A DEAD FOREST INDEXnz

Do outro lado do mundo. De outro mundo. Sob um limpo céu azul, entre-cortado com os traços góticos da centenária Igreja de Nossa Senhora da Pena, os irmãos Sherry deram o concerto mais delicado, sonhador e etéreo que aquele espaço alguma vez testemunhou. Tide Walks foi o primeiro de onze temas, com a voz de Adam cedo a brilhar através da sua suave rouquidão, tão sólido ao vivo como em estúdio. A marcar o ritmo, lento e hipnotizante, Sam na bateria foi uno com o irmão, do qual raramente tirava o olhar. A completar o cardápio musical, letras de profunda beleza, como a sideral Ringing Sidereal, a mais experimental Silver Thread Of Sun e a mágica A New Layer, onde se sobrepuseram mais de meia dúzia de camadas de voz, qual multidão fantasmagórica.

Talvez para alguns tenha sido um momento algo aborrecido, com minimalismo excessivo. Outros terão dado por falta de Gemma Thompson, que certamente daria um bem vindo toque feminino, porque a delicadeza ganha uma dimensão mais pura quando expressa através de uma mulher. Para a maioria, onde me incluo, foi um momento mágico, de suavidade requinte, coroado pelos dois temas de maior sucesso da banda na despedida, Distance e Cast Of Lines. O início perfeito daquele que foi, porventura, o melhor dia que o Entremuralhas alguma vez teve.

Setlist: Tide Walks | No Paths | Summit Down | Ringing Sidereal | Where The Pitch Changes | Silver Thread Of Sun | In Greyness The Water | A New Layer | Myth Retraced | Distance | Cast Of Lines

ASH CODEit

Por mais bela que seja a quietude, o corpo precisa de movimento para se sentir vivo. Para isso, perante uma igreja populada por uma impenetrável moldura humana, os italianos Ash Code trouxeram-nos mais um par de irmãos (desta vez gémeos) e a sua eletrónica algures entre o coldwave e o post-punk, tocando na íntegra o seu álbum de estreia, Oblivion, bem como uma mão cheia de temas novos. Lembrando os She Past Away na sonoridade e expectativa criada pelo público, não estiveram ao nível dos turcos, mas também não desiludiram muito, apesar das vozes ao vivo ficarem longe da qualidade que prometiam.

Deambulando de tema em tema com alguma inexperiência, mas ajudados pela qualidade de composição dos mesmos, a banda foi recebida com carinho e o calor dos corpos elevou a temperatura do espaço, demasiado limitado para tanto curioso. No ar, pairava o sal do suor; nas paredes, ecoavam temas como Dry Your Eyes e Waves With No Shores; em palco, a banda movia-se timidamente, com a indumentária de Claudia algo deslocada do ambiente. E por falar nela, as coisas não correram muito bem a nível vocal, quando tomou conta do microfone em Drama. Fica a promessa de uma banda com muito para melhorar, mas no bom caminho!

Setlist: Intro | Self Destruction | Crucified | Waves With No Shores | Empty Room | Unnecessary Songs | Oblivion | Night Rite | Can’t Escape | North Banhof | Drama | Challenge The Sea | Want | Dry Your Eyes | Out

ART ABSCONsde

Seria condição necessária, para abrir o Palco Alma em 2015, vir mascarado? Vinte e cinco minutos após a hora marcada, uma visão retirada de um pesadelo subiu a palco: uma figura humana, imóvel, com uma máscara hedionda, cor de fumo, fumo esse que saia de algo que segurava na mão direita; na esquerda, um pedaço de madeira, uma espécie de cruz quebrada. E quando se poderia esperara todo o tipo de horrores de tamanha visão kafkiana, eis que de uma boca imóvel brotam sons melosos e de calma gravidade. A acompanhar o vocalista, uma banda igualmente intrigante. A baixista e vocalista era uma donzela de um castelo medieval, com um dos olhos ornamentados de negro; nas teclas, um híbrido de palhaço com um Elton John adolescente, com uma espiral negra pintada na face branca; por fim, na percussão, um demónio vermelho e negro com dentes ameaçadores.

Mais do que um concerto de calmo e belo neofolk, onde temas como Somnium I a abrir, Der Verlassene Hain e Morgendämmerung fizeram a delícia dos presentes, foi um autêntico espectáculo de teatro, com o demónio a enforcar o vocalista em Erscheinung! e a donzela a fazer chover rebuçados, enquanto dançava com uma alegria quase infantil e um sorriso de derreter corações, em Accordion Song. Um mar de gente observava, em frente ao palco e no cimo das muralhas, testemunhando a surpresa mais bem guardada desta edição. Teria sido o melhor concerto naquele palco este ano, não se seguissem os And Also The Trees.

Setlist: Somnium I | In Ruinen Geboren | Die Zeit Ist Tot | Der Verlassene Hain | Somnium II | Erscheinung! | Morgendämmerung | Der 13. Gast | Accordion Song | Freie Felder | Niemandsgebet

AND ALSO THE TREESgb

Oriundos das terras de Sua Majestade Rainha Isabel II, os And Also The Trees afiguram-se como um dos nomes mais sonantes nos mundos do post-punk e rock gótico. São já trinta e seis anos de carreira, a fazer florescer clássicos como quem respira. A dez minutos das vinte e três horas, história voltou a dar alma ao palco de seu nome, com uma grande ovação a receber os irmãos Simon e Justin Jones e companhia. Prince Rupert abriu hostilidades, Shaletown deu-lhes seguimento e Dialogue logo de seguida foi o primeiro momento alto do concerto, com o seu sonhador e melancólico dedilhar de guitarra, acompanhado da voz de surreal beleza e inconfundível sotaque britânico de Simon Jones.

