Julia HolterReferindo-se a Have You In My Wilderness como o seu álbum de «country», Julia Holter parece mais querer mostrar a imensidão dos espaços naturalmente desocupados do que aquele cenário de esporas e cowboys. Isto para se opor aos semáforos e à febre metropolitana de Loud City Song, disco que tão bem soube pegar em Ektasis e ampliar-se a a essa ode urbana de 2013. Talvez por se encontrar mais desprendida de conceitos e não ter um tema central tão vincado como no anterior, este novo álbum espelha uma liberdade mais “selvagem” e de pontas espigadas, substituindo por pedras, parques e planícies os cenários que guardávamos de clubes e de passadiços apinhados. Encontramos agora uma cantautora à beira da sua residência de paredes lívidas, mais focada no conjunto de flores que colheu à beira de um charco do que no calçado essencial para uma noite delirante em Los Angeles.

Mais do que sinceros fluxos de consciência, a componente lírica de Have You In My Wilderness remete-nos para uma pluralidade de personagens colocadas entre a divergência de espaços físicos e temporais. Tanto as soalheiras areias das Baleares nos assam os pés como as águas gélidas do Norte nos carregam nos ombros para o mais próximo lar emocional, e o melhor de tudo isto é que estes deslocamentos são feitos de forma subtil e afável, como chocolate a enternecer os lábios.

Afogados em “Sea Calls Me Home” – «I can’t swim, it’s lucidity, so clear» – surgimos à tona para um solo de saxofone no ponto em que se rompe a metade do disco. É isto, mesmo. Julia Holter já nos tem na mão e a meio caminho já nos deixa o ouvido à escuta das repetições da viçosa “Feel You” ainda antes de nos dar a doce “Everytime Boots”. Embrulhados no trio de linhas sonoras que nos amarra – teclados, bateria e baixo – quase desacreditamos a electrónica minuciosa de “Vasquez” e os momentos que remetem para as primeiras experimentações musicais de Holter que pintam as arestas do álbum. Porém, há outros arranjos que não nos escapam. O padrão circular e crescente da segunda metade de “Betsy on the Roof”, por exemplo, é gradualmente engolido por diversas camadas de cordas que se entornam e dobram sobre o piano e os coros angelicais que o escoltam. Já em “Lucette Stranded on the Island” situamo-nos nessa ilha retratada, algures entre a cintilante purificação vocal e as quebras que esta sofre sempre que os pratos soam quase como ondas a esmagar as rochas.

A voz de Julia Holter está mais clara e forte do que nos discos anteriores. Eventualmente é esse facto que torna Have You In My Wilderness o seu trabalho mais acessível até à data, mas é essa doçura fácil que nos intriga, arrastando-nos para este disco de braços bem abertos para embatermos com aparato numa extensa parede de algodão. Essa imponência serena faz os espaços desocupados implorarem para que neles habitemos, deixando-nos relutantes na hora de os abandonar.

Autor: Nuno Bernardo

Referindo-se a Have You In My Wilderness como o seu álbum de «country», Julia Holter parece mais querer mostrar a imensidão dos espaços naturalmente desocupados do que aquele cenário de esporas e cowboys. Isto para se opor aos semáforos e à febre metropolitana de Loud City Song, disco que tão bem soube pegar em Ektasis e ampliar-se a a essa ode urbana de 2013. Talvez por se encontrar mais desprendida de conceitos e não ter um tema central tão vincado como no anterior, este novo álbum espelha uma liberdade mais "selvagem" e de pontas espigadas, substituindo por pedras, parques e…
Encontramos agora uma cantautora à beira da sua residência de paredes lívidas, mais focada no conjunto de flores que colheu à beira de um charco do que no calçado essencial para uma noite delirante em Los Angeles.

Álbum. Domino. 25 Setembro 2015

Classificação/Rating

9.1

Encontramos agora uma cantautora à beira da sua residência de paredes lívidas, mais focada no conjunto de flores que colheu à beira de um charco do que no calçado essencial para uma noite delirante em Los Angeles.

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