Há uma imensidão de factores que têm que ser equacionados quando se pensa uma noite de Black Metal (BM). Ao contrário de vários subgéneros que se focam única e exclusivamente em aspectos performativos e técnicos, o BM é um animal diferente que procura criar atmosferas e espaços mentais que exigem preocupações de tal subjectividade que não raras vezes se tornam impossíveis de equilibrar.

Não há aqui uma intenção de focar todas essas preocupações, mas somente uma delas: o espaço. Se é verdade que a zona da grande Lisboa terá a maior (ou uma das maiores, pelo menos) concentração de salas para música ao vivo do país, não menos verdade é que muitos desses espaços se revelam inadequados a criar uma atmosfera intimista sem cair na falsa proximidade, um certo ambiente de exclusividade sem cair no snobismo bacoco, um ambiente que seja caótico sem pôr em causa a qualidade do som ou a actuação das bandas, etc. É, de facto, uma equação difícil de resolver com um problema adicional de preconceito que provocou longas secas de concertos do género na capital desde há alguns anos.

Não há ainda certezas que o Le Baron Rouge-Rock Hangar, situado nos Nirvana Studios, seja a resposta para tudo. Pode ser mais um oásis como já foram muitos outros espaços ao longo dos últimos anos (e nomeadamente desde que o saudoso Culto/Man’s Ruin deixou de ser opção), mas tem todas as condições para que assim não seja. Pelo menos para uma das mais memoráveis noites dos últimos anos dentro de “um certo” Black Metal foi mais do que suficiente.

Vinte e cinco (Decayed), quinze (Corpus Christii) e dez (Morte Incandescente) foram os números redondos que serviam de mote para a celebração dos respectivos projectos aos quais se juntava Irae, com o regresso ao saudoso álbum de estreia Terror 666, ele próprio a escassos meses de celebrar a primeira década desde que foi lançado. Com um som surpreendentemente limpo (o que se saúda), o trio liderado pelo mentor Vulturius foi percorrendo a maior parte do trabalho lançado em 2006, com particular destaque para o verdadeiro hino que é “Order Of The Black Goat” – onde o melhor da tradição norueguesa dá ares da bolorenta burguesia francesa das LLN.

Ao contrário do que às vezes é suposto, Irae tem ambientes bastante contrastantes e, especialmente, no primeiro trabalho há uma diversidade assinalável que pode castigar com blastbeats e trémulos opressores para, no momento seguinte, tomar uma forma mais melódica e — porque não arriscá-lo? — melancólica. A única faixa tocada que não constava no álbum de estreia, “Under The Fog Of A Cursed Forest”, do Hellnation, é desta heterogeneidade um exemplo acabado. Um majestático momento de Black Metal que nem por um momento se compromete mas não deixa de oferecer algo mais do que simples estática blasfémica. O concerto acabou por ser relativamente curto mas de grande intensidade e perfeito para iniciar a noite.

 

Alinhamento: Portais do Abismo | Fogo Negro | Under The Fog Of A Cursed Forest | Order Of The Black Goat | Silent Wounds | Anti-Life | Vultures Of Satan

Com um quarto de século passado, já muito pouco há a dizer sobre as qualidades perseverantes de Decayed. As inúmeras mudanças de alinhamento (ao vivo e em estúdio) só são ultrapassadas por uma discografia extensíssima a que J.A. acaba por conferir a única identidade estável. Ainda este ano Into the Depths of Hell foi lançado às feras e a formação, que também conta com Vulturius (baixo e voz) e N.H. (bateria), soube dar provas de vitalidade.

Clássicos dos primórdios do Black Metal nacional como “Drums Of Valhalla” misturaram-se com temas mais recentes mas já com destaque habitual como sejam “S.L.B. (Spikes, Leather And Bullets)” ou “Hellish Incantations”. O inevitável e crescentemente pertinente “Fuck Your God” terminou uma actuação que aqueceu e de que maneira a gélida noite que se fazia sentir.

