Segundo ano do Reverence Valada. Este ano, o festival teve uma antecipação de algumas semanas face a 2014, mas o mesmo pano de fundo: Tejo, praia, desinibidores de mente e corpo e, claro, muita música. Tudo isto junto ao Cartaxo, terra cujas qualidades enológicas são sobejamente apreciadas.

Estas eram razões de sobra para que o festival entrasse em força no mês nevrálgico dos festivais portugueses, especialmente porque o cartaz tinha como objectivo proporcionar algo mais do que um simples pretexto para o “convívio”. E, parecendo que não, mas para quem gosta de música isso até interessa qualquer coisa.

5 - Stoned Jesus 9

Dia 27

Há semelhança da edição anterior, o primeiro dia foi claramente o mais curto e serviu para antecipar os dois dias seguintes. Ainda assim, e com a curadoria do Lisbon Psych Fest, um par de pontos de interesse já dava as boas vindas a quem chegava mais cedo.

Os ingleses Purple Heart Parade tinham uma proposta que se viria a repetir muito: misturar Shoegaze, de laivos claramente Pop, com Psych. No entanto, aquilo que aparentemente pode ser algo mais do que uma ovelha num rebanho gigantesco que tem invadido o panorama “alternativo”, acabou por ser uma leve desilusão. É certo que fizeram lembrar os momentos mais interessantes dos quase conterrâneos The Verve mas a performance ainda é demasiado crua não obstante o bom gosto de malhas como “The Room”.

Seguiram-se os italianos The Vickers que tiveram algumas dificuldades em serem algo mais do que uma banda de covers em que, literalmente, se tornaram por breves momentos. Foi, portanto, com natural pressa que a presença repetida dos Keep Razors Sharp se exigiu. A rodagem do álbum de estreia é notória, e os caminhos ruídosos por onde o “super-grupo” palmilhou foram, claramente, os mais interessantes dum concerto ainda algo contaminado por alguns temas mais desinspirados. No entanto, e face ao tédio de JEFF the Brotherhood, bem que podiam ter continuado o mini-festival de “noise” durante mais uma hora.

13 - ufomammut 12

Dia 28

A seguir a uma introdução algo hesitante, era o dia de sexta-feira que maior expectativa reunia. E com boa razão: entre Sleep, Jon Spencer Blues Explosion, Ufomammut, e mais um exército de bandas a começar à tarde e a acabar já em plena alvorada, as razões para resistir eram mais do que muitas.

Nem com um número de bandas ligeiramente reduzido face a 2014 se perdeu aquilo que é uma das imagens de marca do Reverence: dias recheados de música, onde os melómanos menos selectivos têm literalmente de se nutrir de ondas sonoras. Esses começaram o dia com Bom Marido, os mais exigentes um pouco depois com Füzz. Houve gente que ignorou o trema e, por isso, julgou que a “courização” do festival ribatejano tinha chegado um dia mais cedo. A mistura de Post-Rock, Stoner e a pequena fixação com Deftones marcou uma actuação que se afundava cada vez que os rapazes das Caldas decidiam que era preciso dizer (cantar?) alguma coisa. Não era…

Tardou em arrancar o Reverence Valada em matéria de grandes concertos e foi preciso mandar vir uma dose poderosa de Stoner e Doom das conturbadas terras ucranianas. Em vez das boas vibrações unidimensionais que, infelizmente, ainda aparecem em excesso no festival, o trio de Kiev chegou, viu e venceu com uma fórmula peculiar: pegou no melhor que o Doom clássico tem para oferecer e juntou-lhe a atitude relaxada do Stoner mais desértico. Isto sem nunca se deixarem cair na indolência e sempre à procura da próxima grande malha.

Os álbuns The Harvest e Seven Thunders Roar’ dominaram o alinhamento, mas dois momentos curiosos ficaram na memória: “Invaders Must Die”, memória sempre bem-vinda de The Prodigy, e uma das bandeiras de At The Drive-In, com “One Armed Scissor” impecavelmente executada mas com um cunho claramente original que, de resto, percorreu os cinquenta minutos de actuação e que acabou por entrar ao de leve na “slot” dos renomeados Grave Pleasures.

