Não é todos os dias que se presencia o nascer de algo único e especial. Foi esse o privilégio que tivemos no passado sábado, dia 18 de Junho, no Texas Bar, um dos bares de referência na região de Leiria no que à boa e variada música diz respeito. Desta feita, a nova promotora local Capitão trouxe a sua III Embarcação a bom porto, apostando em duas das melhores bandas nacionais de rock e em pequenas grandes surpresas artísticas ao longo da noite.

Marcado para as 22 horas, foi preciso esperar até às 23:30 para se ouvirem os primeiros acordes; até lá, cerca de meia centena de pessoas foi chegando, embarcando na viagem que começava logo à entrada, com uma pequena mas variada mostra de várias obras de artistas alternativos locais (Garagem Est.1990, Carolina Sepúlveda, Escaravelho, Ricardo Frazão e Hyte). Composta a tripulação inicial, André Castela subiu ao palco secundário, acompanhado dos amigos Johnny e Ricky. Durante cerca de uma hora, marcaram o ritmo com blues e rock ‘n’ roll, criando um ambiente tabernal agradável enquanto mais pessoas iam chegando.

Era tempo da embarcação virar o leme rumo ao palco principal. Mas a música teve que aguardar cinco curtos e intensos minutos. Mafalda Silvgar é um nome que tem corrido de boca em boca, tal é a extravagância bizarra que impõe às suas actuações. Desta feita, saiu inesperadamente das profundezas do mar, hipnotizando-nos, frágeis marujos, num jogo de luz e reflexos. Uma hora depois, entre os dois concertos principais, voltou a atuar, mas desta feita ficou-se pelas profundezas, numa atuação ainda mais extravagante e macabra, da qual apenas o público mais atento se apercebeu.

Se o evento marcou pela originalidade e unicidade do conceito na região, foi a música que teve maior destaque no cartaz e relevância nas memórias que ficam desta noite. A 15 minutos da 1 da manhã, os Stone Dead, o ascendente quarteto alcobacense de rock rock, subiu a palco e começou logo a abrir. Numa avassaladora maré de rock, foram tocando tema atrás de tema sem pausas, curtos e intensos, com profissionalismo e bom domínio técnico. A acústica do bar e o som estiveram excelentes durante toda a noite, contribuindo para uma experiência sonora genuína e agradável aos ouvidos.

A meio do concerto a banda passou por momentos mais lentos e progressivos, preparando terreno para um final em crescendo de grande qualidade. Não faltou o mais recente single Silver Ball, que é também uma das músicas mais bem conseguidas da banda; Good Boys foi uma grande festa na plateia, mas foi em Stone John que a banda mostrou que também tem queda para temas mais longos, com aquela introdução calma com harmônica a explodir violentamente num verdadeiro hino ao rock pesado. A fechar, o vocalista dos Horse Head Cutters apareceu como convidado, magistralmente debitando a letra de 20th Century Boy dos T-Rex, acabando o concerto com fome de palco (chegando mesmo a comer a primeira guitarra que lhe apareceu à frente).

Duas da manhã. Após velejar sem medro contra a tempestade dos Stone Dead, a Embarcação virou ao enfrentar o verdadeiro tsunami que são os Killimanjaro. Um dos fenómenos musicais portugueses que merece maior destaque nos últimos anos, este trio barcelense contrariou a sabedoria popular e, inesperada e divertidamente, fez a bonança vir antes da tempestade. Terminada a versão de Wicked Game de Chris Isaak, a banda rapidamente assumiu uma postura mais séria e pesada, contrastando com os agradecimentos e intervenções calmas e descontraídas do vocalista.

Apresentando o seu novíssimo EP, Shroud, a banda mostrou o contagiante single Hurry, Bury, por entre a brilhante New Tricks, Old Dog que abre o álbum Hook e a vertiginosa Damselfly. A meio do concerto, a incontornável Hook, a que se seguiu o sucesso televisivo December, ambas levando o público à loucura. Após um excelente solo de bateria do Joni, Howling continuou a visita ao álbum de 2014, um dos temas mais intensos da sua curta carreira e que despertou um mini mosh no público.

A fechar, a apresentação do que restava de Shroud, com a entrada Deep Purpliana de Blue Fences, a simultaneamente brutal e melódica Made Of Glass e a galopante High Flying Bird, o pináculo instrumental da banda. Tudo somado, foi uma hora de rock intenso, pesado, melódico, com uma bateria infernal, uma voz de quente rouqidão e solos demoníacos. A continuar assim, os Killimanjaro vão dar muito que falar em anos vindouros!

O Capitão despediu-se com os DJs Johnny Lee e Peregrino a animar o resto da noite. Já nós, embriagados com tanto e tão bom rock, esperamos por Setembro, altura em que há a promessa de novas águas serem navegadas por esta nova organização de ideias bem assentes na terra.

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