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Vodafone Paredes de Coura @ Praia Fluvial do Taboão, 19 a 22/9/2015

O ano de 2015 revelou-se num novo marco na história do Vodafone Paredes de Coura que teve, pela primeira vez, os seus passes gerais esgotados ainda vários dias antes do começo do festival. O motivo, além dos grandes cabeças de cartaz reunidos nesta edição, estende-se também à crescente reputação do festival que confere uma experiência única a quem o vive.

Chegávamos ao campismo 2 dias antes do certame e já era óbvia a enchente que se fazia nas margens do rio Coura. Centenas de campistas movimentavam-se na sua azáfama de tarefas diárias, enquanto nós procurávamos um cantinho para montar as nossas tendas. Tínhamos fintado a chuvada do dia anterior, fenómeno que já é habitual para os veteranos no festival – não sabíamos ainda da molha que nos esperava à partida – e previa-se uma semana quente, pelo menos durante o dia, o cenário ideal para as tardes passadas junto às margens da praia fluvial do Taboão. A quantidade de pessoas que continuava a chegar todos os dias, mesmo já depois do festival ter começado, era completamente abismal, e às vezes ainda nos perguntávamos onde é que caberia mais gente.

Com ‘O festival sobe à vila’, as ruas da pacata vila de Paredes de Coura viram-se inundadas de visitantes, vindos de todas as partes, que se juntavam nos inúmeros cafés e bares e também junto ao palco que durante vários dias acolheu concertos de variados artistas que animaram as noites que antecederam o festival.

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19 de Agosto

O quinteto lisboeta Gala Drop abriu as hostes desta edição do Vodafone Paredes de Coura e, surpreendentemente, atraiu de imediato um grande punhado de gente neste anfiteatro natural junto ao Coura. Desde o rock psicadélico ao dub, não esquecendo umas pitadas de afrobeat, esta é uma mistura que vale a pena conferir e que proporcionou um agradável ambiente neste final de tarde solarengo.

Pouco depois, vimo-nos envolvidos por uma atmosfera onde Joy Division era o primeiro nome que nos vinha a cabeça, e com toda a razão, não fossem eles os responsáveis pelo tema (lançado já enquanto New Order) que deu nome a estes norte-americanos. Falamos claramente dos Ceremony, que com o sol a pôr-se no horizonte, descarregaram o seu post-punk rasgado que desencadeou tal alvoroço nas filas da frente que deu origem aos primeiros crowdurfings do festival.

Repetentes no habitat natural da música, foi com grande entusiasmo que os Blood Red Shoes se mostraram ao público português, com Steven Ansell a referir várias vezes a sua felicidade por estarem de volta, depois da sua última passagem em 2009. É notável a ascensão da dupla que, com uma vibrante presença em palco, cativava o público que se ia chegando às grades e contagiava-se com este rock rebelde britânico, protagonizado pela carismática Laura-Mary Carter. “I Wish I Was Someone Better”, “An Animal” e “Don’t Ask” foram alguns dos temas que entoaram pelo fulminante recinto.

Também oriundos da Inglaterra chegaram os Slowdive, que já em 2014 nos tinham presenteado com uma excelente actuação no Primavera Sound, e que nos surpreenderam mais uma vez pelo seu espectáculo extraordinário. A banda, considerada uma das maiores do shoegaze, de tarde pôde ser vista a passear junto ao rio e também a assistir discretamente aos concertos por entre o público. “Souvlaki” foi o álbum primordial da noite, de onde pudemos escutar “Machine Gun”, “When the Sun Hits” e “Alison”. Mestres do espectáculo, fomos transportados para outros mundos através das suas músicas celestiais, revivendo a dream pop nas margens do Coura. A finalizar, a cover de Sid Barrett “Golden Hair” ditou a despedida e deixou no ar uma verdadeira atmosfera bucólica.

A encabeçar este primeiro dia do festival, directamente dos Estados Unidos, tivemos os TV On The Radio com o seu avant-garde espontâneo e, ainda fresco, “Seeds”, álbum lançado nos finais do ano passado. Depois da morte de Gerard Smith em 2011, baixista da banda, “Seeds” veio marcar um novo ponto de viragem para o grupo, uma sonoridade mais madura e intensa. “Happy Idiot” a começar a noite e a marcar destaque na setlist, chegou-nos com uma nova sonoridade, um novo compasso. A trama repetiu-se nos restantes temas, com Tunde Adebimpe a dar uma nova cadência às músicas, mais dançáveis, o que acabou por resultar extremamente bem. Sem deixar de parte clássicos como “Wolf Like Me”, o público ia respondendo em pleno êxtase, com pessoas a voar, literalmente, por cima das grades, situação essa à qual a banda advertiu para que ninguém se magoasse.

