Outside_8A este ponto redescobrir Ulver exige sempre um passo de reflexão sobre o seu passado. É completamente diferente ler algo sobre os noruegueses datado de 1997, de 2002, de 2007 ou de 2013 – em cada um desses períodos estiveram piamente estabelecidas as abordagens feitas e as suas previsões futuras. Mas novo álbum, nova vez de se recalcular o discurso, uns novos lobos para redescobrir.

À distância que já nos encontramos da primeira fase desta matilha, já pouco ou nenhum sentido faz em discutir como se transitou da crueza dos uivos lupinos para a exploratória ode a William Blake. Nem tão pouco dos beats citadinos para o som ambiental às sombras do Sol, já há quase dez anos. Existem sim, e aí podemos aprofundar, uns novos Ulver desde a chegada de Daniel O’Sullivan, em 2009, quando de um trio passaram a ser um quarteto.

Com o britânico assistimos à perpetuação intrínseca de Ulver. As largas correntes outrora denunciadas quando Perdition City se encasulou em Silence Teaches You How To Sing, foram amarradas ao mastro incessante do drone e aos remos do loop e do delay. Em Wars Of The Roses desafiou-se a narcolepsia com pormenores interessantes – com “Stone Angels” a ser, provavelmente, tão amada quanto desprezada por certos fãs – mas ficaram alguns devaneios a exigir uma rectificação. Depois de uma carreira já cheia de imprevisíveis, um par de clichés pode e deve ser perdoado.

Não considerando Childhood’s End e o trabalho a “meias” com Sunn O))) para as contas – se de originalidade falamos integralmente – Wars Of The Roses foi o último disco pensado e gravado em estúdio. Não contando como um live album pelo inédito que é Messe I.X-VI.X, um registo imenso em colaboração com a Tromsø Chamber Orchestra e sem Daniel O’Sullivan, a verdade é que este foi gravado ao vivo. Tal como este ATGCLVLSSCAP.

A familiaridade com as vibrações deste novo álbum de quase hora e meia é naturalmente deslindada. ATGCLVLSSCAP é, tanto quanto parece, uma desconstrução, uma descomposição de um legado em peças em torno da capacidade de improviso de um projecto que parece estar mais nas mãos de O’Sullivan do que do alfa Kristoffer Rygg. Reconhecemos as qualidades de alguns escapes sonoros, “Moody Stix” e esta nova versão da remissiva “Nowhere/Catastrophe”, mas também reconhecemos o espasmo rotineiro. Há, de certo, tão poucos músicos como estes seis tão pacientes e tão capazes de plantar e colher sobre terra infértil com a mesma intensidade. No entanto, é essa paciência e capacidade meticulosa que determina que o disco falhe como experiência e como reflexo.

Não têm sido anos particularmente empolgantes no mencionado ciclo de reinvenção que estes lobos traçaram. Há todo um post-O’Sullivan que leva a decretar que nem toda a música experimental e desconstruída precisa de dispensar emoções. O contrário de emocional não é o vazio. E a evidência disso é que o melhor de Ulver desde Shadows Of The Sun é Messe I.X-VI.X.

Autor: Nuno Bernardo

A este ponto redescobrir Ulver exige sempre um passo de reflexão sobre o seu passado. É completamente diferente ler algo sobre os noruegueses datado de 1997, de 2002, de 2007 ou de 2013 - em cada um desses períodos estiveram piamente estabelecidas as abordagens feitas e as suas previsões futuras. Mas novo álbum, nova vez de se recalcular o discurso, uns novos lobos para redescobrir. À distância que já nos encontramos da primeira fase desta matilha, já pouco ou nenhum sentido faz em discutir como se transitou da crueza dos uivos lupinos para a exploratória ode a William Blake. Nem…
ATGCLVLSSCAP é, tanto quanto parece, uma desconstrução, uma descomposição de um legado em peças em torno da capacidade de improviso de um projecto que parece estar mais nas mãos de O'Sullivan do que do alfa Kristoffer Rygg.

Álbum. House Of Mythology. 22 Janeiro 2016

Classificação/Rating

6.1

ATGCLVLSSCAP é, tanto quanto parece, uma desconstrução, uma descomposição de um legado em peças em torno da capacidade de improviso de um projecto que parece estar mais nas mãos de O'Sullivan do que do alfa Kristoffer Rygg.

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