Quinta-Feira, 8/10

Chegados ao agora chamado Velvet Be Jazz Club, já em cima da hora, e por entre o pequeno aglomerado de pessoas à porta, pudemos ler, num papel afixado, «esgotado». À semelhança do ano anterior, passaram-se as portas para encontrar uma sala já bastante recheada e que pouco demorou para ficar quase impenetrável. A proximidade dos artistas é um factor que se torna imperativo neste festival e aqui não foi excepção à regra, com a mera distância de cerca de um metro a separar os artífices da plateia, o que propunha ambos a desligar o interruptor para o mundo lá fora. Foi a dupla Akira Sakata & Giovanni di Domenico, estreantes nos discos em 2013 com Iruman, que abriu a noite. Enquanto Di Domenico se relacionava, num luzidio desencadeamento entre a ordem e o caos da aleatoriedade, apenas com o piano, Sakata revezava-se entre o clarinete e o saxofone e mostrar-se o pluralista nato nestas matérias do free jazz e das orquestrações improvisadas.

Conduzidos para a Escola de Jazz, situada no andar de cima, após um curto intervalo, foi numa sala mais ampla que assistimos Matana Roberts. Saxofonista por excelência, esta compositora experimentalista levou-nos além fronteiras, como se uma história nos contasse entre as rendilhadas composições do projecto Coin Coin que partiu em 2015 para o seu terceiro capítulo. Tamanha dissecação entre a meditação improvisada, o spoken word e o encontro espiritual com as origens mereceu, em pano de fundo, algumas fotos e vídeos projectados em loop, que salientaram retratos, paisagens e imagens abstractas, ilustrando uma narrativa livre e igualmente comprometida. Livre no seu método, na expressão de ideias que só Matana Roberts pode conhecer, e comprometida com as dezenas de pessoas que aguardaram pelo seu último suspiro para um aplauso de admiração, respeito e compreensão.

O andar de baixo protagonizou o fecho da noite, com o trio Miguel Mira, Pedro Sousa & Afonso Simões a fazer as honras. Três músicos de tantas outras gerações da criatividade musical de Lisboa a evidenciarem-se em trabalhos distintos. Ora Miguel Mira no violoncelo a revelar porque é um dos elementos de uma das formações mais importantes do jazz contemporâneo nacional, Rodrigo Amado Motion Trio, ora Pedro Sousa a mostrar que é um saxofonista capaz de desafiar o seu próprio crescimento no seio das colaborações. Na bateria esteve Afonso Simões, improvisador que acabaríamos por voltar a encontrar, dois dias depois, a ordenar os seus Gala Drop.

 

Sexta-Feira, 9/10

A prolongar o sentido de descoberta no Barreiro, o Museu Industrial da Baía do Tejo não se poderia revelar um melhor palco para receber os concertos desta noite. O cenário, onde se pode reviver e conhecer as memórias da actividade da CUF, pintou o ambiente e envolveu os dois músicos que partilhavam o palco no seu rudimento. AMM é uma instituição composta hoje por Eddie Prévost na percussão e John Tilbury no piano, e uma vasta ideia de um projecto que já passou por várias formações ao longo dos seus 50 anos de história. História essa que se confunde e mescla com a própria destruição dos limites da música e do conceito de improvisação e que, sobretudo, com a desconstrução de uma notação musical. Sente-se o peso da história cada segundo de silêncio ou de compasso/descompasso de espera e são constantemente derrubadas as fronteiras que têm idade suficiente para recordar Syd Barrett no início dos seus Pink Floyd – afinal, desconstruir numa altura em que a música dá ares às massas de se ter estagnado torna-se mais relevante do que nunca.

Helena Espvall e Norberto Lobo, nomes já conhecidos de edições anteriores do OUT.FEST, a pares com David Maranha e Ricardo Jacinto, deram à edição deste ano uma actuação que surge em sequência de uma anterior, dada no início deste ano. É verdade que Maranha e Espvall lançaram também um álbum nessa altura e, uma vez que os seus anos de colaborações mútuas já são largos, abraçaram o seu entendimento com dois outros músicos para dar uma sequência combinada do mais interessante que se tem feito neste espectro em Portugal. Ora o drone denso de David desarrumava a lucidez de um par de violoncelos às mãos de Helena e Ricardo, ora a experimentação de Norberto na sua guitarra incendiava as sombras mais negras que se perturbavam com a sobriedade industrial da sala, situando-se o público amarrado no centro destas forças.

