Once in Portugal, twice at Coliseu – A Vida e o Amor na poesia de Benjamin Clementine.

O inglês Benjamin Clementine subiu no passado dia 1 de Junho ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para um reencontro com o público português com o seu álbum de 2015, At Least for Now. Em declarações anteriores ao concerto, referiu deslocar-se ao nosso país para se lembrar do “porquê de fazer isto”. Com uma sala composta, foi entre camarotes, galeria e plateia em pé que a assistência decidiu o melhor lugar para desfrutar daquela noite de quarta-feira. Escutaram-se no final alguns comentários de admiração por se tratar de um dia a meio da semana, confirmando-se a noção de que “um concerto é um concerto”. Ao habitual toque de piano e voz – Benjamin Clementine – e bateria – Alex Riel, juntam-se agora aos dois músicos um quarteto de cordas feminino com dois violinos, uma viola de arco e um contrabaixo. Apesar da calmaria da sua música, foi possível observar no público alguns movimentos aproximados a dança contemporânea, deixando os acordes entranharem no balancear dos corpos. Entre uma faixa etária média de 30-50 anos mais intelectual e menos irreverente, encontravam-se principalmente casais, pequenos grupos de amigos e alguns turistas.

O atraso de 20 minutos foi desculpado à primeira aparição em palco, com um aplauso ensurdecedor e assobios de contentamento, ainda antes dos primeiros sonidos de Mr. Clementine. Este surgiu descalço, com o seu sobretudo cinzento e recostou-se na sua alta cadeira ao piano. Com ar surpreso, alguém exclamou do público “Benjamin!” e as únicas palavras que lhe escaparam foram “obrigado”, repetido inúmeras vezes ao longo da noite, e a referência ao lindo dia de Sol que se fez sentir. Numa tentativa simpática de pronunciar algo na língua de Camões, quis fazer referência às celebrações do Dia da Criança e fez o público gritar em coro “Criança”, mas só cumpriu a missão com sucesso quando alguém sugeriu “Puto”. Seja talvez pela identificação à humildade característica deste senhor ou pela partilha inocente das suas histórias, a admiração que já conquistou em Portugal faz perceber bem o porquê da sua vinda. Referiu a meio ter pouco ou nada para dizer e o público retorquiu entre sorrisos “We love you”.

O artista que canta como se uma conversa estivesse a ter connosco, contando poeticamente ao som das teclas delicadamente escolhidas as suas desventuras e desgostos amorosos, glorificando a beleza de que é estar vivo e da loucura que é amar e perder. Aplaudido a cada música como se da última se tratasse, nem o calor que se fazia sentir evitou os arrepios justificados pelos sentimentos ali partilhados. Despediu-se da primeira parte com “Love kills, love gives heart attack, love gives stroke (…) All means nothing and all means something. Take care” e aproximou-se do público com o seu baterista.

Introduzindo música após música cada instrumento e respectivo instrumentista, iniciou o concerto pelos singles mais conhecidos do público: “I Won’t Complain”, “Nemesis” e “London”, deixando “People and I” e a requisitada “St-Clementine-on-Tea-and-Croissants” para o final. No primeiro de dois encores, houve ainda tempo para uma tentativa bem aclamada de reproduzir algumas das músicas de Seu Jorge, o cantor brasileiro. A noite terminou com uma bandeira portuguesa ao pescoço do cantor, com uma entoação geral acapella e a vários timbres e tons de “Adios”.

Fotografia: Alexandre Paixão
Texto: Ana Margarida Dâmaso

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