A definição de uma dada subcultura é sempre matéria para aceso debate, quer o mesmo ocorra em meios mais ou menos ligados à academia ou em simples troca de argumentos que têm, por exemplo, em momentos como o SMSF lugar privilegiado. Se no primeiro caso é relativamente fácil perceber que há, na melhor das hipóteses e eufemisticamente falando, um distanciamento irrevogável entre quem estuda e o objecto de estudo, concedendo que os motivos do debate são sequer a sincera vontade de conhecimento, na segunda situação é comum ter que suportar os habituais lugares-comuns ligados a preceitos que são, ou demasiado ancorados na experiência pessoal, ou pura e simplesmente repetições da percepção generalizada que há sobre a subcultura, pelo menos endogenamente.

Adicione-se a isto a ideia de tribo urbana aplicada a uma subcultura tão diversa e a complexidade aumenta exponencialmente. Há, então, resposta por entre a análise frívola e a auto-limitação? É difícil, mas algo como o SMSF terá que ser considerado parte integrante da mesma. Na melhor tradição libertária um belo exemplo de propaganda pelo acto em forma de risco programático.

Com mais de 30 bandas, reforçando o eclecticismo habitual, nova localização e um cartaz de respeito, a sétima edição era por tudo isto o maior risco da história do SMSF.

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Dia 9 de Junho

O início vespertino acabou por ser quase madrugador para quem se deslocou para Beja e propunha um regresso a um passado que teima em persistir dentro das lides do Metal mais ligado à tradição dos anos 80. Assim, em catadupa Hexecutor e Amulet provocaram a primeira inversão temporal em Beja mas foi já em plena noite que o regresso a um passado saudoso(?) teve o seu momento climático (ou anticlimático…) com Ironsword. Já em plena idade adulta, a banda de Lisboa teve o condão de apresentar uma admirável concordância entre a qualidade cénica e musical algo que, aprioristicamente, não se adivinhava fácil tendo em conta a estridência guerreira dos cenários.

Antes, os italianos Caronte ainda ameaçaram ser o primeiro ponto de interesse do festival, afinal algo que se assemelhe a canto difónico no soundcheck já para nem mencionar a auto-denominação Shamanic Doom, promete sempre. Infelizmente, e como quase todo o contingente italiano, não cumpriu. Além dos riffs genéricos e pouco interessantes as faixas desenrolaram-se com uma lentidão pachorrenta que nunca teve o peso sufocante ou o hipnotismo que define as boas bandas do género. Na verdade o lado mais Stoner esteve praticamente ausente quando comparado com o registo de Church of Shamanic Goetia (de 2014) e a actuação assemelhou-se mais a uma má banda de Gothic Metal com vocais masculinos a carregar em demasia na nota dramática.

Foi então com algum alívio que Trepid Elucidation se seguiu no “palco floresta” para uma bom espancamento em forma de Death Metal de inclinação técnica e que em meia hora deram sinais bem promissores caso o som denso e quase impenetrável seja algo para manter no futuro. É apostar tudo em Portal…

Com a passagem para os “cabeças de cartaz” deu-se uma viagem até Itália e o regresso ao palco principal. É necessário um ponto prévio: Forgotten Tomb já foi uma banda brilhante com dois álbuns que são autênticos clássicos no que à mistura entre Doom e Black Metal diz respeito: Songs to Leave (2002) e sobretudo Springtime Depression (2003). Pelos critérios mais rigorosos, até Negative Megalomania (2007) a discografia variava entre o verdadeiramente icónico e o extremamente competente. Não é, portanto, em 2016 (ou nos últimos anos, valha a verdade) que seria expectável qualquer tipo de inversão do declínio que a banda tem patenteado na última década. Bem pelo contrário como demonstra Hurt Yourself and the Ones You Love (2015): um álbum que se aproxima dos clichés de uma série de projectos e bandas de “Bedroom” Black Metal que ironicamente estariam há dez anos a anos-luz da qualidade e originalidade de Forgotten Tomb, já para nem falar na capacidade de criar atmosferas realmente opressivas. É espantoso como os mestres se tornaram iguais aos pupilos: uma espécie de cópia de terceira divisão de si próprios num infeliz movimento de esquizofrenia degenerativa. Embora a actuação não tenha chegado a ser penosa, muito do que se viu foi o colectivo liderado por Herr Morbid a variar entre material recente e alguns clássicos com os temas “novos” a serem inevitavelmente menorizados (com a possível excepção de “Reject Existence”). Os clássicos são reproduzidos com competência embora o som bem mais groovy lime boa parte das arestas que tornavam o som de FT tão característico e como tal há uma desconfortável sensação de se estar perante uma banda de covers e não do original. Ainda assim,  “Todestrieb” e o medley que recuperou o primeiro trabalho instalaram uma certa nostalgia por aquilo que os italianos já foram: uma banda de vanguarda dentro do Black Metal.