 

Alinhamento: Ancient Abgal | Hell-Witch | Onslaught The Holy Flock | Realm Of Nis | Hellish Incantations | Martelo do Inferno | S.L.B. (Spikes, Leather And Bullets) | Drums Of Valhalla | Fuck Your God

Em modo de segunda celebração (a primeira foi em Setembro, no Side B) do enorme Coffin Desecrators, o concerto de Morte Incandescente (MI) iniciou-se com “Blood Fountain”, único tema que não foi extraído do referido trabalho mas que bem que poderia ser, uma vez que representa uma vertente introspectiva bem característica de MI, embora com um som mais à semelhança de lançamentos posteriores da banda. Seguiu-se imediatamente o icónico e bem apropriado “Pela Noite Dentro” e ao chamamento anuiu a apinhada sala com particular destaque para os momentos mid-tempo que sempre marcaram uma diferença assinalável no som do duo (ao vivo transformado em trio com a presença de J. no baixo).

Não foi de estranhar que temas como “Doce Sabor a Morte” ou a hipnotizante “Dazzling Sorrow Might” tenham sido pontos de destaque e só empalideceram devido ao encerramento com “Neste Meu Caixão”, um dos melhores temas do Black Metal português. Realce ainda para a crescente adaptação da banda em palco, o que permite transpor com maior rigor detalhes como sejam a interacção entre as duas vozes e que coloca Morte Incandescente numa dimensão à parte de muito o que se faz por todo o mundo. Sem dúvida que a rodagem ajudou e não será exagero apontar esta como uma das melhores performances da banda (independentemente do alinhamento) desde há alguns anos.

 

Alinhamento: Blood Fountain | Pela Noite Dentro | Black Skull Crushing Metal | Doce Sabor a Morte | Dazzling Sorrow Might | Amaldiçoados | Necroculto | Neste Meu Caixão

Para terminar estava reservado um momento particularmente especial para quem tenha assistido aos inícios da entidade Corpus Christii (CC) nos meandros do Black Metal Português, uma vez que estava prometida uma passagem por Saeculum Domini, lançado no despertar do novo século. Foi, no entanto, o mais recente PaleMoon a ter honras de abertura e a ocupar a primeira metade do concerto.

De alguma forma o mais recente trabalho de Corpus Christii é um regresso a um som mais directo e longe dos devaneios quase avant-garde que marcaram o trajecto da banda até há pouco tempo e, talvez por isto mesmo, serviu para “abrir” caminho para temas de tempos bem mais recuados. Quando “Throne Of The Proud” rebentou, estava-se a revisitar um álbum que marcou um certo fim de inocência no Black Metal Português. Sem qualquer desprimor pelo que se fez antes (e que até foi bem representado nesta mesma noite), o álbum de estreia de CC trouxe uma intencionalidade e até um modelo de encarar o BM mais próximos do que se fazia em países bem mais gélidos, além das óbvias referências sonoras que se faziam sentir.

Se é verdade que não é a fase mais interessante de Corpus Christii, não deixa de ser interessante ver a mesma entidade que fez Rising a tocar temas como “Victoria Cruenta” ou “Ave Domini”, tal é o contraste. Houve inclusive tempo para revisitar a primeira demo — Anno Domini — com “Rape, Torture And Death” quando, em bom rigor, nem o nome era exactamente igual ou para ver o regresso de N.H. à guitarra, algo que há muito não se via. No meio de tantos encontros entre passado e presente, há coisas que nunca mudam e o facto de “All Hail… (Master Satan)” ser ainda o tema mais reconhecível de CC é paradigmático disto mesmo e foi já em perfeita apoteose que terminou o concerto e uma das melhores noites de Black Metal em Portugal em anos recentes.

 

Alinhamento: Night Of Flaming Hatred | Under Beastcraft | The Great Death | Last Eclipse | Livid Night | Throne Of The Proud | Flamma Tenebrarum | Jesus Cunt Lickers | Victoria Cruenta | Ave Domini| Rape, Torture And Death | All Hail… (Master Satan)

Texto: Filipe Adão
Fotografia: Alexandre Paixão

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