Após uma primeira edição que primou pela ambição e ousadia, o Reverence Valada regressa com os mesmos predicados. A quantidade continua a impressionar mas há mais espaço para respirar na edição deste ano. Desde já, saúda-se este facto.

Quanto à qualidade, não há dúvida que é nalguns dos grandes nomes que a expectativa mais legitimamente reside. No entanto, há sempre espaço para algumas surpresas. Seja como for, são três dias que prometem uma invasão paradisíaco local à beira Tejo e não dar descanso a agrobetos, forcados e afins.

#01 Purple Heart Parade

A atacar o primeiro dia vão estar os britânicos Purple Heart Parade. A banda oriunda de Manchester ainda não tem muito para mostrar no que se refere a lançamentos de estúdio mas o que dá para vislumbrar é uma banda que tem potencial mais que suficiente para não se tornar só em mais uma banda das dezenas que invadem o espectro do Shoegaze e do Psych Rock. Se é um julgamento final ainda é impossível dizer mas para já prometem ser o principal ponto de interesse do dia 27.

#02 Grave Pleasures

Grave Pleasures é Beastmilk. Em teoria, pelo menos. Depois das saídas de Goatspeed e Paile já este ano, a banda mudou de designação e reforçou-se: para a bateria Uno Bruniusson (ex-In Solitude) e para a guitarra nada mais nada menos que Juho Vanhanen de Oranssi Pazuzu. O single “New Hip Moon” revela uma direcção ligeiramente face a “Climax“, com um claro piscar de olho à segunda vaga de Gothic Rock britânica e abandonando o pouco que ainda os prendia ao Deathrock mais primordial. Isto torna o som mais limpo, eventualmente mais rico em detrimento de uma crueza que marcava claramente o álbum de estreia. É aqui que a teoria se pode afastar da prática. O set deverá ser equilibrada entre o passado e o presente/futuro pelo que esta carta fora do baralho deverá ser aposta segura.

#03 Ufomammut

Quem for distraído para o concerto de Ufomammut até pode ter a sorte de ser presenteado com o lado mais groovy e psicadélico dos italianos. É um óptimo isco mas a montanha de riffs e o poder do trio não tardará em fazer-se sentir. Na bagagem vem “Ecate” que continua a tradição de castigo auditivo e de trance espacial. É uma banda que tem trilhado um caminho que procura uma certa unicidade num meio tão saturado e é sobretudo extremamente competente ao vivo. Não surpreenderá se for concerto um dos grandes momentos do festival.

#04 Bizarra Locomotiva

A melhor banda portuguesa ao vivo é uma escolha “arriscada” se por risco se entender a integração num cartaz em que mais nada é remotamente parecido. Por outro lado nenhuma banda do mundo é tão segura em matéria de protagonizar uma actuação memorável. “Mortuário” é um bicho gigante com várias cabeças e deverá dominar o alinhamento como é natural. Os clássicos também não faltarão no que se espera ser uma verdadeira lição Rock com doses “industriais” de ruído ferrugento.

#05 Alcest

Se Alcest tivesse acabado em 2010 a discografia que deixava era praticamente perfeita. A demo “Tristesse Hivernale” de 2001 é pouco polida e com ideias pouco exploradas mas já demonstra alguns rasgos curiosos. O EP ‘Le Secret’ é intocável. Era ali que a mistura de Black Metal e Shoegaze devia ter parado (quase no início, portanto). Nomeadamente antes de alguém se lembrar de misturar as palavras numa só…

É mais que provável, todavia, que em Valada só se ouçam os riffs sonhadores e as belas melodias de “Souvenirs D’Un Autre Monde“. Um álbum com um impacto considerável depois do hype que na altura foi gerado à volta de uma série de projectos que contavam com a presença de Neige. Puramente representativo do muito único estilo de Shoegaze a que o francês (na altura totalmente a solo) se dedicava.

