Já se fazia tarde. Cheirava-se a chuva, acabada de tocar o chão, enquanto se esperava pelo começo de mais uma noite imperdível no acolhedor interior do RCA Club.

Após uma longa mas suportável espera, eis então que os portugueses Crude estrearam uma noite repleta de sonoridades divergentes umas de outras. Stoner com pitadas de rock progressivo, foi o que nos mostraram, assim como uma variedade de melodias e ritmos tão quentes e acolhedores quanto o ambiente que se fez. Fugiram pelos olhos as t-shirts de Jex Toth que assombraram a sala, mas atenção que os Crude não se deixaram levar por isso – tocaram e focaram todas as atenções neles mesmos, tanto que a sala esteve composta até à última nota.

A noite continuava mais escura do que a própria escuridão, e nós aguardávamos impacientemente por uma banda à qual é impossível dar um estilo musical, ou até mesmo um rótulo que a possa identificar de imediato. Falamos de Cult of Youth. Ainda não chegaram a uma década de existência, mas a banda oriunda de Nova Iorque tem vindo a mostrar que a idade nada comprova. Com incenso e velas em palco, mostraram ao público português todas as suas influências musicais com apenas algumas notas. O cheiro de incenso emanou no ar, as guitarras acústicas gritaram por uma folk perto do rock e o violoncelo compôs uma melodia dramática e melancólica ao fundo. A voz que tanto cantou como gritou, mostrou-nos o lado punk e arrojado da banda, e a bateria por fim compôs toda uma melodia repleta de emoções e opiniões.

 

Após esse concerto arrebatador, as ânsias já tinham acalmado. Como superar, afinal, um concerto daqueles? Pois, engane-se. Jex Thoth estreou-se então no palco do RCA Club, assim como se estreou em Portugal, e a sala era ocupada pela mesma escuridão que percorria as ruas de Lisboa. Apenas as velas e o incenso ocupavam lugar naquele vazio, escuro. Surgiu então a estranha mas apaixonante voz de Jex Thoth. A própria, toda ela estranhamente cativante e a melancolia a instalou-se com a sua voz. Que melhor sugestão para uma noite chuvosa?

“To Bury” deu início à avalanche de sentimentos quase barrocos, com todos os signos e paradigmas do dramático. Não foi, porém, com este início entusiástico que Jex conseguiu chocar, ou até mesmo fazer-nos apaixonar, mais pela mesma. Sim, esta extasiante mulher conseguiu exacerbar-nos ainda mais quando se colocou entre o público, como uma sibila, e dançou ao som da melodia. Entrelaçou o seu corpo com o fumo resultante do incenso que esta espalhou pela sala – mágico, dramático, assustador. Apaixonante. Hipnotizante. Muitas palavras surgiram naquele momento. Muitas foram as emoções, mas nenhuma tão forte como a do momento da despedida, com sabor a eterna até um eventual regresso. Até lá, permanece o cheiro e as danças no escuro.

Fotografia: Alexandre Paixão
Texto: Mariana Pisa

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