Em vésperas de apresentação de Tougher Than Leather ao centro da Europa, Sam Alone e os seus Gravediggers preencheram duas casas portuguesas. Primeiro o Canecas Bar, em Paços de Ferreira; depois este RCA Club, em Lisboa, no passado sábado 19 de Março – aqui com a primeira parte do barreirense Fast Eddie Nelson.

Sam Alone é Poli Correia. As desatenções podem suscitar já algumas dúvidas numa dualidade de públicos – para uns é um paralelo da voz de Devil In Me, para outros pode já ser Devil In Me a banda de hardcore onde Sam Alone é vocalista. “Sam Alone sempre foi algo que existiu dentro de mim. Eu cresci com o americana rock, blues, country e folk em casa, e aos 14/15 anos conheci o punk e o hardcore e isso fez-me afastar um pouco como guitarrista e vocalista, mas não na totalidade. Isso seria e é impossível”, contou-nos Poli. Questionado sobre a necessidade de criar esta voz “solitária”, a resposta foi clara: “Em 2006 ou 2007 senti a necessidade de me expressar de outra forma, talvez se possa dizer de uma forma mais natural e minha. Gravei o Dead Sailor em 2008 mas ainda estava longe de me encontrar a nível vocal. Entretanto tudo se alinhou e Sam Alone é sem dúvida hoje em dia o meu lado mais pessoal e intimista”.

Tal projecto tão próprio, tão susceptível ao cunho de opiniões e de intervenções do foro pessoal valeu-lhe algumas críticas negativas aquando o lançamento de Youth In The Dark, custando-lhe na altura essa exposição, como em redes sociais. Algo que parece ter sido superado: “Na altura estava a aprender como lidar com este tipo de exposição, mas sim, a internet veio ajudar muito na promoção seja do que for, mas tem muitos aspectos negativos. Isto dito, acho que as pessoas têm o direito de escrever o que acham e pensam. A opinião de outro no fim do dia só irá ter o valor que tu lhe fores dar. Uma vez que isso torna claro na tua cabeça, vives mais feliz e tranquilo”, disse. Sobre um eventual desrespeito pelo artista hoje em dia: “Não acho que as pessoas respeitem menos ou mais, mas por norma quem manda abaixo ou é ou está para se tornar um frustrado a tempo inteiro. Faz tudo parte de uma dança social. É só aprender os passos e… meter os dancing shoes! (risos)”. “A vida tem-me ensinado muito boas coisas e a maior parte delas foram melhoradas em alturas menos felizes. Eu escolhi estar do lado do amor e da paz, mas sem baixar os braços ou dar a outra face”, acrescenta.

Sam Alone prepara-se agora para passar uns dias no centro da Europa, com concertos na Suíça, Alemanha e Holanda, para mostrar Tougher Than Leather. Questionado sobre o choque de realidades em territórios com dificuldades muito menos acentuadas, a sua resposta foi afiada: “O nome do disco acaba por afirmar o que se passa… e a parte engraçada é esta, não se vê muitas bandas alemãs ou de outros países em tour em Portugal, mas existem muitas bandas e músicos nacionais sempre na estrada. E sim, esses não aparecem na TV ou em grandes revistas, muito menos lhes dão o devido respeito. Eu não sei fazer outra coisa do que estar em tour. O punk e o hardcore deram, a mim e a outros tantos, essa força e ‘cultura’. O pior de uma tour é voltares e teres noção do que na realidade Portugal poderia ser a um nível económico. E de uma forma populista acho que se fossem espertos, em vez de quererem sempre comer a tarte toda, podiam ir dando umas fatias ao povo. Mas vamos lutando e vendo o que acontece”.

Segue-se a estrada e outros planos futuros para Poli e companhia. Sobre o que se ouve quando se caminha para tão longe, a boa disposição fala mais alto. “Ouvimos tanta coisa. Diversidade sempre foi a melhor das escolas. Gostamos de ouvir reggae/roots em tour, mas é claro que ouvimos bastante rock. Por norma andamos sempre na conversa e na palhaçada”. Depois da digressão regressa aos projectos com o irmão, Mike. “Eu e o meu irmão estamos a construir um estúdio de gravações e salas de ensaio no Algarve. Já está em andamento e no fim do ano estará pronto para quem estiver interessado. O estúdio chama-se Casa Grande”. Para além disso é “fazer música e tocar ao vivo, como sempre”.

Fotografia: Tomás Lisboa
Entrevista: Nuno Bernardo

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