Há dois splits pelo meio entre os dois álbuns mas sem grande dimensão. É em “Écailles De Lune” que os dois mundos convivem pela primeira vez de forma mais harmoniosa. E é por isso que ainda é um álbum com lugares de destaque numa banda que roçou a perfeição nos primeiros dez anos. Não serão muitos os que repetirão a presença dessa noite especial de 15 de Maio de 2010 em que Alcest passaram pelo Side B em Benavente, mas dificilmente o que poderão fazer em mais uma passagem por Portugal (e já foram várias depois disso) poderá chegar perto.

Especialmente porque há “Les Voyages De L’Âme” e “Shelter” de 2010 para cá. Perdeu-se qualquer coisa e não foram só os guturais tão característicos de Neige. Ainda assim, e como provam as passagens mais recentes pelo Hard Club, é quase impossível ser um concerto desapontante e certamente que mete no bolso todas as bandas no cartaz que um dia acharam que era fácil copiar My Bloody Valentine.

#06 Sleep

Com a montanha de coisas que era preciso dizer para definir a magnitude do que é o legado de Sleep mais vale optar pelo minimalismo: a estreia dos americanos em Portugal é imensamente tardia mas ainda vai a tempo de se transformar num dos concertos do ano.

São os clássicos de “Sleep’s Holy Mountain” e (as secções de) “Dopesmoker” que deverão invadir o ar com o cheiro a erva mas ainda há um incentivo extra: “The Clarity” rompeu um silêncio de décadas no que a novo material de estúdio diz respeito e até isso torna esta estreia num momento especial.

#07 The Altered Hours

No meio do destaque a nomes tão consagrados e até de uma das principais influências (The Brian Jonestown Massacre), os irlandeses são um nome a ter em atenção. Conhecidos pelas performances intensas e embebidas em psicadelismo não será de espantar que se tornem num nome bem menos “escondido” quando a contabilidade à segunda edição do festival for feita. Ainda sem álbum de estreia será o 7’’ “Dig Early” e o EP “Sweet Jelly Roll” que deverão servir de cartão-de-visita.

#08 Electric Moon

Desde 2009 que o mundo do Psychedelic/Acid Rock percebeu que nem tudo estava perdido. Os alemães são das melhores bandas das últimas duas décadas nas áreas mais psicadélicas do Rock. Há uma permanente vontade de quebrar barreiras e de reproduzir sonoramente paisagens mentais que geralmente só são visitadas em alucinação.

Chegam em plena força visto que “Theory Of The Mind” é mais uma trip incrível e que promete encaixar na perfeição no ambiente que o Reverence parece privilegiar.

#09 Samsara Blues Experiment

A invasão alemã continua tendo desta feita como armas de arremesso o Stoner/Doom dos berlinenses Samsara Blues Experiment. Desde 2010 a lançar trabalhos de grande qualidade e que, não sendo portentos de originalidade, mantém refrescante um género bastante massacrado nos últimos anos.

O cheiro de Rock & Roll que empesta os riffs mais pesados e a atitude com o mesmo ingrediente fazem antever problemas de pescoço a muita gente.

#10 Amon Düül II

Há semelhança do que aconteceu com Hawkwind o ano passado, os Amon Düül II são um regresso ao passado feito através de bandas cuja exploração criativa sempre teve décadas à frente de quase tudo o que se fazia.

Pioneiros do Krautrock nos anos 60 e donos de uma carreira com tanto de brilhante como multi-facetada, os alemães estão de volta com um alinhamento virado para momentos mais progressivos mas com uma enorme dose de caos e volume. Mais do que a lenda será uma banda que ainda se reinventa que promete fechar (ou quase) o festival com chave de ouro.

Também aproveitar para não ir à tenda nos seguintes momentos:

  • Fuzz
  • The Jon Spencer Blues Explosion
  • Los Waves
  • The Dead Mantra
  • Ancient River
  • Blown Out
  • Process Of Guilt
  • Black Rainbows
  • Stoned Jesus
  • 10000 Russos

Autor: Filipe Adão

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