Desde cedo vincou as suas singularidades. Se já existia um David Jones, ele iria ser David Bowie. E acordámos, incrédulos perante a notícia da sua morte, aos 69 anos, depois de uma batalha de um ano e meio contra um cancro do qual nunca havíamos sequer ouvido falar até hoje. Como, se ainda há dias havíamos celebrado o seu aniversário e a chegada de um novo disco?

Foram pelo menos 40 anos, quarto décadas, nos quais deixou a sua marca na música e em pelo menos três gerações que testemunharam a sua grandeza. É para nós um herói e abraçamos a tristeza do seu desaparecimento como se se tratasse de alguém próximo. Anos e anos com a mesma voz e temas que passaram a ser também nossos, como “Space Oddity”, “Life On Mars?” ou “Heroes”. Era sempre Bowie, mas, quem era Bowie afinal?

Ganhou a alcunha de camaleão pela sua capacidade de se reinventar, de quebrar tabus e de ser anti-norma. Um artista maior do que si próprio, a quem não bastava ser Bowie. Foi Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Halloween Jack e Thin White Duke, enquanto saltava da folk para o glam rock, do punk para a electrónica, não esquecendo o psicadelismo e o funk. Também não lhe bastava a sonoridade, era necessário o visual e o conceptual, mudar de aspecto, mudar de atitude, renascer novamente sob a forma de uma nova personagem. E sua vida foi quase sempre espectáculo versátil e emocionante, com um gosto pelo dramático, pelo suspense, pelo novo e pelo diferente.

A fase alien, a fase mais experimental, a trilogia de Berlim, e as humildes colaborações que sempre manteve. Brian Eno, Iggy Pop, Lou Reed, Mick Jagger, Queen, Placebo e, mais recentemente Arcade Fire ou TV On The Radio, entre tantas (mas tantas) outras. Além de ícone das modas que impunha, as personagens que invocava na sua música trilharam, naturalmente, o seu caminho até aos grandes ecrãs. Desde The Man Who Fell to Earth (1976), passando por Hunger (1983), Merry Christmas, Mr. Lawrence (1983), Labyrinth (1986) ou Absolute Beginners (1986). Mais recentemente, teve ainda um papel no filme The Prestige (2006), de Christopher Nolan. Actos, atrás de actos, uns mais bem-conseguidos do que outros. Mas sempre aclamados pelo público, que sempre esperava um seguimento.

E Bowie manteve as ilusões até ao derradeiro 25º acto, [Blackstar]. Com o enigmático “timing” da sua morte e as mensagens demasiado evidentes nas letras e vídeos que apresentou deste último registo, despediu-se como sempre, com uma entrega sincera e plena e com questões por responder. Mas assim era David “Lazarus” Bowie, sempre surpreendente. Não ressuscitou ao quarto dia, mas sim no exacto instante em que partiu “de forma pacífica”. E vive na enxurrada de mensagens que hoje nos entupiu os telefones e as redes sociais. Vive nas músicas que nos são queridas e que partilhamos, nos discos e posters para os quais hoje voltámos a olhar mais demoradamente. Em todas as suas personas, Bowie tinha algo para todos e uniu uma legião de admiradores transversal a géneros, estilos ou rótulos, na sua pluralidade enquanto artista. Por isto, e por tantas coisas mais, dizemos obrigado e aplaudimos de pé um dos grandes protagonistas da cultura popular, enquanto o pano cai e a cortina se fecha.

Autora: Rita Bernardo

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