De pensamentos duplamente funéreos passou-se para a descarga energética com Ventas de Exterko. Algures entre o Metal e o Punk/Hardcore, a banda provocou o caos familiar de quem joga (praticamente) em casa embora só com “Polícia” (cover de Titãs) tenha sobressaído na esforçada actuação.

O contraste não podia ser maior com aquela que seria (devido ao “momento de forma” de FT) a banda mais curiosa do dia: Harakiri for the Sky. Pondo de parte a boçalidade do nome e da temática lírica de boa parte da discografia, os austríacos trilham caminhos apreciáveis dentro da mistura entre o Post-Rock e o Black Metal. No entanto, e como já não é novidade no género, a transposição para palco tem resultados ambivalentes. Se no ano passado Sedna deu lições de como fazer a dita passagem, a banda de Viena acabou por falhar em quase todos os aspectos. Particularmente penalizados pelos desequilíbrios do som que foram facto algo constante nos concertos do palco principal mas sobretudo por um vocalista com um caso grave de disfonia, os Harakiri for the Sky passaram rapidamente de promessa a desilusão, bem aquém do que mostrado em Aokigahara (e que tema é “Homecoming: Denied!”) de 2014 ou do mais recente III: Trauma.

Já eram poucas as esperanças de tornar o dia 1 do VII SMSF em algo para reter na memória tendo em conta o historial do festival. Até que aconteceu Extirpation. O termo é propositado: não houve um concerto, não houve uma actuação ou em linguagem de galeria hipster, uma performance. Extirpation simplesmente aconteceu e é complicado adiantar outro tipo de explicação pois os efeitos ainda permanecem ocultos depois de tamanho atropelo. A música é fácil de descrever: Black Metal com podridão Thrash da pior (melhor?) espécie. O segredo para sobressair? Intensidade. Uma lição de BM com influências bem mais diversas do que à primeira vista poderia parecer onde tudo encaixava na perfeição: a dose certa de velocidade, volume, agressão e atmosfera. Apoiados em Wings of Decadence (2015) os milaneses assemelham-se mais a um bando possuído por substâncias acelerantes do ritmo cardíaco perigosamente próximo dos níveis da overdose com uma abordagem nova a algo já muito batido. O único “ponto negativo” foi a recordação de quanto um género que pode oferecer semelhante experiência também pode ser banalizado e para efeitos comparativos ninguém, dentro do género, foi capaz de sequer se aproximar dos italianos.

Se Extirpation é uma excepção dentro de um conjunto de paradigmas, Mata-Ratos é o oposto. Novamente com vários problemas sonoros (nomeadamente na voz) a melhor forma de descrever o concerto será com o título de uma música dos próprios e que, ao mesmo tempo, sintetiza princípios e “profundidade” da banda: “Outra Rodada”. Com algum atraso e já a madrugada ia bem adiantada quando Roädscüm tomou de assalto o palco secundário em substituição de Vizir para os mais resistentes. Punk “metalizado” bem sujo e um upgrade considerável ao que seria certamente o momento Quinteto Explosivo de 2016…

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Dia 10 de Junho

Paulo Colaço repetiu a presença do ano passado e a viola campaniça voltou a preencher um espaço de diversidade no festival que haveria de ser um pronúncio (bem distante, diga-se) do que iria haver lá mais para a frente. Entrando mais dentro do “núcleo duro” estilístico do cartaz, a actuação de M.I.L.F. (Music in Low Frequencies) foi bebendo em várias fontes dentro do Metal mais “moderno” e com assinalável presença vocal.

