Rodrigo Cavalheiro começou, em 2008 e em formato acústico, a explorar a sua paixão pela música country. Em 2014 convidou Fernando Silva para «electrificar a coisa como deve ser». O seu primeiro trabalho – Turdus Merula – chegou este ano às lojas com sete temas cheios de emoções cruas e rock ‘n roll. Os Country Playground falaram com a Ruído Sonoro e trouxeram um cheirinho do campo aos devotos filhos do rock.

Ruído Sonoro: Turdus Merula é o nome científico do melro preto e o primeiro trabalho de Country Playground. Podem explicar o conceito e a simbologia do melro no disco?

Rodrigo: Sempre gostei do melro. O projecto é todo muito virado para o lado campestre e adoro animais. Pensámos, então, em dar nomes científicos de animais aos nossos discos. O primeiro foi o melro.

Fernando: Costumam parar bastantes melros no sítio onde ensaiamos. Quando estávamos a gravar o disco quisemos experimentar um processo sobre o qual eu tinha lido – focalizar e pensar numa determinada coisa. Para estabelecer uma coerência entre os temas – que são todos diferentes – imaginámos a figura do melro preto. Já tinha visto muitas coisas do género, certos músicos imaginam um objecto enquanto gravam uma música. Depois, sempre que tocam a música, vão buscar esse pensamento para se lembrarem do que passaram em estúdio no momento da gravação. Sei que é um processo meio metafísico, mas acabou por resultar.

Rodrigo: Acredito, que se continuarmos este trabalho, mais tarde se vai entender o porquê de estar aqui o melro. Queremos que olhem para o animal e sintam as canções, ligando-o à música. Gravámos Turdus Merula no quintal da minha casa e nem luz eléctrica tínhamos. É um quintal todo rebentado, mas tem muitos animais. Fizemos lá o nosso pequeno estúdio – Topanga Estúdio – homenagem a Topanga Canyon (Califórnia) onde Neil Young, Dylan e Willie Nelson tinham casas e gravavam. Decidimos então gravar ali, tudo em live. Criou-se um disco muito cru.

RS: Como têm sido as críticas?

R: As críticas pouco me importam. Faço música para mim, não para alguém gostar ou deixar de gostar. Tenho as mãos sempre em óleo (por causa do trabalho) e não dá jeito pegar no telemóvel para ler.

F: Ao contrário do Rodrigo, eu tenho mais tempo para fazer a parte relacionada com a promoção do disco. As críticas têm sido muito positivas. No entanto, apercebo-me mais do feedback das pessoas que ouviram o disco. O pessoal tem ficado viciado e gostamos muito de saber isso. Não é um  disco mediático ao ponto de chegar a toda a gente, mas temos tido muito mais imprensa do que esperávamos inicialmente. Houve, também, muito trabalho da Let’s Start a Fire da Raquel Lains, que acreditou na nossa banda e quis fazer a promoção do disco. Para primeiro trabalho, tem corrido muito bem.

R: Também tenho recebido críticas de pessoas que ouvem o disco e são boas. Nos tempos em que andamos, o disco ser aclamado é muito fixe (especialmente sendo um disco tão simples).

Country Playground

RS: Como surgiu o nome Country Playground? Sentem-se no recreio quando tocam?

R: Estou em Portugal há 15 anos e, no segundo ano cá, o meu primeiro festival foi o Sudoeste. Durante a tarde, eu amigos meus não tínhamos muito que fazer. Havia um tronco de árvore e nós andávamos em cima do tronco, fazíamos saltos e manobras. Todos nós acabámos por lhe dar o nome de Country Playground. Como inventei aquele tronco para andarmos, esse nome ficou gravado comigo com muito carinho. Foi uma época boa e de novas amizades da minha vida. No entanto, levamos o trabalho com seriedade, isto não é uma brincadeira. Somos músicos e compositores. Eu sou chef, o Doutor Fernando dá aulas na universidade, mas só porque a música ainda não dá para tudo. Se desse, eu largava tudo na hora. Os trabalhos são os nossos part-time.

F: A música faz parte da minha vida desde os meus catorze anos. Antes de ter este trabalho já era músico e é óbvio que faz parte de mim. Sem essa parte não sou a mesma pessoa, sou até bastante miserável e infeliz. Nesse sentido, acaba por ser o nosso playground. Ali, somos o que queremos ser e fazemos o que gostamos de fazer.

RS: Já arrancaram os concertos de apresentação do álbum. O feedback está a ser positivo?

R: É um concerto rock ‘n roll do início ao fim.

F: O pessoal sente a entrega que nós deixamos na coisa e é contagiado por isso. Já começamos a ver público a cantar refrões – tem corrido muito bem.

RS: A última música do disco – “Golden Field” – é uma clara declaração de amor e deixa transparecer que o Rodrigo tem uma musa. Fala-me sobre o papel da tua esposa neste trabalho.

R: O papel dela é muito importante. Essa música foi escrita em  2008. A primeira fase deste disco corresponde à altura em que conheci a Ana e houve uma entrega muito grande, que há até hoje. Nessa altura descobrimo-nos um ao outro e escrevemos juntos. A maioria destas músicas foi escrita pelos dois. “Golden Field” é uma completa declaração de amor de mim para ela e dela para mim, assim como a “My last love song”. Foi também a Ana quem fez a arte gráfica do disco – pintou o melro da capa. Ela trabalha todo o grafismo da banda. O papel da Ana neste primeiro trabalho é muito importante. Country Playground era para ter terminado há muito tempo. Inicialmente eu tocava sozinho na viola, mas chegou a um ponto em que já não fazia sentido. Pouco depois, alguém me convidou para um concerto e não quis mais tocar sozinho. O meu instrumento primordial é a bateria (vem de Born a Lion). Toquei em vários sítios do país e conseguia ouvir as conversas das pessoas. Isto é muito triste quando dás o teu máximo numa viola e na voz (e eu canto alto). Faltava um armamento mais forte para chamar a atenção. Então falei com o Nando para fazermos um formato diferente: «Nando, vamos electrificar isto como deve ser?».

F: Todas as canções do disco são canções de amor. Pode parecer um pouco lamechas, mas o disco é, todo ele, um disco de amor. Mesmo os dois temas que não são, estão de alguma forma relacionados com o amor – tratam amizades fortes e a procura do que faz as pessoas sentirem-se bem. Os temas novos do próximo álbum, alguns com letras do Rodrigo e outros com letras minhas, são maioritariamente músicas de amor.

Turdus Merula

RS: Como é que a Preguiça Magazine se tornou a vossa editora?

Tínhamos pensado, inicialmente, em só editar o álbum a nível digital. As editoras locais não tinham agenda para o nosso trabalho e, em vez de parar, quisemos andar com a coisa para a frente. Precisávamos de ajuda, na fase inicial, para fazer com que as pessoas soubessem onde descarregar o disco. Falámos com a Paula Lagoa da Preguiça Magazine para nos ajudar com a promoção. Explicámos-lhe o que pretendíamos fazer e fomos surpreendidos quando a Paula nos propôs que a Preguiça editasse o disco. Achámos a genuinidade da oferta e a vontade de sermos a primeira edição da Preguiça tão fixes que não pudemos dizer que não. Termos o disco em formato físico permitiu que chegássemos à rádio e à televisão. Chegámos à reunião como uma ideia e saímos com um disco!

Entrevista: Nídia do Carmo

Próximas datas:
4 Out – Há música na cidade, Leiria
9 Out – FNAC Coimbra
23 Out – Sabotage Club, Lisboa
7 Nov – Sé La Vie, Braga

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