Vladislav Delay é um pseudónimo de Sasu Ripatti, como muitos outros criados pelo músico finlandês, a fim de poder explorar várias linguagens. Ambient, glitch, house e techno são algumas das vertentes em que tem estado envolvido. Numa actuação onde o sentido da visão era prescindível, o ambiente convidou a fechar os olhos e a criar paisagens a bordo de uma locomotiva, quiçá tão longínquas quanto a terra natal de Ripatti, e por vezes tão violentas como as influências que o próprio diz ter no death metal e no grindcore, se forem recordados os seus tempos da adolescência enquanto baterista. A proposta na mesa, Visa, marca o seu regresso à música ambient mais de uma década depois de Entain e Anima, e foi a trespassar a leviandade e a maturação artística que o produtor se apresentou aos corpos sentados, inabaláveis e pacientes, mesmo se próximo comboio só passasse na manhã seguinte.

 

Sábado, 10/10

Ao terceiro dia esperava-se também um palco, ou um punhado deles, bem improvisados. A noite celebrou-se num novo espaço do Barreiro, a ADAO – Associação para o Desenvolvimento de Artes e Ofícios, onde à espera estavam cinco palcos, apelidados com nomes simples e de aprendizagem fácil – Palco Oficina, Sala Grande, Sala de Jantar, Sala Pequena e Salão Nobre. Reaproveitando o espaço que serviu durante 96 anos, até Dezembro de 2008, como sede da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste, aqui, agora, nascem novos projectos e trabalhos de ocupação artística, como se pôde espreitar pelas várias salas do edifício, que deslumbravam com as mais distintas e diversificadas instalações artísticas. Se nessas salas podíamos desfrutar da calma e beleza do espaço, nas restantes éramos consumidos pelo frenesim e calor humano.

Com concertos em simultâneo tornou-se contundente levar o sentido exploratório à letra. Deambulando pelos corredores e pelas escadarias, cruzando-se com sucessivos «Olá, tudo bem?» e «Já foste lá abaixo/acima ver?», a ADAO havia de visitar cedo a maquilhagem carmim do francês High Wolf como Black Zone Myth Chant, um dos seus vários pseudónimos, a argumentar com hip hop e jazz para um combate directo com o som vindouro do topo da passagem. Era daí que gritava a electrónica de Rabu Mazda & Van Ayres, duo que junta dois dos mais cativantes itinerantes da nova música exploratória lisboeta, demandando os primeiros curiosos da noite a fazer as primeiras escolhas.

Num ponto médio dessa batalha encontrava-se a Sala Pequena. Pequena, mesmo, até demais para aquilo que Rodrigo Cotrim consegue abraçar enquanto cruza as pernas no chão em frente ao seu laptop. Debruçou-se pelas aventuras noise e techno numa progressão constante ao mesmo tempo que o parisiense Low Jack, na Sala Grande e no piso de baixo, trilhava uma viagem áspera e oscilante e, de alguma forma, penetrava os vazios que esta sala teimou em guardar das suas remotas actividades. Mas tal percepção não seria alcançável sem Zs, uns minutos antes no Palco Oficina. Isto talvez devido à dificuldade em fitar os olhares de Sam Hillmer, Patrick Higgins e Greg Fox algures presentes naquele cenário breu, obrigando a vincar os sentidos nos escapes sonoros metafísicos, ou não fosse Fox baterista dos auto-proclamadores de black metal transcendentalista Liturgy. A intensidade individualista, ora pela êxtase melódica da guitarra eléctrica de Higgins e saxofone tenor de Hillmer, ora pelos blast beats do referido baterista, levou ao extremo aquilo que há muito vimos dispensado, ao longo dos anos, do OUT.FEST – a estandardização sonora.

As duas actuações que se seguiram, ambas reincidentes em edições do OUT.FEST, sobrepuseram-se para cimentar os elos entre o passado e o presente e a forma como estes interagem. Os Gala Drop, no Palco Oficina, são hoje um reforço do brilhantismo apresentado no longa-duração de estreia, em 2008, tendo em II o repertório que explora a dança enraizada no eixo África-Jamaica. Em palco tal essência é mesmo avultada, guardando-se para as filas mais confinantes as ancas menos tímidas e para as traseiras os plácidos apreciadores da ética ímpar da banda de Lisboa. Defraudado ninguém saiu, tal como aconteceu a quem decidiu visitar o alemão Peter Brötzmann um ano depois da sua estreia no festival. No ano passado afirmámos que «a nobreza do acto mede-se pela forma como respeitam os silêncios pendulares da aceitação» e tamanha sentença foi reproduzida, desta vez com Jason Adasiewicz, vibrafonista de Chicago que preencheu a vaga do ruído trémulo deixada por Steve Noble e que se apressou com uma dinâmica e bravura imensuráveis. A figura seminal do jazz progressista europeu do último meio-século teve, novamente, a magnificência tangível do seu lado.