Com Only e Slow Pulse Boy, este último recebido em êxtase pelos presentes, o concerto passou por um momento mais experimental, seguido da doce balada Mermen Of The Lea. Após o quase falado Angel, Devil, Man And Beast, o concerto voltou a ganhar mais ritmo com Brother Fear; em Missing, a guitarra fez-se ouvir com maior relevo. Já a fechar, tivémos Rive Droite, numa despedida que deixou saudade no ar assim que a última nota se fez ouvir. Sob o olhar atento de uma lua prateada, tudo se conjugou para um concerto que nos relembrou ao que soa a perfeição.

Setlist: Prince Rupert | Shaletown | Dialogue | A Room Lives In Lucy | Only | Slow Pulse Boy | Mermen Of The Lea | Angel, Devil, Man And Beast | Brother Fear | Missing | Your Guess | Rive Droite

LAIBACHsi

Foi a derradeira descida, percorrida por uma congestionada turba a espremer-se numa última visita às tendas de merchandising, enquanto alguns tentavam furar para garantir um lugar nas filas da frente do concerto mais aguardado deste ano. Eram os míticos Laibach que se seguiam, banda que tem corrido as bocas do mundo e teve um final de Agosto em cheio (não é para todos, tocar dentro de um castelo tão belo!). Mas se meio mundo acordou agora para uma lenda com 35 anos, já de longa data era o desejo de os ver no Entremuralhas.

Pois bem, eis que o desejo se torna realidade. Pouco depois da meia noite, o palco dá sinais de vida. Uma música ambiente estranha paira no ar, ar esse que se ia enchendo de ocasionais libertações de fumo, dando um ar misterioso ao cenário nocturno. As luzes iam piscando provocadoramente, e o público assobiava e chamava pelo pequeno exército de Milan Fras. Finalmente, ouve-se o hino europeu, para logo de seguida Eurovision destruir o sonho de um continente com a fatídica frase “Europe is falling apart“.

Nunca se viu som simultaneamente tão alto e tão nítido, fazendo estremecer o corpo e voar cabelos, enquanto em palco, uma linha de quatro vozes entoava verdadeiros hinos de tão puras verdades e tão fortes e belas linhas melódicas, com electrónica suficiente para dançar toda uma vida. Além da voz inconfundível do seu frontman, destaque para o poderio vocal de Mina Špiler, uma fera que arrasou temas como Walk With Me, No History e Bossanova. E por entre sorrisos, choros de felicidade e olhos vidrados em puro êxtase, a banda saiu de palco após uma intensa See That My Grave Is Kept Clean.

Como seria de prever, o melhor estava guardado para o final. O encore começou com Opus Dei, tema que transborda felicidade e que foi entoado por muitos. Antes do final, Fras brincou um pouco com o público, para finalmente dar por terminado o concerto na explosão caótica de dança que foi Tanz Mit Laibach. Um concerto de uma vida!

Setlist: Eurovision | Walk With Me | We Are Millions And Millions Are One | The Whistleblowers | No History | Resistance Is Futile | Brat Moj | B Mashina | Alle Gegen Alle | Love On The Beat (Serge Gainsbourg cover) | Eat Liver! | Bossanova | See That My Grave Is Kept Clean (Blind Lemon Jefferson cover) \ *encore * / Opus Dei (Life Is Life) (Opus cover) | Tanz Mit Laibach

AGENT SIDE GRINDERse

Devia ser crime tocar a seguir aos Laibach! Coube aos suecos Agent Side Grinder a inglória tarefa de o fazer, perante uma multidão ainda encantada com os eslovenos. No entanto, logo com a abertura Into The Wild, se percebeu que a banda não se mostrava intimidada; pelo contrário, revelou uma entrega intensa e genuína, com o carismático vocalista Kristoffer Grip a encher o palco, dançando com mestria, cantando e encantando, sempre de olhar intenso fixo no público.

Com quase metade do alinhamento retirado do seu novo álbum, Alkimia, a banda espremeu o resto de energia que o público ainda tinha em músicas como Giants Fall e This Is Us, esta última precedida de uma apresentação da banda. Dos álbuns anteriores, destaque para as brilhantes prestações em Look Within e Wolf Hour, esta última a fechar o concerto antes do encore. No regresso a palco, a banda não veio sozinha, fazendo-se acompanhar pelo mítico líder dos The Klinik, Dirk Ivens, tocando um mashup de músicas das duas bandas intitulado Go (Bring It) Back.

Die To Live, o tema mais antigo tocado pela banda, foi a última música ouvida na edição de 2015 do Entremuralhas, fechando a noite mais mágica que o festival alguma vez teve. Se classifiquei como inglório tocar a seguir aos Laibach, inglória será também a tarefa da Fade In de superar esta edição em 2016. E no entanto, acreditamos que nos voltará a surpreender, como nos tem vindo a habituar desde sempre. Para o ano lá estaremos, respirando a mística essência que emana das pedras milenares do Castelo de Leiria.

Setlist: Into The Wild | Life In Advance | Look Within | Giants Fall | Mag 7 | New Dance | This Is Us | Wolf Hour \ *encore* / Go (Bring It) Back (with Dirk Ivens) | Die To Live

EM-Days

Day1Day2Day3

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