Talvez o sol abrasador que se fazia sentir na tarde de Beja tenha tido um efeito perverso no que se passou a seguir. Para resumir a ideia: uma banda denominada Celtibeerian decidiu falar em inglês a maior parte do tempo num sítio onde se fala português. E tocavam Folk Metal…

A jam entre OvO e A Foice, denominada Creating The Sound, seria um pronuncio para o que ambos os projectos ainda haveriam fazer de bom. Já Animalesco, o Método ofereceram algo bem menos experimental: Crust caótico a duas vozes sem grandes contemplações. De alguma forma a banda perfeita para anteceder a Cripple Bastards, lendário colectivo italiano cuja mistura impiedosa de Hardcore e Grind com vários momentos quase jazzísticos e sempre a ultrapassar os limites tradicionais das várias influências em questão com particular destaque para um autêntico sobredotado como é o caso de Raphael Saini na bateria.

Os rasgos de luz eram cada vez menos e foi já em plena noite que Sinister arrancaram para uma actuação que fez jus à posição de destaque no cartaz. Com Dark Memorials (2015) na bagagem, a banda foi debitando Death Metal ocultista onde os quase 30 anos de carreira (interrompidos entre 2003 e 2005) se notam de sobremaneira. Embora os últimos trabalhos tenham dominado o alinhamento foi o regresso a “Sadistic Intent” ou “Epoch of Denial” que mostram porque é que os holandeses permanecem como uma das mais respeitadas bandas europeias dentro do género. O som equilibrado e poderoso ajudou em muito ao sucesso do concerto, algo que foi uma excepção na segunda noite.

Se o intervalo entre Sinister e Bizarra Locomotiva era suposto ser pequeno, acabou por se alongar de tal forma que deu tempo para Bas Rotten devastar o palco secundário. Um mau pronúncio talvez, a verdade é que o concerto de BL acabou por ficar demasiadamente marcado pelos problemas de som. Ainda assim o misto entre o mamute Mortuário (2015) e clássicos já bem conhecidos pelo séquito bizarro que mais uma vez se fez sentir em Beja. Numa aparição mais curta que o habitual, a intensidade bem característica fez-se sentir apesar dos contratempos e por algum tempo percebeu-se o porquê do culto, nomeadamente dos concertos ao vivo da Bizarra Locomotiva. O final viria com “Apêndices” já depois da participação especial de Daniel Cardoso em “Engodo”, tendo o último tema sido completado pela escumalha presente após mais uma falha técnica. Final algo ingrato para aquela que é a melhor banda do país em cima de um palco.

Um dos maiores momentos de risco do festival seguir-se-ia com a inclusão de Spiritual Front, banda mais associada a sítios com castelos ou mesmo com praias fluviais. Cambaleando por um sim fim de sonoridades que acabam por ser uma das marcas mais evidentes da banda italiana, acabou por ser a vertente Neofolk a dominar a actuação com arranjos acústicos cuidados, mesmo nos momentos que são mais dançantes em estúdio. A hora de concerto acabou por se arrastar a partir de certa altura mas não deixou de ser uma experiência rara ouvir temas como “Pain is Love” ou “Vladimir Central” no mesmo palco que Sinister (por exemplo) havia pisado apenas umas horas antes.

Naturalmente a diversidade não é algo facilmente assimilável e não espanta que houvesse sede de sangue e resmungos quando Bleeding Display se seguiu no palco secundário. Foi por entre tiradas de marketing agressivo incentivando a compra do álbum mais recente (Deviance de 2014) que se serviu (mais) uma dose de Death Metal que causou alguma indigestão tendo em conta o que já se tinha visto do género no dia.

