A globalização tem felizes acasos. É graças a ela que a abordagem musical ocidental chegou a Seul para se misturar com as raízes tradicionais da Coreia do Sul e é igualmente graças a ela que se tem conhecimento de uma banda do género em Portugal. Os Jambinai (잠비나이, no idioma original) são essa coincidência – a sua linguagem do post-rock entre a melodia e o temor embate com os sons ambientais da natureza e a tradição musical coreana. Com um segundo álbum na bagagem e inseridos no programa Ciclo Mundos do Teatro da Trindade Inatel, em jeito de after do FMM Sines, a banda estreou-se em Lisboa no passado dia 11 de Agosto.

Il-Woo Lee toma a guitarra eléctrica entre loops e samples, mas é com a piri, uma flauta coreana típica construída em bambu, que se atreve a colorir as nuances mais negras da música dos Jambinai. Os pré-crescendos das faixas são violentamente firmados pelo geomungo de Eun-Yong Sim, uma espécie de cítara, e contra ele balançam os agudos melódicos do haegeum, instrumento de arco nas mãos de Bo-Mi Kim. Nesta tríade esfumam-se as comparações com uma banda que parecem apreciar, aquela canadiana liderada por Efrim Menuck, e partem para um campo pouco ostensivo aos ouvidos portugueses. Tal como no álbum de estreia Différance, editado internacionalmente em 2014, a “diferença” reside numa gama de imperfeições para o nosso know-how: os caminhos a seguir em cada faixa parecem mais óbvios do que na verdade são e os clichés são chutados para o lado de forma abrupta, e isso faz dos Jambinai uma banda que se enclausura nos seus métodos. Faz deles um corpo estranho à rotina de concertos, seja de post-rock ou de outro tipo de música qualquer. Faz deste trio – que em palco chega a ser um quinteto – um colectivo eremita.

Mas esse aparente desconforto acaba por desvanescer após vários minutos de teimosia. De nossa teimosia. Não é preciso entender métodos, nem ler as melodias ou os tempos da forma que nos parece mais acertada. Assim é apresentado o novo A Hermitage, disco lançado em Junho último através da Bella Union. Assim acabam por comunicar com o indivíduo comum que nunca escutou a música tradicional coreana, mas que reconhece facilmente alguns padrões do jazz e da música clássica e ainda o peso do rock e do metal. “Connection”, de regresso ao primeiro disco, é a evidência maior de que dois mundos ali coexistiram, na Trindade.

A banda acabou por se aninhar aos portugueses na forma quente como recorda uma anterior passagem por cá, no Milhões de Festa de 2014, e chega a lamentar o facto da sua estadia ser tão curta. Afinal a saudade é-lhes familiar e provavelmente nem a palavra conhecem. Mas já estava mais do que provado que isso não era minimamente importante num acto de mútua compreensão entre aplausos finais.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Ricardo Silva e Nuno Bernardo

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