As noites no palco Vodafone podiam acabar relativamente cedo, mas o after hours era sempre feito noite dentro no palco Vodafone FM. DJ FRA ficou encarregue do frete nesta primeira noite.

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20 de Agosto

O segundo dia do Vodafone Paredes de Coura contava com a esperada actuação de Tame Impala, responsáveis pela grande enchente que mais tarde iria inundar o recinto. Mas, antes da actuação dos australianos, o dia iria ser passado junto ao rio, a desfrutar o maravilhoso calor que se fazia sentir nesta bela tarde de Agosto. O palco Jazz na Relva, junto às margens do Coura, era inaugurado por uma sessão de poesia – uma das novidades deste ano – resultado de uma parceria com a editora Tinta da China, e que nos trouxe sessões diárias de poesia depois da hora de almoço. Macadame e Núria Graham compuseram a banda sonora da tarde para quem aproveitou para uns banhos na água gelada do Coura, e também para os menos corajosos que se ficaram pelas toalhas.

As espanholas Hinds, conhecidas inicialmente por Deers, trouxeram a sua boa disposição para o Palco Vodafone FM às 18h00. Meia hora depois, começavam no Palco Vodafone os bracarenses peixe:avião, com o mais recente single, “Quebra”, a ecoar pelo recinto.

Às 19h00 podia ver-se a tenda, a que cobria o palco Vodafone FM, quase a rebentar pelas costuras. O motivo eram os australianos Pond que, tendo como integrantes alguns membros de Tame Impala, demoveram centenas de fãs para o pequeno espaço. As músicas, contagiantes, como é o caso de “Giant Tortoise” e “Elvis’ Flaming Star”, puxavam para a dança mas o feito era quase impossível devido à concentração de pessoas – não tinha sido exagero nenhum pôr estes meninos no grande anfiteatro. Foi então, num crescendo psicadélico, que a agitação se foi instaurando num dos concertos mais memoráveis desta edição do festival, opinião partilhada por muitos festivaleiros no decorrer dos restantes dias.

Depois da poeira assentar, já Steve Gunn pegava na sua guitarra pela segunda vez neste dia – a primeira tinha sido no âmbito das Vodafone Music Sessions – e apresentava-se agora acompanhado pela sua banda. Mostrou-se humilde e simpático, como já o conhecíamos das suas passagens por duas edições do Out.Fest no Barreiro, trazendo-nos a sua tão carismática folk norte-americana, contagiando quem desfrutava do pôr-do-sol emoldurado pelas belas paisagens naturais do recinto.

Seguindo a onda folk, já do outro lado do recinto, foi a vez de White Fence apresentarem o seu disco “For the Recently Found Innocent”, de 2014, que entreteve os ouvintes mas pouco levantou os ânimos. Quem se responsabilizou por tal árdua tarefa foi Joshua Tillman, mais conhecido como Father John Misty, e que a cumpriu quase sem esforço algum. Este homem sabe exactamente como cativar uma plateia sem grandes cerimónias. Passeava-se pelo palco enquanto entoava as conhecidas “I Love You, Honeybear”, “Strange Encounter”, ou a balada “Bored in the USA”, que, como referido por Tillman, já todos devemos ter ouvido na rádio, e à qual o público correspondeu elevando uma data de isqueiros no ar, transformando a mancha negra numa bonita mancha cintilante. A despedida fez-se ao ritmo de “This is Sally Hatchet”, mas não sem antes deste verdadeiro showman se dirigir ao fãs e, com a bandeira portuguesa ao ombro, serviu-se de um telemóvel de alguém da plateia para se filmar a ele próprio, imortalizando sem dúvida aquele momento.

De volta ao Paredes de Coura estiveram também os Iceage que, depois da passagem em 2013, voltaram para mais uma descarga efusiva de punk rock, apresentando “Plowing Into the Field of Love”, o seu novo disco, e dando asas a uma grande onda de crowdsurfing pelas filas da frente. A caminhar para a recta final da noite, fomos em direcção à lenda, essa que se dá pelo nome de Legendary Tigerman. Senhor do rock, mostrou-se arrojado como sempre no seu blues fervoroso, e brindou-nos com um dos concertos mais animados e de puro rock n’roll da noite. “Wild Beast”, “These Boots Are Made for Walkin’” e “Dance Craze” são apenas alguns dos exemplos, sendo o ponto alto já na despedida, com “Twenty-First Century Rock n’Roll” a causar um frenesim e a deixar “rock n’ roll” a ser gritado em uníssono por todos, em especial por um delirante fã na plateia que se havia apoderado do microfone de Paulo Furtado, deixando-nos um mote que haveria de ser entoado várias vezes ao longo do resto dos dias.

