começou a fazer-se notar, mas assim que a música se fez ouvir tudo se esqueceu. Apesar do seu último disco, Serviço Público, ter sido lançado já em 2006, as músicas não foram esquecidas e muitas mostram-se ainda bastante semelhantes à realidade que encaramos hoje em dia. “Mulher Que Deus Amou” nunca se gasta e o público provou isso mesmo com o coro que se fazia ouvir. Valete homenageou vários colegas, alguns dos quais com quem tem feito colaborações, como Mind Da Gap e Regula, e fez ainda referência a Kendrick Lamar. Durante o concerto apelou várias vezes à mentalidade dos mais novos para que não se deixassem levar pelo desejo da fama e que não enveredassem por caminhos duvidosos. Outro tema que serviu para reforçar esses conselhos foi “Roleta Russa”, bem conhecida também do público em geral. Foi um espectáculo completo com dançarinos em palco que vieram reforçar a componente já forte das letras. Deixou-nos a ansiar por mais e ficamos na expectativa que entretanto se oiça falar num novo álbum com a sua assinatura.

“Olá, nós somos os Mão Morta” e assim se deu início ao concerto desta mítica banda. Olhando em redor é possível perceber que o espaço se preencheu de um público maioritariamente mais velho. Não houve espaço para grandes pausas para conversas durante o concerto mas isso não impediu que o mesmo fosse irrepreensível, como sempre. Presenciámos uma actuação bastante teatral por parte de Adolfo Luxúria Canibal, como é habitual, e que traz uma mística própria ao concerto. Podemos ouvir e viajar por várias músicas presentes na discografia da banda como “Irmão da Solidão”, “Pássaros a Esvoaçar” e “Hipótese de Suicídio”, do álbum mais recente Pelo Meu Relógio São Horas de Matar, e visitas ao álbum Mutantes S.21 através de “Berlim (Morreu a Nove)” e “Barcelona (Encontrei-a na Plaza Real)”. Relembramos ainda “Destilo Ódio” e “E Se Depois”. Por entre rodopios de microfone deixamo-nos levar pelo rock duro e puro de Mão Morta com a admirável capacidade de adaptação, passe o tempo que passar. Eram, são e com certeza continuarão a ser uma banda de culto onde a melancolia e raiva se encontram e explodem em uníssono com as guitarradas como fundo.

Um concerto que se fazia esperar e que se notou dada a adesão ao local do palco foi o de Orelha Negra. A sonoridade inconfundível da banda fez-se notar e a animação começou, tornando-se impossível parar de mexer. Talvez essa inquietude esteja também relacionada com a incapacidade quase brutal de conseguirmos distinguir de onde vem determinado som, conseguimos aqui identificar a bateria de Fred Ferreira e o baixo de Francisco Rebelo e o resto é quase impossível. Mas é isso que faz do grupo um conjunto de conjugações perfeitas, entre a bateria de Fred, o baixo de Francisco, os samples de STK, as teclas de João Gomes e os pratos de Cruzfader. São sem dúvida alguma eficazes e isso chega-nos e transborda-nos. Houve direito a medley usando hiphop norte-americano de Kendrick Lamar, Drake, Notorious BIG e Mobb Deep e representação nacional de Mind Da Gap, Valete e Chullage. Chegou ainda até nós “M.I.R.I.A.M.” e “Throwback”. Tudo isto sempre acompanhado da inquietude do público que acompanhava de voz e corpo. Marcaram ainda presença “A Sombra” e “Parte de Mim”.

Dia 2 – 12 de Agosto

Iniciado o concerto com a “A Partir de Agora”, após a introdução de Cruzfader e Guze os DJs presentes, o público que se mostrava calmo começou a vibrar. O palco era de Mundo Segundo & Sam The Kid. Veio de seguida “Sou do Tempo” e “Juventude (é Mentalidade)”  com a participação de NBC que ainda deu voz ao refrão de “Raio de Luz”. No entanto com o início de “Tu Não Sabes” começou alguma agitação no meio do público e deu-se início a um confronto de breakdance protagonizado por um grupo de dançarinos que já nos tinham presenteado com alguns passos de dança antes. No palco parece não se terem apercebido desse confronto e tudo continuou dentro da normalidade e findo o tema o grupo de dançarinos cumprimentou-se e a abraçou-se, desvanecendo assim o tal círculo humano. Entra “16/12/95”, mais conhecida por “Sofia”, um tema capaz de nos deixar a pensar e viajar na história narrada e depois “Solteiro”, que fez as delícias do público. Surge o segundo convidado em palco dessa noite, Maze, que faz parte de “Bom Dia”, um single radiofónico dos Dealema, e dando ainda tempo para a interpretação a solo da tão conhecida “Brilhantes Diamantes”. Passámos ainda pelo tema “Não Percebes” e para concluir “Poetas de Karaoke”. Foi um concerto repleto de braços no ar e coros a pulmões cheios, irrepreensível.

