Depois de uma passagem pelo Milhões de Festa do ano passado, o regresso dos Boogarins, no passado Sábado, veio comprovar afincadamente o carinho e a estima que o público português lhes tem. Sala lotada, vozes exaltadas e corpos energéticos, prontos para receber os miúdos de Goiânia e a apresentação do seu recente Manual, editado neste ano.

Podia reconhecer-se nos quatro a satisfação de regressar, de cantar em português para quem o compreende, o à vontade para trocar umas palavras com os presentes, meio sem-jeito, tudo reflectido numa performance calorosa e energética.

O sucessor de As Plantas Que Curam foi tão ou melhor recebido do que este, uma amálgama vivaz entre o psicadelismo tropical que já lhes conhecemos, a essência d’Os Mutantes a par da Tropicália de Caetano, por entre riffs espaciais, linhas serpenteantes, dissonâncias rítmicas e os vocais fluídos de Dinho, cujas palavras estavam também na ponta da língua de muitos.

Até por volta das duas da manhã, ficámos com uma mão cheia das pérolas que compõem o seu Manual. “Benzi”, esse hino quase veraneante, joga perfeitamente com as tais linhas de baixo serpenteantes seguidas de perto pelo groove cristalino da guitarra e pelos vocais harmoniosos como que uma leve brisa de fundo, a par de “Sei Lá” ou “6000 Dias”, a apelar a um trautear baixinho das letras, ondular de ombros, até desembocar pelo meio num catártico riff. “Avalanche” ou “Falsa Folha de Rosto” e o seu baixo abafadiço envolvo em perfeitas reverberações recordam-nos uma análoga “Sundown Syndrome” dos Tame Impala de há cinco anos atrás, sem que isso lhes retire o carácter peculiar que tão bem exaltam aos nossos ouvidos.

Os Boogarins têm tudo para ser grandes, comportam-se como tal, e isso ninguém lhes tira.

Foto e Texto: Telma Correia

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