Depois da loucura que foi com o homem-tigre, o momento auge da noite chegava por fim e já começava a ser difícil circular pelo recinto sem atropelar ninguém. O público ia-se adensando cada vez mais perto do palco e podia-se ver a azáfama evidente e o entusiasmo para ver a banda de Kevin Parker. Os Tame Impala entraram por fim ao som de uma curta intro, seguindo-se a inabalável “Let it Happen” que trocando as guitarras por sintetizadores, mostrava ao público esta nova faceta dos australianos, que se revelaram também muito mais presentes em palco que no último concerto dado em Portugal. O habitual cenário psicadélico ao qual nos habituaram acompanhava a setlist que, além dos novos temas de “Currents”, se intercalava também com os aclamados “Lonerism” e “Innerspeaker”, que tiveram os seus momentos fortes nas músicas “Elephant” e “Feels Like We Only Go Backwards”, cantadas bem alto por um público em êxtase e, também, “Alter Ego”. Depois de uma despedida pouco convincente, a banda voltou para um encore com “Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything We Could Control”, e assim se despediu de vez do habitat natural da música, neste que foi o seu primeiro concerto desta digressão.

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21 de Agosto

Mais uma tarde Verão pelo rio, o calor convidava aos mergulhos, apesar das baixas temperaturas da água do rio Coura. Ao som de Penicos de Prata pudemos soltar umas quantas gargalhadas com a sua “poesia erótica e satírica” e mais tarde com Peixe o público vibrou e cantou bem alto “Chaga”, de Ornatos Violeta.

Nicole Eitner and the Citizens fizeram as honras do dia abrindo o palco Vodafone FM, seguidos dos nossos vizinhos espanhóis, o Grupo de Expertos de Solynieve. Entretanto, já no palco principal, tocavam os portugueses X-Wife que, depois de um hiatus de três anos, voltaram à estrada com um novo single, “Movin Up”, que já conquistou as rádios. Enquanto o restante álbum não sai, vamos dançando com “Keep on Dancing”.

Das praias da Califórnia vieram os Allah-Las, que trouxeram toda uma onda rock com espírito surfista, onde se podia sentir a brisa do mar, ao som de “Catamaran”. Quase que podia ser quase um prolongamento da noite anterior, com o psicadelismo a tomar o palco mais uma vez, nesta que foi uma excelente prestação deste quarteto californiano.

Waxahatchee tomou posse do palco secundário às 20h30, num ambiente bastante acolhedor e que reuniu uma boa dose de gente. Katie Crutchfield, criadora deste projecto, mostrou-se bastante simpática e comunicativa com o público, apresentando a estes o novo registo intitulado “Ivy Tripp”, fazendo-se acompanhar pela sua banda.

Deixando para traz o seu legado em Screaming Trees, Mark Lanegan apresenta-se agora em nome próprio, acompanhado pela sua banda e com a sua incontestável e única voz rouca e soturna. Depois de ter estado por cá em Março deste ano, Lanegan apresenta-se novamente em público com a sua postura firme e autoritária, num concerto algo tenso e sombrio, facto que caracteriza o novo trabalho “Phantom Radio”. Apesar disso, conseguiu captar a nossa atenção e os nossos olhos estiveram sempre em palco, com o destaque a ir para a cover de Joy Division, “Atmosphere”, e o remate já na recta final com “The Gravedigger’s Song”.

Terminado o concerto era tempo de caminhar em direcção a Merchandise no outro palco. Sempre num ritmo alucinante com o post-punk a rasgar a toda a velocidade, este regresso a Portugal, depois da presença no Primavera Sound em 2013, resultou num belo aperitivo para o concerto que se seguia.

Apesar do grande nome para fechar o terceiro dia serem os americanos The War on Drugs, o senhor da noite foi, sem a menor dúvida, Charles Bradley. Dotado de uma energia inesgotável, o mestre norte-americano serviu-nos um prato cheio com uma boa dose de humor e funk, e uma pitada de alegria que nos encheu sem dúvida a alma. É gratificante ver alguém com esta idade – quase 70 – com tanto amor para transmitir ao público. “How Long” foi cantando com grande emoção por Bradley, e com “Confusion” e “You Put the Flame On It” dançamos juntamente com ele, ao som do melhor da soul music. A primeira fila recebeu ainda alguns abraços, ditando a despedida do rei Charles.