Embora algo deslocados, a carreira de Phantom Vision enquanto entidade (única?) do Deathrock (de cariz demarcadamente electrónico) português é longa e bem estabelecida. O regresso no ano passado com Ghosts após aproximadamente dez anos de silêncio mostra a banda de Pedro Morcego imersa em sintetizadores e bem próxima do que já foi, noutros tempos, um género umbicalmente ligado ao lado mais devasso mas poético do Punk. A saturação foi, assim, natural conforme os habituais níveis de dramatismo foram aumentando.

Numa repetição do que acontecera na noite anterior foi preciso esperar bastante para que algo de verdadeiramente memorável enquanto actuação individual ficasse registado e foi mais uma vez uma banda italiana que elevou a fasquia. Os poucos resistentes foram presenteados com o som mais alto e em certos aspectos, mais extremo do festival. A abordagem minimal que os OvO apresentam habitualmente até parecia ter-se expandido quando os dois primeiros temas enveredaram por um registo claramente Sludge. No entanto, a partir daí e até “Marie” assistiu-se a um desfilar de minimalismo rítmico, riffs saturados a níveis perigosamente elevados e o timbre perturbante de Stefania Pedretti a massacrarem os cérebros que teimosamente persistiam no “palco floresta”. Música de efeitos alucinogénicos para encerrar o segundo dia do SMSF.

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Dia 11 de Junho

O terceiro dia trouxe uma vez mais mudanças de alinhamento pelo que não será totalmente abusivo fazer o mesmo e, mais à frente, desrespeitar um pouco o alinhamento na própria crónica ao último dia por motivos que se tornarão auto-explicativos.

Aos espanhóis Empty coube a ingrata tarefa de tocar Black Metal sob um sol abrasador o que diminuiu de sobremaneira o efeito do Black Metal gélido e de influências norueguesas da banda de Saragoça. Noutro contexto os temas de Etica Profana Negativa (2014) e sobretudo de The House of Funerary Hymns (2009) teriam certamente outro impacto numa actuação que, ainda assim, mostrou a arrojada abordagem vocal que se tem tornado o aspecto mais distintivo da banda.

Se no caso de Empty as condições eram amplamente desfavoráveis, semelhante atenuante não se pode aplicar a Blasphemium. O Symphonic Black Metal é um género perigoso e sobretudo escorregadio onde a esquizofrenia genial de Anorexia Nervosa convive com bandas de tipos que estão a uma descendente irritante de distância de terem um programa na MTV. Não sendo um caso tão extremo a verdade é que a banda de Huelva recorre ao mesmo tipo de teatralidade barata em modo “low-cost” e onde a vertente que só condescendentemente se pode considerar “sinfónica” não disfarça a falta de ideias.

Foi preciso vir Decayed pôr ordem na casa. Embora com o alinhamento encurtado tiveram mais que tempo para mostrar que os muitos anos de história têm o seu peso e sobretudo que a formação mais recente está com o ajuste certo. É virtualmente impossível um concerto que passe pelo incontornável “Fuck Your God!” ser mau.

Seguiu-se a surpresa em forma de Systemic Viølence formação criada por entre subúrbios pouco recomendáveis de Lisboa que se estreou com Fuck as Punk durante este ano. D-beat furioso e intenso por entre samples de George Carlin, Iggy Pop entre outros. Uma descarga violenta e furiosa que só pecou por curta uma vez que “forçou” a ida até IXXI e a uma demonstração de banalidade algo surpreendente de um colectivo que até partilha um dos membros fundadores com a muito respeitável entidade Ondskapt (e a um nível sobretudo saudosista, com os enigmáticos Satans Penguins). Exemplo paradigmático que bons músicos não são tudo.

Era então tempo para aquela que era provavelmente a principal atracção do cartaz do festival: Rotting Christ. O histórico colectivo grego foi tudo o que se esperava: competência técnica, teatralidade, apelos espirituais e passagem pelos temas mais icónicos. Há uma banda em Portugal que oferece o mesmo tipo de “rasgo”… chama-se Moonspell.