Nas filas da frente o público ansiava pela chegada de Aurea e o restante espaço foi-se compondo. A cantora chegou e o público delirou. Sempre simpática em constante conversa com o público, sentia-se que a proximidade com o público era importante. Com “Scratch My Back” a proximidade foi ainda maior ouvindo-se o coro proveniente das filas da frente que se juntavam a característica voz da cantora. Outros temas que levaram à exaltação do público foram “I Didn’t Mean It” e “Okay Alright”. Os temas radiofónicos são sempre os mais bem recebidos, no entanto os outros também não ficaram de lado. Temas como “Master Blaster (Jammin’)” de Stevie Wonder, “Stand By Me” de Ben E. King e “Three Little Birds” de Bob Marley fizeram também parte da noite que foram de encontro ao entusiasmo do público. Houve ainda direito a um momento de luzinhas dos telemóveis, cliché mas apropriado.

Chegaram, viram e fizeram (e bem)! Podia resumir-se a isto o concerto de The Gift. Iniciaram com “Fácil de Entender” que desde logo deliciou os presentes, viajando ainda por outros temas também bem conhecidos do público como “RGB” e “Primavera” e passando pelos clássicos “Driving You Slow” e “Ok! Do You Want Something Simple”. A vestimenta bastante chamativa de Sónia Tavares serviu na perfeição para a vistosa apresentação que se presenciava em palco. E quando achámos que tinha terminado não podíamos estar mais enganados, pois surgem no meio do público Sónia Tavares e Nuno Gonçalves, este com um mini-piano, onde juntos interpretaram “Actress” e “A Gaivota”. Como era de esperar o público estava mais do que satisfeito, não só tiveram direito a um encore como ainda puderam estar bem próximos da banda.

Dia 3 – 13 de Agosto

We Trust

Os We Trust, projecto de André Tentugal, abriram o Palco Blitz no terceiro dia do festival e trouxeram com eles muita garra e energia. Sentia-se que iria ser um concerto promissor e a verdade é que assim foi, motivado por ser um dos concertos de despedida. A conversa com o público foi a suficiente para soltar umas gargalhadas na audiência, não tivesse André ainda desafiado a uns uivos aqui e acolá, um espécie de medir forças entre como se uiva no Porto e como se uiva na Caparica. Apesar do público não estar em grande número, isso não foi problema para a primeira actuação do dia e, enquanto desafiava quem passava a se juntar a festa, a banda lá nos foi lançando os temas. Entre “Time (Better Not Stop)”, “We Are The Ones”, “Silent Song” e “Once At A Time” a animação foi uma constante e o desejo de um dia os voltar a ver cresceu. Antes da saída André deixou um conselho a jeito de pedido “sejam felizes e cuidem uns dos outros”.

Chegaram na altura ideal, chegaram no momento do lusco-fusco. A melancolia do fim de dia junta-se bem ao inconfundível soar dos Capitão Fausto. Mostraram que cada vez estão mais maduros e que são capazes de por qualquer um a bater o pé enquanto trauteiam as músicas que nos vão sendo oferecidas. Brindaram-nos desde início com “Corazon” e era ver os corações que por ali palpitavam à medida que o concerto ia avançando. Tomás Wallenstein e os restantes membros fazem-nos pensar que saíram de uma certa cápsula do tempo, passando pelos vinis e cassetes, e isso aguça a curiosidade de quem os vê, ouve e sente cada refrão melódico e sôfrego. Passámos por “Supernova”, “Tem de Ser”, “Amanhã Tou Melhor” e terminámos com “Semana em Semana”, na altura perfeita, quando chegou a noite.

Ainda no Palco Blitz, os Keep Razors Sharp fazem-se ouvir com “5 Miles” e não podíamos ter começado de melhor forma. Deixamo-nos enredar pela voz de Afonso Rodrigues conjugada com um jogo de luzes que nos atingem da melhor forma e fazem vibrar. Em palco, por trás da banda temos um ecrã onde são projectadas diversas imagens, umas mais abstractas que outras, e esse rodopio de cores, sons e sensações transporta-nos para lá da Caparica. O rendilhado do post-rock português ficou sem dúvida alguma mais rico com estes senhores. Todos vindos de outros projectos, mas que agora se juntam e fazem dos Keep Razors Sharp o que são um hoje, uma banda de excelência. Ouvimos vários temas, tais como “The Lioness”, “I See Your Face” e “Sure Thing” e nunca nenhum foi ou pareceu demais.

Para encerrar o Palco Blitz e encerrar assim os nossos focos nesta edição d’O Sol da Caparica estiveram os X-Wife e foi um encerramento de mestre. Comprovado estava e continua a estar que merecem todo o reconhecimento que têm, dentro e fora de Portugal. É impossível ficar parado graças a batidas energéticas e o toque único da musicalidade dos X-Wife deixa-nos gradualmente inquietos. A voz de João Vieira entranha-se pelo recinto acompanhada das sonoridades de Fernando Sousa e Rui Maia. Assim se dá com “Keep On Dancing”, no início do concerto, que realmente foi a premissa do resto da actuação. “On The Radio” ouviu-se e sentiu-se o contentamento geral, um êxito este single radiofónico mas que ao vivo é ainda melhor. Podemos agitar-nos ainda com “Headlights”, “Fireworks”, “Turn it Up”, entre outros. “Movin’ Up” merece ainda uma menção de destaque uma vez que este tema faz parte do último jogo da saga de videojogos FIFA, surgindo lado a lado com outros nomes da música internacional. Desde 2002 até aos dias hoje os X-Wife não deixam de dar cartas e nós cá estaremos sempre à espera de mais. Sentimento partilhado com o festival enquanto a música der à Costa.

Fotografia: Tomás Lisboa
Texto: Filipa Martins

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