Trocando agora o soul pelo indie, The War on Drugs chegaram a Paredes de Coura com o tão aclamado “Lost in The Dream” bem fresquinho na bagagem, pronto a ser tocado para os milhares de fãs que se adensavam agora no recinto. No ar pairava uma etérea harmonia mas, ainda assim, a magia de músicas como “Red Eyes” ou “Under The Pressure” dispersou-se pelo anfiteatro natural, não chegando a ter o impacto que muitos esperavam depois de ouvir o disco. É sem dúvida um concerto que vale a pena repetir, mas em sala fechada.

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22 de Agosto

A chuva quis dar o ar de sua graça e resolveu fazer das suas no último dia do festival. Ainda assim, esta não foi impedimento para uma grande maioria que se lançou rumo ao rio para aproveitar a programação do Palco Jazz e quiçá dar os últimos mergulhos.

A chuva, essa, parou pouco antes do concerto dos portugueses Holy Nothing, que vieram mostrar que nem a chuva demove a vontade de dançar dos festivaleiros. Entretanto, fora do recinto, a fila estendia-se por longos metros, não era a ânsia de entrar e aproveitar as últimas horas do festival. No palco principal já actuava a Banda do Mar, que ia encantando o público com a voz doce de Mallu Magalhães e onde “Mais Ninguém” era cantada por todo o recinto.

A doce Natalie Prass surpreendeu com um efusivo concerto, onde deixou de lado a sua aparência de menina e mostrou-se uma mulher com uma enorme garra em palco. Os hits “Bird of Prey” e “My Baby Don’t Understand Me” foram sem dúvida os pontos altos.

Com já uma vasta discografia, os americanos Woods começam agora a sair da sombra das árvores para mostrarem ao mundo o seu potencial. Com um folk rock bastante acolhedor, o público assistia, maioritariamente sentado, a este concerto no final de tarde que continuava ainda, felizmente, sem sinais de chuva. A dupla norte-americana Sylvan Esso também deu cartas no palco Vodafone FM. O ambiente electrónico fulminante foi animando os festivaleiros que aguardavam outro dos grandes nomes do psicadelismo.

Falamos dos ingleses Temples que, mesmo neste curto espaço de tempo, já conseguiram conquistar o público português. Com as suas vestimentas invulgares, damos por nós a perguntarmo-nos se estes rapazes saíram de alguma máquina do tempo. Com “Shelter Song” guardada para o fim, fizeram chover pessoas por cima das grades e subir o ambiente e a animação logo a passos largos com “The Golden Throne” a ouvir-se entoado pelo recinto. E depois de revivermos um pouco das décadas de 60 e 70, e de termos um cheirinho do que aí vem no futuro álbum com “Henry’s Cake”, teletransportamo-nos o mais rápido que podemos para o palco secundário, tarefa difícil pela afluência de pessoas que já ocupava o pequeno espaço, no desvairado sôfrego de assistir a Fuzz. E não seria para menos, com o mítico Ty Segall na bateria, o rock n’ roll de alta-voltagem contagiou, e bem, o enorme rebanho que se atropelava para tentar chegar junto do palco. Um alvoroço extraordinário a relembrar o garage rock dos anos 70.

Num cenário bastante impetuoso, Lykke Li entrava em palco vestida de negro e trazia consigo a chuva da Suécia que, felizmente, apenas durou breves momentos. A troca de palavras em português com o público foi constante – visto que a cantora viveu durante alguns anos em Portugal quando era mais nova – e, mesmo não sendo um português perfeito, entendia-se claramente, o que garantiu uma maior proximidade entre ambos, neste que foi apenas o segundo espectáculo que a jovem sueca deu este ano. O cenário negro destacava a sua silhueta por entre as luzes, enquanto dançava ao som de “No Rest for the Wicked” e “I Follow Rivers”, dois dos temas mais conhecidos do público. Ouvimos também uma cover de Drake, “Hold On, We’re Going Home”. Ao som de outra cover, desta vez dos Beatles, foi “Don’t Let Me Down” em formato de tape que nos despediu do concerto, deixando a audiência na expectativa de um eventual regresso ao palco, que acabou por não acontecer.

De Brooklyn, o duo Ratatat veio colmatar o dia com a sua fusão de electrónica e riffs de guitarra, com “Loud Pipes” e “Cream on Chrome” a causar o delírio à nossa volta, acompanhadas de projecções atípicas e psicadélicas. Para os resistentes as after-hours ainda se fizeram no palco Vodafone FM ao som de The Soft Moon e Sascha Funke.

O Vodafone Paredes de Coura volta novamente para o ano, de 17 a 20 de Agosto, e promete mais uma boa dose de música, sol e animação!

Fotografia e texto: Rute Pascoal

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