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Bons Sons. Cem soldos é uma fortuna de boa música

De 12 a 15 de Agosto de 2016 celebrou-se o 10º aniversário do festival Bons Sons, em Cem Soldos, Tomar. A aldeia abriu mais uma vez as portas e disponibilizou as suas ruas e espaços para receber, em 8 palcos espalhados pelo recinto, uma panóplia variada de estilos musicais com selo lusitano.

Para quem entra em Cem Soldos, a música deixa de ser o elemento fulcral, mas sim um dos muitos que contribuem para o espírito do festival, não fosse o slogan “Vem viver a aldeia!”. Desde os petiscos, até às famosas bebidas refrescante (tixão e mouchão), passando pelo bolinho de todos os santos, para aconchegar o estômago ao fim de muitos concertos de ouvidos cheios e barriga vazia. Resumindo: também para os amantes de boa comida e bebida, é um festival que não fica certamente fora do mapa.

Para além de saciar o paladar e o estômago, os habitantes da aldeia saciam também o coração de cada festivaleiro que lá passa, convidando-os para entrar em suas casas, para ver os concertos das suas janelas ou trocando animadamente dois dedos de conversa. Uma aldeia que mete de lado estereótipos, ou que, pelo menos, faz por isso!

Borrifadores e pulverizadores não faltaram para dissipar do corpo dos festivaleiros o calor que se fez sentir na aldeia. Com aspersores pendurados e vários voluntários dispostos a “borrifar para o calor”, as tardes tornaram-se mais refrescantes, ainda que debaixo de um sol quente.

12 de Agosto (sexta-feira)

A tarde de sexta-feira foi marcada pelas atuações mágicas de Indignu, onde corações e mentes sonhadoras foram transportados até “onde as nuvens se cruzam”, e de Birds Are Indie, onde a leveza da música e a delicadeza sonora das vozes de Joana Corker e Ricardo Jerónimo, fecharam em grande o fim de tarde no palco Giacometti.

Enquanto o estômago roncava e finalmente se tentava decidir em que tasco ou restaurante jantar, ouvia-se pela aldeia o som carismático das quatro concertinas de Danças Ocultas, acompanhadas pela Orquestra Filarmónica Das Beiras, orientada pelo grande maestro António Vassalo Lourenço, e público (já jantado ou não) foi o que não faltou.

Ainda antes das 22 horas, já o recinto do palco Eira estava ao rubro, antecipando o grande concerto (também dos mais esperados) da banda de indie pop Best Youth. O duo, composto por Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, trouxe na bagagem as músicas já conhecidas do seu novo álbum “Highway Moon”, juntamente com “Hangout” de Winterlies e com a surpresa da versão de “Never Tear Us Apart” dos INXS. Ainda com nostalgia, o público seguiu para um dos concertos mais animados da noite. No palco Lopes-Graça, os divertidos Kumpania Algazarra deixaram toda a gente ao rubro, inclusive as avós, que tanto trabalharam para fazer as famosas tixas de tecido (“tixa”, diminutivo de lagartixa, o símbolo do Bons Sons), deram o seu pé de dança e juntaram-se aos mais novos na fanfarra que se fazia ouvir e lembrar Emir Kusturica.

Ainda com alguma energia no sistema, seguiu-se no palco Eira a atuação dos Sensible Soccers. A banda trouxe ao público o álbum “Villa Soledade”. Numa mistura de géneros musicais, o trio de Vila do Conde, trouxe-nos sem surpresas, música com pés e cabeça, que aumentou a vibração no recinto em temas como “Villa Soledade”, “Bolissol” e “Nunca Mais Me Esquece”.

13 de Agosto (sábado)

No sábado destacou-se o som da guitarra de Guilherme Efe (aka Grutera) no palco Giacometti, acompanhado em algumas melodias pelo som do violino de Helena Silva e ainda pelo guitarrista Afonso Dorido. O público ouviu sentado o concerto no coreto, assistindo certamente a um dos momentos mais bonitos do Bons Sons.

No palco Tarde ao Sol, atuaram os Few Fingers, que com as suas “canções simples e despretensiosas” acentuaram a sensação de serenidade, tão própria do festival. Com o álbum Burning Hands em cartaz, o público rendeu-se à voz irrepreensível de Nuno Rancho.

Lavoisier levou-nos de regresso ao palco Giacometti, com uma nova abordagem à música tradicional portuguesa. A voz e expressão corporal de Patrícia Relvas com a voz e guitarra de Roberto Afonso conseguiu cativar o público no calor que se fazia sentir.