Dispensando tudo o descrito acima, os ingleses Extinction of Mankind mostraram-se em plena forma distribuindo pancada em forma de Crust abrasivo. Com uma carreira longa e composta de colaborações importantes com Doom, Phobia ou Misery mostraram que são bem mais que um pedaço de história provocando uma injecção de adrenalina assinalável. Pela abrangência algures entre o Metal e o Crust foi uma feliz escolha para encerrar a vertente mais reconhecível do festival uma vez que a partir daí outras lides se seguiriam.

É aqui que se exige um desencontro entre a sequência de eventos e desta crónica pelo que se passará directamente para o mundo distorcido por rebarbadoras, latas e folhas de zinco que cabem no imaginário de Sinter. Experimentação Industrial com muito noise à mistura na mais lancinante performance do festival e que em muito contrastou com o ambiente negro mas sereno instalado imediatamente a seguir por Atila no palco principal. A única linha de continuidade o afastamento às sonoridades que marcaram os dias anteriores mas que resultou pior para o músico portuense cuja música hipnótica beneficia obviamente de espaços mais fechados. Teria sido certamente diferente uma actuação no segundo palco como no caso de A Foice, banda que encerrou todo o festival num ritual hipnótico e intimista como um epitáfio à sétima edição do SMSF.

Podia ter sido só isto. Estava bem e recomendava-se pesando falhanços e sucessos como sempre acontece. Há, no entanto, algo que toldará qualquer julgamento e lançará o caos em qualquer tipo de esforço limitado pela mera análise impondo uma abordagem diferente. Este abalo profundo teve a forma da actuação de Allen Halloween.

O rapper de Odivelas é sobretudo diferente. Não é diferente só porque, num festival que muitos insistem “ser de Metal”, se gritou “a dar o rabo para comprar cavalo” alusão ao épico “Dia de um dread de 16 anos”. Não é diferente só porque captou um público que, pelo menos em grande parte, não está minimamente ligado ao Hip-Hop. Nem sequer é diferente somente porque tem uma voz cavernosa e não tem pejo em berrar num género em que isso é praticamente inédito. Não…

É diferente porque há em Halloween o peso inteiro de todos os eventos mais traumáticos dos últimos 50 anos em Portugal: guerra colonial, retornados, guetificação, o flagelo da heroína, gentrificação e os efeitos de uma crise económica devastadora. Tudo isto matéria-prima habilmente transformada pela lírica ágil, ritmicamente rica e sobretudo com um profundo sentido poético (naquilo que a poesia tem de mais nobre). Como se não bastasse, a execução é de um flow sem flow com beats altamente experimentais e crescentemente expansivos (basta ouvir “Fantas” de Híbrido como exemplo recente).

Ainda assim, a ousadia poderia não compensar. A figura esquiva e enigmática poderia redundar num episódio à lá Galeria ZDB aí há uns anos e o concerto ficar aquém de qualquer mínimo. Não foi o caso embora um certo recolhimento tenha sido notório e a comunicação limitada. Também não era para isso que Halloween lá estava: se havia um sentido pedagógico numa actuação deste género e como estava mais ou menos “prometido” era redefinir a ideia de “pesado”. Não a quantidade de decibéis que sai de um amplificador mas sim a quantidade de fantasmas que se expurga e se expõe. A violência urbana de “O Recreio” (em boa hora recuperada ao mais recente lançamento de ODC Gang), a crueldade de “Bandido Velho” e “Marmita Boy” ou a viagem desgraçada ao “país do pó e da pedra cristalina onde o sol nasce negro e neva todos os dias” em “Zé Maluco” tem uma nota de realidade que, de facto, não teve paralelo. Nessa definição de “pesado” nem sequer houve concorrência até porque Halloween fez questão de seleccionar um alinhamento centrado não só no último trabalho mas também em faixas instrumentalmente mais carregadas.

A verdadeira apoteose de “Drunfos” berrado em plenos pulmões ficará como um inolvidável momento definitivo do SMSF. Não só do sétimo, entenda-se. Ficará como monumento ao risco e ao rasgo do festival e porque é que a dimensão de actuações como a de Halloween subalternizam qualquer outro percalço.

Texto: Filipe Adão
Fotografia: Marta Louro/Santa Maria Summer Fest

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