“Oestrymnis” (extremo oeste), foi o nome dado pelo poeta romano Rufius Festus Avienus à região oeste da Península Ibérica – da Galiza ao Algarve – e o nome escolhido pela taberna medieval Trobadores e pela banda Urze de Lume para a primeira edição deste festival de arte folk, que explorou, ao longo de dois dias junto ao Jardim 9 de Abril, as raízes deste antigo povo ibérico através da música, da literatura e de diferentes expressões de artesanato, desde a construção de instrumentos musicais – como harpas, sanfonas, guitarras – trabalhos em pele e couro, solda de metal, entre outros. Contudo, apesar do festival ter começado a 4 de Março, apenas nos conseguirmos juntar às celebrações no dia seguinte.

À entrada uns fardos de palha, semelhantes aos que decoravam o palco, ao fundo do recinto, e algumas das bancas dos artesãos indicavam, simbolicamente, o início de uma viagem às origens mais primitivas da nossa civilização e os vestígios que deixaram até hoje. E no Oestrymnis não faltaram elos de ligação à terra, às raízes e à natureza. Desde uma intervenção do Grupo Lobo, que explicou um pouco melhor a sua missão de salvaguarda do lobo ibérico, uma espécie actualmente ameaçada, a uma interessante palestra sobre as raízes celtas que encontramos no norte de Portugal e em Espanha, no património, nas tradições, nas comunidades e vivências. Os próprios artesãos, vindos desde Pontevedra até Faro, foram escolhidos com o critério-base de construírem peças verdadeiramente manufacturadas e relacionadas com a temática do festival.

Um conceito bem explorado e que a organização clarificou. “A raiz do festival, tal como o nome indica, assenta muito nesta região e para celebrar o que há nesta região que está esquecido e trazer cá para fora todas essas raízes. Se vai abranger outras regiões também ainda não sabemos, mas é possível. Nunca se sabe. Mas nunca desvirtuando o conceito, que é muito forte. Será sempre dentro desta direcção geográfica, sempre relacionado com as raízes mostradas no festival”, explicou Ricardo dos Urze de Lume, que confessou também que não esperavam ter tanto público. “Isto está muito ligado a um subgénero de música folk e este, como sendo o primeiro festival dentro deste subgénero, era uma incógnita. Mas realmente tivemos casa cheia, esgotando os dois dias. Foi uma surpresa”.

E se os Azagatel, acompanhados por um dos Àrnica, que haviam actuado na noite anterior, trouxeram o entusiasmo e um ambiente festivo e familiar, os portugueses Falcata de Fogo invocaram, numa envolvente de ameno negrume, o folk ancestral lusitano com o vibrar forte das cordas, acompanhado pela melódica flauta como no tema “Subida ao Monte”. Da cidade invicta, os Drusuna apresentaram os temas do EP Kaytos Kom e, ao som do violino e do didgeridoo, levaram-nos numa viagem por entre densos bosques térreos, fazendo da sua actuação um intenso ritual de texturas sonoras, no qual era praticamente impossível desligar do palco.

Já os Sangre de Muerdago, que foram os grandes anfitriões da noite, são parte da ligação de parceria que está na origem deste festival, como explicou Ricardo. “Houve uma certa parceria, não muito consciente, mas muito baseada na amizade e provavelmente vai abrir alguns intercâmbios mais assumidos. Se calhar agora foram uns intercâmbios mais na base de um acontecimento fortuito mas de futuro poderá também crescer nesse sentido – fazer intercâmbios com o que é feito em Espanha”. E de forma a poder invocar a pureza das paisagens verdes do norte do país vizinho, os Sangre de Muerdago montaram os instrumentos e trataram da disposição do palco e do próprio público, para que houvesse uma maior proximidade para absorver o que estaria prestes a acontecer, como se se tratasse da partilha de um segredo bem guardado. A actuação etérea, marcada pela harpa, pela flauta transversal, pelo violino e pela sanfona, esteve também focada nos temas do mais recente disco O Camiño de las Mans Valeras e assemelhou-se muito a uma cura celestial, tão silenciosa quanto a acústica do pavilhão o permitia, mas que instaurou desde logo uma sensação de leveza e harmonia percorrendo caminhos e trilhos simultaneamente distantes e estranhamente palpáveis.

Caminhos estes que o Oestrymnis pretende traçar numa segunda edição já anunciada, com a intenção de fazer crescer o festival além do seu público fiel. “Uma das coisas que nós queremos fazer é efectivamente promover a cultura folk. Automaticamente o que queremos fazer é trazer mais pessoas, aumentar o público”. “E acima de tudo o festival acabou por ser um reunir de vários artesãos, vários participantes, várias bandas que partilham o mesmo sentimento e havia muita gente que não se podia pronunciar. O festival acaba por ser uma forma de partilha.”

Fotografia: Nuno Bernardo & Rita Bernardo
Texto: Rita Bernardo

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