Uma das grandes surpresas na noite foram os cem-soldenses Lodo; para os festivaleiros que em edições anteriores tiveram a oportunidade de os espreitar no palco Garagem (disponibilizado para quem quiser tocar), vê-los agora pisarem o Palco Eira foi uma experiência fascinante e motivo de orgulho para a população local

Depois da música experimental de Lodo, passámos ao fado único de Cristina Branco, que apresentou pela primeira vez o seu disco “Menina”. Os temas foram cantados em primeira mão ao público português do Bons Sons e, talvez por isso, se denotou algum nervosismo por parte da cantora; afinal de contas, é a sua nova “Menina”.  Apesar do público ainda não poder acompanhar nos novos temas, toda a gente deu uso às cordas vocais quando Cristina Branco interpretou Bomba Relógio de Sérgio Godinho e Tudo Isto é Fado de Amália Rodrigues

Porque diversidade musical faz parte do sangue que corre nas veias deste festival, seguimos para Da Chick, que indiscutivelmente deu dos melhores concertos desta edição. Não foi por acaso que Teresa de Sousa (aka Da Chick) representou Portugal no festival Eurosonic 2016 e ganhou “Melhor Atuação ao Vivo – Artista Revelação” no Portugal Festival Awards 2015. A sua atitude irreverente e energia contagiante, associada à música com influências soul, funk, disco e hip-hop, tornam o concerto numa experiência única, que desafia cada festivaleiro a tentar, sem sucesso, ficar quieto. Acompanhada pelo DJ Mike El Nite e três músicos em sopro, Da Chick faz da língua inglesa quase a sua língua materna, apresentando o seu primeiro álbum “Chick to Chick”, que nos fez viajar para terras americanas dos anos 70/80.

Com algumas pilhas gastas no concerto anterior, os festivaleiros viram Deolinda subir ao palco Lopes-Graça por volta da 01h00. É notório o amor da população pela banda, estando o recinto cheio com pedidos como “toquem os álbuns todos”. Ecoando a voz de Ana Bacalhau, o público acompanhou do início ao fim músicas como “Fado Toninho”, “Seja Agora”, “Um contra o outro”, “Fon-Fon-Fon” e o seu mais recente hit “Corzinha de Verão”.

14 de Agosto (domingo)

Já no domingo, os Dear Telephone foram os primeiros a atuar no palco Giacometti. Com algum público sentado e outro tentando aproveitar as poucas sombras que se vislubravam, a banda de Braga trouxe-nos temas do álbum “Taxi Ballad”. As vozes de André Simão e Graciela Coelho foram cativando ouvidos distantes, conseguindo com o decorrer da atuação encher um pouco mais o recinto.

Por volta das 17.45h, André Barros preparava-se para a sua segunda sessão no auditório. Ainda antes da hora marcada, a fila que se fazia para a entrada no auditório era digna de se ver, levando a uma lotação mais do que esgotada, com pessoas a sentarem-se já nos pequenos espaços disponíveis do auditório, e o fim da fila, infelizmente, já sem sorte por não poder entrar pela falta de espaço. Apesar do calor que se fazia sentir no auditório, o compositor, acompanhado ao som do violinista Otto Pereira, trouxe-nos frescas brisas musicais com as suas melodias, provando que era possível preencher mais um pouco a sala apesar de lotada.

A pop electrónica de Isaura levou a que já perto da hora do concerto fosse difícil estar perto do palco Giacometti. Do seu EP de estreia, “Serendipity”, trouxe-nos temas já conhecidos como “Change it”, “Useless”, “You’re All My (Heart)” e “Dancefloor”, prendendo o público que, com energia, cantava os temas e dançava ao ritmo das suas músicas.

Já no palco Eira, os Keep Razors Sharp foram enchendo o recinto, tocando temas do álbum homónimo e a já conhecida versão de “Can’t Get You Out Of My Head” da Kylie Minogue. O supergrupo, que conjuga sonoridades entre o pós-rock, shoegaze e psicadelismo, fez vibrar o público nos temas “9th”, “I See Your Face” e “Lioness”, trazendo também a calma com as notas de guitarra arrastadas de “By the Sea”.

Uma das atuações mais esperadas da noite era a da fadista Carminho, que enchendo o palco Lopes-Graça, preencheu o coração de cada espectador e mostrou que a sua voz vai para além da comum fadista, os seus temas torcem e distorcem o fado tradicional e a sua alma de fado mantém-se. Cantando alguns temas a-capella, conseguiu silenciar e agradar os ouvidos do público, que também acompanhou e dançou animadamente ao som de “Saia Rodada” e “Bom Dia, Amor”. Destaque vai também para “Chuva no Mar”, que só poderia ser superado com a voz já familiar de Marisa Monte no tema.

