Os Mutantes é um nome mais do que sonante quando falamos do movimento tropicalista que se viveu no final dos anos 60, no Brasil. A banda precursora e lendária, formada por Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias, é um sinónimo de liberdade de expressão, harmonia musical e leveza dos pés, que se despegam do chão enquanto as ancas balançam. Músicas datadas, que associamos de imediato a um período espácio-temporal específico, mas que continuam a cumprir o seu propósito ainda hoje: uma alegria imensa no ar e uma partilha de sorrisos constante. Acompanhar a sua passagem por Portugal foi reviver algo histórico e longínquo, agora em 2015, e a ida até ao Armazém F, em Lisboa, era quase imperativa.

Como dizia Simon Reynolds, no livro Retromania, na era da nostalgia permanente, a “museificação” da música estende-se além décadas, já que cada geração, ao envelhecer, quer que a música da sua juventude seja mítica e memorável. Um desejo que se concretiza com os concertos e digressões de reunião de bandas, umas mais em forma do que outras, que para uns, são um reviver de momentos quase de uma outra vida passada, para outros, uma oportunidade de ver, pela primeira vez, algo que nunca puderam testemunhar.

E é impossível não nos recordarmos disto, considerando a plateia de pelo menos duas gerações, que alegremente dançava pelo espaço do Cais do Sodré na passada segunda-feira ao som d’Os Mutantes, ainda que a banda esteja, ela própria, numa segunda vida e numa outra formação, comandada apenas por Sérgio Dias, que assume o protagonismo na frente do palco.

E desde logo “Tecnicolor” e “Jardim Elétrico” nos levaram de volta aos anos 70 e ao quarto disco da banda, iniciando uma viagem no tempo de uma hora e meia. Os arranjos das músicas são diferentes, puxam mais pelas guitarras e abrem espaço para os longos solos de Sérgio Dias. Também a voz de Esmeria Bulgari é mais cheia, não tem a suavidade dos vocais de Rita Lee que ouvimos em disco. Mas o resultado agrada ao ouvido e invoca o espírito original, tanto que depressa nos envolvemos no balanço deste “monte de músicas boas”, como referiu Sérgio Dias, que Os Mutantes haviam trazido para nós. “Minha Menina”, uma das músicas que mais se destaca no fabuloso legado d’Os Mutantes foi recebida com entusiasmo e deu início ao baile. No mesmo tom não faltaram também as enérgicas “Bat Macumba” ou “Ando Meio Desligado”.

Pelo meio, interrompendo o desfile de êxitos no passado, algumas músicas do disco lançado em 2013, “Fool Metal Jack”, que causam estranheza pela súbita introdução das letras em inglês e a falta da sonoridade característica psicadélica. Mas é este o cimento da nova formação d’Os Mutantes, que é mais do que um tributo e já demonstra uma cumplicidade de quem partilhou já alguns palcos. Tanto que, como explicou Sérgio, um dos temas apresentados havia sido escrito pelo baixista.

“A Balada do Louco” colocou todas as atenções no frontman da banda e foi dos momentos mais belos do alinhamento, motivando um coro afinado de vozes de outros tantos “loucos felizes”. Outro foi “Le Premier Bonheur du Jour”, com as harmonias sonhadoras e a flauta a encantar os ouvidos de todos os que enchiam a sala. A mesma aura sonhadora envolveu “Panis et Circenses”, já no encore, com Esmeria a partilhar o microfone com vários fãs. Os Mutantes despediram-se de Lisboa depois de um serão de calor tropical que cumpriu todas as expectativas, deixando por responder os pedidos de “Baby” que se ouviam um pouco por todo o lado.

Integrados na nova vaga de psicadelismo da actualidade, para a qual Os Mutantes são uma das inspirações, os Ganso foram a banda escolhida pela comunidade do Tradiio, uma plataforma de lançamento de novas bandas e artistas, para a primeira parte do espectáculo. O quinteto de Lisboa tem no EP Costela Ofendida o seu único registo e mostra que trabalhou bem as bases da sua sonoridade cósmica, que nos lembra inevitavelmente de outros conterrâneos, como é o caso dos Capitão Fausto. “Pistoleira” e “Idalina” mostram bem o potencial desta banda que ainda terá de pisar mais palcos para se destacar num género cada vez mais concorrido.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Rita Bernardo

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