One Day You Will Ache Like I Ache é o nome da colaboração entre The Body e Full Of Hell lançada este ano pela Neurot Recordings. A priori este encadeamento de nomes é suficiente para qualquer mente céptica se sentir inundada pelas avassaladoras correntes da desconfiança que inevitavelmente surgem quando duas bandas que são coqueluches preferenciais de quem vai aos Países Baixos todos os anos porque “lá é que é bom”, lançam um trabalho na editora fundada por membros de Neurosis. Felizmente esse seria um juízo abrupto e precipitado visto que há aqui mais do que magnetismo instantâneo e exagerado, pelo menos em larga medida.

Retornando a One Day You Will Ache Like I Ache, há um sentido de urgência que atravessa as duas bandas captado na perfeição por um autêntico caderno de encargos que é este título: a certeza venenosa que o sofrimento chega, seja em ânsia ou acalmia. Tanto The Body como Full Of Hell dão essa certeza oferecendo a inexistência como única forma de saída. A antecipação da solução é legítima e a espaços desejada: “I want nothing but death”.

É a banda de Maryland que mostra o caminho da falésia. Os blastbeats que têm tanto de clássico como de peculiar são o pêndulo que tudo regula mesmo quando tudo não parece mais que uma imensa parede de som tão densa que mal é perfurada por Dylan Walker que é o foco de destabilização: a projecção vocal é escassa e nem os inúmeros efeitos ajudam na hora de trazer à superfície toda a raiva acumulada. Será porventura um pormenor de relativa insignificância mas não deixa de trazer alguma sensação de anti-clímax quando tudo se conjuga perto da perfeição mas a voz de comando falha em indicar o caminho por entre os fogos perpétuos do último abismo. De resto tudo é certeiro: a mistura entre grind, death metal de outros tempos com a lentidão pestilenta que emana das cordas saturadas. O noise está sempre presente e é uma parte integral do que de melhor há em Full Of Hell. Aliás, é já a caminhar para o fim (salvo seja porque “fim” foi aqui ponto de partida e chegada) quando o ruído selvagem e desregulado que a apresentação se torna realmente grandiosa: há afinal mais que um nome ou a capacidade de colaborar com gente admirável. Há o essencial para qualquer obra. Há, nas palavras roubadas do saudoso Vítor Silva Tavares ao não menos saudoso Herberto Hélder, “tem inferno”.

As ambiguidades descritas acima são ultrapassadas na experiência de The Body. O corpo é compacto, inamovível e irrascível na captação e destruição da esperança. As referências estéticas são bastante mais ricas do que as dos simples outsiders que decidem fazer da plasticidade natural do black metal um altar de devoção. O início de “A Curse” é transporte instantâneo para os tempos das Légions Noires com uma abordagem bem distinta do habitual antes de uma explosão já bem mais próxima do que de muito bom se fez em matéria de BM do outro lado do Atlântico.

Em pouco mais de meia hora foram sendo derrubados os muros que separam sludge, black e doom com uma mestria ímpar e sempre nos limites da insanidade. Se a voz é distante e desesperantemente aguda, o instrumental é uma invasão de graves onde riffs e samples vão, alternadamente, fazendo estragos nos ouvidos e, sobretudo, nas cabeças. O último No One Deserves Happiness tem paragem única com “Hallow / Hollow”, numa versão ainda mais rastejante e pestilenta. Se a figura do buraco negro é usada com um exagero nauseabundo para descrever tudo o que seja alto e lento, aqui soa até a eufemismo tamanha é a demonstração de opressividade. “Just, Wretched” do split com Whitehorse é aceleração momentânea mas o caminho não tarda a tornar-se penoso, alargando os minutos numa relativização que não será estranha aos instantes finais do condenado que espera a lâmina da guilhotina.

É “Lathspell I Name You” que marca um encerramento mais hipnótico sem nunca desapertar a corda do pescoço. O vazio após o assalto terminar é de som mas de algo mais, pouco decifrável mas de uma permanência desconfortável. Certamente efeitos secundários do confronto com algo que não se vê todos os dias.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Filipe Adão

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