A banda finlandesa anteriormente denominada Beastmilk apresentou-se em contra-ciclo com quase tudo o que estava a acontecer: banda de Gothic Rock a tocar às 17:30 com temperaturas acima dos trinta graus. Se estilisticamente estavam deslocados, a verdade é que seria naturalmente uma banda a despertar curiosidades. Afinal Climax foi um trabalho que chamou a atenção dentro do género e a revolução ocorrida no seio da banda deixou muitas interrogações sobre o que vale agora. De alguma forma, as dúvidas mantiveram-se: as músicas do trabalho de 2013 resultaram bem, mas os problemas técnicos e as novas músicas acabaram por lançar a actuação bem mais para baixo do que poderia ter sido. Ainda assim temas como “Nuclear Winter” e “Love In A Cold World” (que encerrou o concerto) refrescaram, se não o tempo, pelo menos os ouvidos.

Se é verdade que The Warlocks, liderados pelo omnipresente Bobby Hecksher, deram boa conta de si ainda num dos palcos secundários, já era tempo de estrear o palco principal. A honra coube aos nacionais Process Of Guilt, que repetiram a presença do ano passado. Uma das propostas mais genuinamente negativas a contrastar com as florezinhas imaginárias desenhadas pelas mãos e que dominavam o panorama até ai. Foram cinquenta minutos intensos onde temas de Fæmin mereceram o destaque maior, incluindo a gigantesco tema-título que ainda é capaz de quebrar pescoços pelo puro poder “daquele” riff. Entrava-se nas coisas sérias e PoG foi a melhor escolha para a transição.

A noite ia caindo no recinto e, enquanto noutros palcos se iam soltando riffs ténues cujas ligações ao psicadelismo eram bem menos do que se poderia desejar, eis que surge um corpo estranho e ferrugento. É uma máquina ruidosa, quase Drone que invade o palco Reverence: Bizarra Locomotiva. Quem já sabia não ficou surpreendido com o que se passou a seguir porque afinal a melhor banda portuguesa ao vivo não consegue dar concertos que não rocem o brilhantismo. O músculo Industrial intercalado por uma lírica visceral e de uma riqueza incomum, a sede de velocidade e a vontade de fazer o rock acontecer… Até a escolha da setlist (crescentemente difícil há medida que os anos vão passando e os clássicos se vão acumulando) foi particularmente feliz, uma vez que “Sudário de Escamas” e “Na Febre de Ícaro” são dois dos melhores temas do recente Mortuário.

Houve tempo para regressar a Ódio (“Desgraçado de Bordo”) e Álbum Negro (“Egodescentralizado” e “Engodo”) antes da apoteose final com o clássico “O Escaravelho”, já com Rui Sidónio perdido por entre uma multidão que raramente falha porque, afinal, ainda há diferenças entre “uma banda” e uma banda de culto.

Logo a seguir e mudando para o palco Praia, os Black Rainbows deram uma verdadeira lição de revivalismo misturando o que bom há em Kyuss com os anos 70. A dupla comparação pode parecer redundante mas, a verdade, é que os italianos têm algo mais na manga que é simplesmente uma homenagem a Black Sabbath. As malhas fluíram certeiramente.

Se Black Rainbows é uma banda que respira num outro tempo e se inspira, então é mau sinal quando os franceses Alcest despertam similares choques nostálgicos. A mistura de Black Metal e Shoegaze deu frutos até 2010 e criou alguns dos grandes álbuns de uma cena francesa que explodia em todas as direcções e cuja qualidade poderá ser atestada olhando para o radar de colaborações de Neige.