Para tentar emular o que aconteceu durante Russell Haswell precisamos de algum exercício dos leitores. Imaginem que batem as dezanove horas de uma sexta-feira de uma longa semana de trabalho repleta de horas-extra e descobrem que vos roubaram o rádio do carro. Imaginem agora que são dezanove e meia e que fazem parte daquele pêndulo que tenta atravessar a Ponte 25 de Abril com filas até ao infinito. Os minutos passam e a hora começa a atingir o roçar o ridículo. Não há música que vos valha, não têm bateria no telemóvel e a rapariga do carro do lado parece pouco impressionada com as vossas pálpebras negras e privadas de sono. É durante um breve momento que vos apetece então destruir meio mundo. Haswell seria o responsável pela música que acompanharia esse momento, igualmente frenético e exasperante, dado à obliteração existencial e ética, não fosse ele um destemido vanguardista dos espaços cruzados do noise, da electrónica e do techno minimal. Quem não se submeteu a tamanha terapia – de choque, claro – encontrou em Filipe Felizardo um refúgio de labirintos harmónicos e cirúrgicos evocados pelas suas guitarras amplificadas e em Bleiddwn um aceno à realidade virtual/paranormal, consoante a materialização electrónica destilada pelo computador da jovem artista.

O agora quarteto Caveira vê duplicado o seu talento com o sopro vital de Pedro Sousa e o baixo de Miguel Abras, como se já não bastassem as qualidades abismais de Gabriel Ferrandini na bateria e Pedro Gomes na guitarra. Esta expansão não é meramente física, deparando-se cada vez mais com a tenebrosidade condizente do nome que envergam. Mas os reluzentes Golden Teacher tudo fizeram – e conseguiram – para roubar as atenções. Prontos para a festa, até mesmo para a mais estranha que possa existir, transportaram o culto criado à sua volta na Glasgow natal para a cidade portuguesa que, provavelmente, melhor reflecte a mística da revolução industrial, ainda que em períodos distantes. O entrosamento com a audiência foi-se empilhando a cada tema e, a dada altura, já era difícil separar um do outro. A sede de dança e festa aliou-se à sua fonte, providenciando-se sucessivos temas dos EPs Bells From The Deep End, Party People / Love e do novo Sauchiehall Enthrall como linhas de montagem de uma indústria austera e implacável. Os seus operários certificaram-se que nenhuma gota de suor chegaria a casa. Um concerto incrível, ainda mais sabendo que se apresentaram desprovidos de uma das vozes do grupo.

Esta maratona de concertos de dia 10 de Outubro terminaria com o trio Niagara a propulsar música de dança electrónica cheia de ritmo, enquanto Älforjs se estreavam no OUT.FEST um ano depois de lá terem nascido por ocasião do workshop realizado por Carla Bozulich. Formas distintas de terminar um dia distinto.

 

Domingo, 11/10

Da mesma forma que a chuva obrigou a mudança de espaço – da recuperada Escola Conde de Ferreira para a Escola de Jazz do Barreiro – um domingo após três noites de OUT.FEST obrigou a uma tarde de retiro espiritual. Laraaji, mestre do mind over body, é uma referência sem igual no espectro da música ambiental incitado por Brian Eno a gravar o seu primeiro álbum em 1980 depois de este o encontrar a tocar num parque público de Nova Iorque.

A sala que havia testemunhado Matana Roberts uns dias antes recebia agora corpos deitados ou sentados no chão a rodear as cadeiras centrais. O norte-americano ensinava-nos que a matéria deixaria de importar logo nos primeiros tinidos da sua zither personalizada. Foi assim que nos deixámos de definir e nos tornámos discípulos de Laraaji, de olhos cerrados, apenas delimitados pela imersiva jornada interior que se desencadeava de forma minuciosa e harmoniosa.

The Peace Garden, performance apresentada pelo músico, derivou uma viagem celestial meditativa e relaxante, ao encontro de um ego desmaterializado. Transformado o dia em noite, trouxemos um sorriso mais leve para os nossos lares, prontos para aceitar que o OUT.FEST 2015 tinha chegado ao fim e que se avizinhava uma segunda-feira.

 

Ano após ano – e nós cá que testemunhámos os últimos quatro – vai-se dificultando a tarefa de tirar conclusões de um festival que nos educa sobre a desagregação dos cânones impostos à larga maioria da música que ouvimos. Durante quatro dias acompanhámos as expedições sónicas propostas para explorar diferentes formas de som e, em simultâneo, descobrimos e redescobrimos espaços de uma cidade condizente que, com passos balançados entre o seguro e o arriscado, vem a reclamar o título de capital do som exploratório.

Fotografia: Nuno Bernardo & Rute Pascoal
Texto: Nuno Bernardo & Rute Pascoal

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