Outro destaque da noite foi para os White Haus. Conhecido pelo projeto dos X-Wife e como DJ Kitten, João Vieira trouxe-nos batidas dançantes, sem género definido mas marcadas por influências dance-punk, no wave e electro de West Coast dos anos 80. Com “White Haus Album”, destacou-se o tema “Far From Everything” e a irreverência de “How I Feel”. Sabendo interagir e cativar o público, João Vieira trouxe o single já conhecido “This is Heaven” e, como seria de esperar, ninguém esteve quieto.

Depois da eletrónica de White Haus, seguiu-se a eletrónica de fandango, com o twist de ser acompanhado pelo acordeão e guitarra portuguesa. O duo composto por Gabriel Gomes e Luís Varatojo animou o público e mostrou ser capaz de combinar dois tipos de sons distintos que trouxeram consigo mais dança, preparando de alguma forma os motores para a continuação da noite no palco Aguardela.

14 de Agosto (segunda-feira)

Chegámos por fim a segunda-feira, onde no palco MPAGDP (Música Portuguesa A Gostar Dela Própria), FLAK encheu e preencheu a igreja de Cem Soldos. João Pires de Campos, conhecido pela sua carreira ligada aos Rádio Macau e Micro Audio Waves, trouxe-nos a missa de segunda com músicas do seu álbum “Nada Escrito” e elevou os ânimos quando terminou o concerto com “O Elevador da Glória”, um dos clássicos de Rádio Macau.

Na mesma tarde, as irmãs Cat e Margarida Falcão trouxeram o seu folk em guitarras acústicas e vozes sincronizadas, enchendo o recinto do coreto (palco Giacometti). Com os temas de “The New Messiah”, deram um dos concertos mais memoráveis do Bons Sons, ouvindo-se pela aldeia vozes entoando “There’s a hole in my soul in my heart from the start”.

O palco Tarde ao Sol foi preenchido pela animação dos Desbundixie. Numa base de sete elementos, com o seu jazz alegre e dançável, levaram o público até Nova Orleães dos anos 20. Na dixielândia todos dançaram, balançaram e rodopiaram, criando um dos momentos mais divertidos do festival.

Para repor energias, seguiu-se o concerto intimista de Lula Pena no Palco Giacometti. O público sentado ouviu, atento, os acordes da sua guitarra acústica, acompanhados por uma voz profunda e poliglota, em temas de diversos lugares e de diversos estilos, tudo concentrado numa única mulher.

No início da noite, Les Crazy Coconuts pisaram o palco Eira com a energia que lhes é característica e corre no sangue. Adriana Jaulino convidou com o seu sapateado as pessoas a dançarem e juntamente com a voz de Gil Jerónimo e a batida de Tiago Domingues, não houve ninguém que não ficasse tentado a entrar na aventura de sapatear.

Na praça da aldeia, Jorge Palma subiu ao palco Lopes-Graça para um dos concertos mais esperados da noite. De guitarra da mão ou com os dedos no piano, dedicou o concerto aos “incansáveis bombeiros”, encantando e cantando as canções que fazem parte do saber de todo o português como “Frágil”, “Deixa-me rir” e “Encosta-te a Mim”.

Outro dos grandes concertos da noite pertenceu aos D’Alva. O pop de Alex D’Alva e Ben Monteiro encheu o recinto do coreto na edição do Bons Sons 2015 e este ano a história não foi diferente no palco Eira. O vocalista, que cada vez que atua parece que leva uma injeção de adrenalina, faz questão de dar também essa injeção às pessoas que assistem, mesmo naquelas que não se identifiquem muito com o estilo. Fizeram tributo ao pop português, com músicas desde Dina, Lena D’água e até Linda Martini. Deram sem novidade um concerto de baterias carregadas, em que Alex com energia e boa disposição cantou, saltou e dançou.

No final da noite era já notória a nostalgia que se sentia no ar dos dias na aldeia de Cem Soldos, que não se resumem apenas à música e que proporcionam viver um ambiente relaxado, de amigos, avós, pais, risos de crianças e também lambidelas de animais de estimação. Um verdadeiro paraíso festivaleiro, sem confusões nem dramas, que já deixa saudades e cria expectativas para a próxima edição.

Fotografia e texto: Rafaela Calvete

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