Só houve cinquenta minutos para dar cabo de um legado cada vez mais fragilizado e o alinhamento só piorou nas duas últimas músicas, mas tudo o que era intensidade e força nos belíssimos riffs de Souvenirs d’un Autre Monde desapareceu, e transformou-se numa massa indolente e inconsequente. Praticamente só quando Neige recorria aos guturais (tão únicos e imagem de marca da banda) é que se conseguiu inverter, por breves momentos, a penosa e implacável lei do tempo e que tanto tem penalizado os franceses. Talvez doutra forma não tivessem estado no Reverence, mas quem assistiu à amorfa actuação dificilmente adivinharia que ali já esteve uma grande banda.

Para recuperar de uma já esperada mas sempre dolorosa decepção, nada melhor que uma das maiores certezas de grande concerto: Ufomammut. Ecate é uma prova cabal de que os italianos são uma força poderosa no que ao Doom de tendências psicadélicas diz respeito e os vulcões que surgiram nas belas projecções que acompanharam o concerto foram a metáfora perfeita para a verdadeira torre de som que ia saindo dos amplificadores Green, que ajudam ao som bem próprio da banda. Sempre com uma intensidade difícil de igualar, os italianos transformaram o palco Praia num cenário quase apocalíptico, onde só só os riffs sobreviveram. Memorável uma vez mais.

Infelizmente um dos nomes de proa “sofreu” devido ao facto de se tornar imperativo acompanhar até ao fim os restos de distorção que saíam do enorme “backline” dos transalpinos. No entanto, o nome de The Jon Spencer Blues Explosion ultrapassou até a mais cruel das sobreposições. O melhor frontman do festival (de muito longe…) e uma actuação centrada no interessantíssimo Freedom Tower — No Wave Dance Party 2015, e intercalada com alguns clássicos (com dez álbuns muita coisa ficou de fora mas não foi grave) do melhor que o Blues empestado de Rockabilly e Punk tem para oferecer. Blues Explosion!

Os DeWolff ainda tentaram fazer a ponte, mas a atenção estava toda concentrada nos Sleep. Desde que, em 1998, a banda se separou na sequência do conturbado processo de lançamento de Dopesmoker, o culto foi crescendo. A mais seminal e importante banda de Stoner/Doom do mundo, e simultaneamente o mais destacado nome do cartaz do Reverence, estreou-se em Portugal. Escusado será falar das expectativas e, como às vezes acontece, a antecipação transformou-se num mito que os homens não podem alcançar. Mesmo quando não são homens quaisquer.

A hora e meia que se seguiu teve “Holy Mountain”, “Dopesmoker” e “Dragonaut” mas, sobretudo, a mentalidade de jam que sempre esteve presente na banda. As imagens sucederam-se e, era tal o efeito hipnotizante de uma gigante parede de som, que era preciso focar para se poder apreciar os créditos de Jason Roeder (de Neurosis) ou de Al Cisneros numa relação única com baixo.

Deu para tudo até para enganos que passaram, mais ou menos, despercebidos, mas que exemplificaram a forma descontraída e assumidamente improvisada com que os Sleep encaram cada celebração. Uma verdadeira ode ao peso que ultrapassa as barreiras do que é um habitual concerto ao vivo e que aponta um só caminho: “follow the smoke toward the riff filled land…”

A massagem sonora deixava antever cama, mas ainda havia muita coisa a acontecer antes do descanso por entre o mar de tendas. Talvez a mais relevante com Blown Out, a mostrarem uma faceta mais espacial e psicadélica da mente de Mike Vest. Se é verdade que o “groove” domina, o mais recente Jet Black Hallucinations é prova de que nem tudo tem que ser cor de rosa no mundo do Psych Rock. Saturnia também reforçou a ideia já em fim de noite e com vista para Oriente.

14 - Jon spencer blues explosion 19

Dia 29

Se o ano passado os dois dias mostraram algum equilíbrio, este ano houve uma diferença clara entre os dois que constituíam o núcleo duro da experiência em Valada. Havia coisas para ver, mas também muito a evitar. A começar por The Altered Hours, cuja audição prévia prometia, mas que se viria a transformar num profundo engano. Se tudo o que é banal no Shoegaze e no Psych se misturasse, seria mais ou menos aquele o resultado.

