Nascidos como um projecto a solo e paralelo de Elias Bender Rønnenfelt (vocalista dos icónicos Iceage), os Marching Church adquiriram com o lançamento de This World Is Not Enough um formato colectivo que veio juntar nomes duns Lower, Sexdrome ou o de Puce Mary. Lançado em Abril de 2015 pela sempre prolífica Sacred Bones Records, foi ainda no decorrer da apresentação desse supracitado longa duração que os dinamarqueses passaram agora por Portugal para dois concertos. Foi no Maus Hábitos no passado Sábado e para uma casa bem composta que os apanhamos antes de seguirem viagem até Lisboa, para aí actuarem no dia seguinte na Galeria Zé dos Bois.

Quando a vossa vida é uma história de amor por vocalistas péssimos, estão eventualmente condenados a descobrir um tal que não suportam. Elias Bender Rønnenfelt é esse gajo, aquele que para além da planície que tem para voz, consegue ainda abusar dela ao ponto de soar tão sofrida quanto é honesto um anúncio da Coca-Cola; o mesmo gajo que até liricamente nos consegue perder quando numa faixa cabe um pombo voyeur que deita o olhinho pelas janelas duma cidade. Isto é tudo tão mais frustrante quando tens uns outros cinco tipos incríveis em palco, quase que a salvar um vocalista dele mesmo. Quando a banda ao fundo nos arrastava a vales para só aí e então debitar toda a sua potência sonora, não podia não ficar claro que é assim mesmo que a música dos Marching Church vive verdadeiramente, já que em disco raramente se tem noção do imenso arsenal que é abafado e perfurado pela voz de Elias. Assim sim há mais espaço para os sopros respirarem de boca aberta, para coros em que surgem vozes que não só a do costume e para que a percussão e a guitarra ressoe mais alto e onde tem lugar. Entretanto continua a haver Elias Bender Rønnenfelt a mexer-se de forma dramática pelo meio de tudo, com a sua presença balbuciante a compensar nem que seja as suas impenetráveis cantorias com a entrega que lhe rasura o nome. Isso ninguém lhe tira.

São logicamente uma banda que requer paciência e que por vezes abusa dela; afinal de contas parecem ser os pequenos momentos que ficam dum concerto de Marching Church, aqueles em que as peças encaixam sob os astros e as ideias servem ao propósito, não tanto a confusão que impera vezes a mais no posicionamento e na estruturação das canções. Felizmente esses momentos ainda foram vários, e foram quase sempre aqueles em que a trompetada soou mais alto. Valeu principalmente pelos momentos iniciais de “Calling Out a Name”, por uma qualquer cantiga de raízes plantadas na country e americana que se escutou pelo meio e, certamente, pela despedida com a cover de James Carr que fecha também o disco. No fundo o que faltou não é assim tão diferente daquilo que falta à BTV, e todos sabemos que é um botão para silenciar o Calado.

Texto: Rui P. Andrade
Fotografia: Hugo Adelino (Wav Magazine)

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