O aguardado retorno dos violoncelistas finlandeses Apocalyptica deu-se nos passados dias 2 e 3 de Novembro nos Coliseus do Porto e Lisboa. Ainda assim, as saudades de um longínquo concerto em 2012 não foram suficientes para esgotar nenhuma das salas.

Eram 20h30 e as ruas da capital já ilustravam o típico cenário de uma noite de terça-feira, cenário esse que se ia espelhar no interior do Coliseu, com pouco mais de uma centena de pessoas divididas entre os balcões e a plateia. Ao roçar as 21h, o ambiente começou a ficar mais denso e os australianos Tracer inauguraram a noite. Donos de uma arrojada postura, típica rockeira, entraram de rompante e descarregaram uma boa dose de canções electrizantes, assentes em riffs bastante robustos e cativantes. Apesar das similaridades com os cabeças-de-cartaz serem poucas, a sua sonoridade efusiva colmatou numa actuação bastante competente, com o baixista a ficar marcado na memória pela sua energia delirante.

Poucos minutos passavam das 22h quando as luzes se apagaram e “Reign Of Fear” ecoou pela sala. Foi sob uma enorme ovação que os Apocalyptica entraram em cena e saudaram o público, ocupando as suas posições. O quarteto, que há mais de vinte anos atrás se estreou com Plays Metallica by Four Cellos, conseguiu com a sua originalidade fazer uma ponte entre o rock, o metal e a música clássica, cimentando uma carreira que tem vindo a florescer cada vez mais ao longo das duas décadas. Originalmente composto por quatro violoncelos, desde 2005 que o quarto instrumento passou a ser uma bateria, tão bem encarregue nas mãos de Mikko Sirén, deixando Eicca Toppinen, Paavo Lötjönen e Perttu Kivilaakso entregues aos seus violoncelos com uma garra e força abismal que quase nos corta a respiração.

Depois da entrada ao som de um dos temas bónus do recente Shadowmaker, ouvimos também do mesmo álbum “Grace”, seguindo-se “I’m Not Jesus” que marca a entrada de Franky Perez, o mais recente “membro” do grupo, se assim o podemos chamar, sendo que é o primeiro vocalista que participa integralmente num álbum do quarteto finlandês. Apesar da sonoridade do grupo já se ter solidificado e se ter afastado das iniciais covers de Metallica ou Sepultura, algumas delas marcaram uma geração e são sempre bem recebidas pelos fãs, como foi o caso de “Master of Puppets”, que nos primeiros acordes suscitou logo uma onda de contentamento pela sala, ou “Inquisition Symphony”, que soltou uns derradeiros rasgos de efusividade.

Os ânimos acalmaram de seguida com “Bittersweet”, num dos momentos mais calmos da noite e que marcou o início de um espectáculo visual, com projecções que acompanharam todos os temas até ao fim. Salientando os mais de vinte anos de carreira da banda, Toppinen fez-nos uma especial apresentação do tema “Harmageddon”, mencionando ser um dos primeiros temas originais, lançado em 1998. As projecções em segundo plano iam pintando o cenário e, tema após tema, os minutos iam passando sem darmos conta. “Refuse/Resist”, de Sepultura, causou um alvoroço na sala, contrastando com a calma “Hole in My Soul” que tínhamos ouvido anteriormente.

Em homenagem a Ludwig Van Beethoven, “Ludwig – Wonderland” ouviu-se de seguida, com a imagem de Beethoven projectada como fundo. Mais uma cover de Metallica despertou a plateia, desta vez “Seek & Destroy”, entoada em uníssono. “Hall of the Mountain King”, anunciada como a última música da noite, teve uma premissa inesperada, com os acordes do hino nacional a serem tocados por Kivilaakso. E depois de uns segundos de perplexidade do público, “A Portuguesa” foi cantada em plenos pulmões por todo o Coliseu.

O encore era quase inevitável, e a banda volta breves minutos depois para acabar a festa com “One”, mais uma cover de Metallica que incendiou não só a plateia, mas também o palco, com as projecções incríveis de chamas a emoldurar o cenário. A rematar, “I Don’t Care” juntou pela última vez em palco os cinco músicos, numa despedida tão aclamada que certamente pede para uma segunda dose.

Texto: Rute Pascoal
Fotografia: Everything Is New

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