Com muito mais tempos mortos devido a propostas bem menos apelativas, deu para explorar o resto do belíssimo recinto do Reverence e visitar uma vila que pareceu adaptar-se para alimentar (metafórica e literalmente) quem se deslocou ao festival. O turismo interno só foi interrompido quando os alemães Samsara Blues Experiment subiram ao palco para uma lição de Stoner/Doom viajante e “abluesado”. À semelhança de Stoned Jesus no dia anterior, foi preciso entrar num mundo pejado de THC (ou sair deste, como se preferir) para que tudo começasse a correr bem melhor. Os 10000 Russos ainda deram a continuidade devida, com um concerto que mostrou bem porque é que os elogios têm chovido de toda a parte. E até soube a pouco, visto que a actuação passou num instante.

O que se arrastou mesmo foram as propostas seguintes no palco principal, como Joel Gion, a fazer muitos suspirar pelo “real deal”, ou seja, The Brian Jonestown Massacre. A expectativa era injusta, mas a verdade é que tudo pareceu demasiado “limpinho” para se tornar verdadeiramente desafiador… O que nem sempre é bom, como provaram os regressados Sean Riley & The Slowriders. Não pondo em causa os créditos de Afonso Rodrigues & Cª, a memória de que vinte e quatro horas antes o americano Jon Spencer tinha estado a destruir aquele mesmo palco empalideceu consideravelmente a música já de si mortiça dos leirienses.

Felizmente o primeiro palco acabaria por sofrer uma grande mudança com a entrada de Amon Düül II, a instituição alemã de Krautrock. Se bandas como o colectivo de Berlim caem muitas vezes na tentação de criar canções quando antes havia música, a verdade é que nem esta tendência natural (e que não foi evitada) comprometeu o descomprometimento da banda. Sim, houve verdadeiros pregos, houve descoordenação entre as duas baterias e até momentos em que se andava à procura de um fio condutor. Mas houve também o melhor som de guitarra de todo o festival (vénia para o enorme Chris Karrer), a simpática Renate Knaup em destaque, e vertiginosas progressões só possíveis aos melhores. Se nos anos 70 já faziam o que queriam, porque é que agora seria diferente? Abençoados sejam por isso.

A partir daí tudo se tornou algo complicado e intermédio até que os Electric Moon completassem a invasão alemã. Naquele palco houve uma deslocação geográfica para norte. Talvez por também ser à beira rio. Ou talvez porque houve uma certa convergência demográfica este ano. Seja porque motivo for, The Horrors não eram coisa para estar ai. Talvez em 2009, mas nunca agora – porque aquele Post-Punk de pendor “modernaço” já se transformou numa fórmula gasta e insípida há vários anos. Ou porque já nem “Sea Within A Sea” salva uma actuação desastrada. A alternativa era ir ver Lâmina… Nunca mais começava Electric Moon.

Quando finalmente começou foi como se houvesse uma pausa no tempo. Uma jam em forma de ensaio, de um trio que se diverte mas que leva muito a sério a tarefa de explorar espaços que não existem noutro lugar que não nas paisagens sonoras pintadas de trip infinda. Foram três momentos com pequenas separações só para explicar timidamente quem eram. Ao que vinham, percebeu-se quando os riffs de Theory Of The Mind (que álbum, já agora…) explodiram na noite que, curiosamente, foi iluminada com uma lua cheia. Foi um momento feliz que poderia ter durado muito, muito mais. Sobretudo porque a necessidade de silêncio a seguir foi praticamente total.

No Reverence nem tudo é bom. Mas quase tudo é feito com cuidado e as apostas nunca são por acaso. Se houve momentos ao lado, também houve concertos perfeitos onde tudo se conjugou. É na lembrança desses momentos (tão raros) que habita a firma certeza do retorno em 2016.

Texto: Filipe Adão
Fotografia: Lais Pereira

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