Já antes de se fechar no casulo que é Eartheater, já Alexandra Drewchin liderava os disparos automáticos de Greg Fox por labirintos de psicadelia que lá montava em Guardian Alien. Agora, e especialmente após o lançamento dum belíssimo e inquietante RIP Chrysalis em meados do ano passado, Drewchin é mulher para pintar sozinha o seu nome na imensidão do espaço. Foi precisamente só que a nova-iorquina passou por Portugal para duas datas nas cidades de Lisboa e Porto, tendo sido para essa segunda que a vimos subir ao palco do Passos Manuel na passada sexta-feira.

No que foi tanto uma performance como um concerto, Drewchin – impactante e dona de um carisma que fez por conquistar -, transformou o palco na sala de estar que podia muito bem conhecer há uma vida inteira, mexendo-se naturalmente pelo espaço e preenchendo-o com uma qualidade quase animalesca.  Pelo meio de canções construídas nas deformações da sua guitarra e por pistas e samples que ia disparando e sobrepondo que nem jenga de madeira sacra, esta ia intercalando as mil e uma faces da sua voz com um acto de contorcionismo que vidrava a luz e os olhos na sala, que nem feitiço ou bruxedo ao cintilar de constelação por nomear. Num concerto feito na sua maioria de momentos brilhantes – aqueles em que as arestas do corpo de Drewchin pareciam fundir-se com o ar em volta e ser tanto parte do que se ouvia como qualquer das notas daquele folclore ruidoso -, esta nem sempre foi capaz de fugir a outros de estranheza assinalável, quase sempre por cair na sobre-extensão de um qualquer segmento ou resultado ainda duma estruturação menos conseguida do que é a sua música no contexto duma actuação.

Após terminado o alinhamento que tinha planeado para a noite e feita a insistência do lado de cá, lá Drewchin prosseguiu para uma ou outra faixa mais, brincando com a esquisitice de que se mascararia a sua música se fosse a servir de acompanhamento até à saída da sala. No que já pairava perto da hora e meia de actuação, tivemos precisamente nós de fazer o caminho até à porta, transformando-se em jeito na peça que não acaba porque não lhe vimos o final, que nem linha de Björk em Dancer In the Dark de Von Trier.

Na primeira parte estiveram os CRUA, projecto de André Hencleeday, Carlos Carvão e Daniel Neves.

Texto: Rui P. Andrade

A fotografia utilizada não corresponde ao concerto da reportagem. Foto de Oriana Lippa, tirada no Riot Studio em Nápoles, Itália.

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