Novo ano e «A Música deu à Costa», mais uma vez, bem perto do areal da Caparica. Os dias 13, 14, 15 e 16 (este último para os mais pequenos) foram repletos de música. Música exclusivamente portuguesa, ou não fosse esse um dos conceitos principais do festival. Por entre as pranchas de surf, os skates, o cheiro a mar e o real Sol da Caparica, podemos afirmar que os «óculos escuros da Ray-Ban» foram uma constante e que «a cerveja na mesa para refrescar» também não pôde faltar. E assim se fez um fim-de-semana de música e boa onda.

14 de Agosto

Passava pouco das 21 horas quando os Paus subiram ao palco BLITZ. Um grupo energético composto por alguns elementos ligados a outros projectos musicais, como The Vicious Five ou Linda Martini. Talvez seja essa experiência que os faça destacar como animais de palco. Deram início ao concerto com “Corta Vazas” do álbum “Clarão“, um início que prometia e desde logo captou a atenção do público em redor. Um concerto recheado de ritmos hipnotizantes e frenéticos, um caos harmonioso arriscaria dizer. Um dos bateristas, Hélio Morais, anuncia a música “Clarão” com um apelativo trocadilho com Carlão, presença do palco SIC|RFM na noite anterior, apelando à conexão com os “margem-sulenses” e soltando algumas gargalhas na audiência.

Chegados a “Muito Mais Gente” foi a altura do público se soltar por completo. A título de curiosidade é-nos dito que é este o primeiro concerto do grupo na Costa da Caparica, no entanto o primeiro vídeo da banda foi gravado no já extinto Onda Parque. A última música, “Pelo Pulso” levou ao êxtase geral da audiência, terminando assim um concerto cheio de energia.

 

De seguida subiram ao palco os Linda Martini, com Hélio Morais novamente a preencher o lugar da bateria sem grande tempo para descansos. Ao ouvirem-se os primeiros acordes de “Dá-me a tua melhor faca” da estreia “Olhos de Mongol” a afluência do público começou a aumentar consideravelmente. Um seguimento electrizante com “Panteão” foi deixando o público cada vez mais irrequieto. É de notar as oscilações sonoras presentes em algumas das músicas que levam a que o público fique a ansiar pelo pico sonoro de modo a libertar toda a energia acumulada. Apesar do som do palco SIC|RFM se fazer notar isso não os atrapalhou e continuaram irrepreensíveis, iguais a si mesmos.

“Amor Combate” teve direito a uma dedicatória especial dirigida a Makoto por ter substituído Cláudia durante os seus meses de gravidez e o nosso amor por eles não morreu continuando a borbulhar com um desassossego tremendo com “Ratos”. Houve ainda tempo para mais agradecimentos, desta vez ao «pessoal da Cova do Vapor» a “Volta”, o segundo single do último álbum, e penúltima música tocada. Terminaram com “Cem Metros Sereia” ficando bem perto de nós aquecendo o ambiente que se fazia sentir frio com a brisa do mar. O público terminou a cantar em uníssono com o grupo enquanto saltava e dançava.

 

Pelas 23 horas subiu ao palco SIC|RFM  a grande lenda que é Jorge Palma, dispensando apresentações. “A Chuva Caiu” atraiu o público que vinha do palco BLITZ. É notório o registo familiar latente ao festival durante esta actuação. “Cara de Anjo Mau” deixou antever a sucessão de escolhas bastante conhecidas do público com o trio apresentado  posteriormente constituído por “Dá-me Lume”, “Deixa-me Rir” e “Frágil” para contentamento geral, e não fosse a prova disso o coro que se fez ouvir por todo o recinto. Jorge Palma troca a guitarra acústica pelo piano ao iniciar “Jeremias, o Fora da Lei”. Seguiu-se uma das músicas mais cantadas do concerto, “Encosta-te a Mim”. E nós deixamo-nos encostar e fomos levados por “Portugal, Portugal” com a promessa de que “A Gente Vai Continuar”. Encerrando o concerto com “Picado Pelas Abelhas”.

 

15 de Agosto

O grande vencedor da primeira edição do programa Factor X, Berg, subiu ao palco BLITZ para um concerto cheio de «boa onda» ou não estivéssemos nós na Caparica. Deu início a um concerto essencialmente de originais com “Somebody Hear Me”, seguido de “Tell Me”. A ligação com o público foi excelente levando o artista a levar imensas recordações para casa no seu telemóvel, desde vídeos a fotos, durante todo o concerto. Confidenciou que era a primeira vez que tinha um concerto apenas com temas originais, no entanto o “bichinho” continua lá e não resistiu a jogar-se a uma versão de “Sex On Fire”, de King Of Leon, performance que já tinha feito no Factor X, recorde-se. É de destacar a variedade de estilos musicais presentes nas suas músicas, desde blues a reggae, e igualmente seguro afirmar que pôde agradar a gregos e a troianos, ou “margem-sulenses” e lisboetas, aquilo que parecer melhor tendo em conta as margens. Teve ainda um convidado especial, Sensi, trazendo a sonoridade do hip hop para o tema “Make Love To”.

 

Também no palco BLITZ, Tiago Bettencourt começou com um aquecimento lento com o tema “Aproxima-te” que levou a que o público se fosse juntando em volta do recinto, o que pareceu trazer algum ânimo que se esperava com a música seguinte, “Os Dois”, do álbum “O Jardim“. Sentiu-se apenas um pouco a falta de interacção para com os presentes, no entanto isso não levou ao seu afastamento para com o cantor, pelo contrário – o entusiasmo foi aumento com a sucessão de temas. O verdadeiro apogeu surgiu na recta final, o trio final de temas; “Canção do Engate”, “Só Mais Uma Volta” e “Morena”, levou o público a inquietar-se e soltar versos em comunhão com o cantor. Tiago Bettencourt voltou a comprovar que é capaz de dar cartas a solo.

 

Os Xutos & Pontapés dispensam claramente ser apresentados, sendo um claro mito do rock português. A junção de idades presentes no palco SIC|RFM permitium, uma vez mais, validar o clima familiar representado pelo festival. Foi uma noite para revisitar os hinos que tão bem conhecemos de Xutos mas também de nos ambientarem com faixas do mais recente “Puro“, tais como, “Salve-se Quem Puder”, “Ligações Directas”, “Tu Também” e “De Madrugada (Tu & Eu)”, sendo que esta última foi aquela com que o público mais se conectou. Não faltou, claro, o «grito de guerra» protagonizado por Kalu, inicialmente na frente do palco e por fim atrás da sua bateria, onde em uníssono todo o recinto gritou «Aiiii a p*ta da minha vida!». Já nem faz sentido se assim não for.

Um concerto repleto de histórias e memórias por cada tema que ia surgindo, ou não fossem os Xutos uma das maiores instituições de rock português. Músicas como “Contentores”, “Não Sou o Único”, “Chuva Dissolvente”, “À Minha Maneira” e “Ai Se Ele Cai” levaram o público a entoar cada verso a pulmões cheios. Se houve novidade? Na verdade não podemos dizer que isso tenha acontecido, mas o facto é que isso já não faz a diferença, Xutos são Xutos e isso chega-nos para “curtirmos” um óptimo concerto e percorrer cada tema com os versos na ponta da língua e a cabeça a abanar, como mandam os cânones do rock há várias décadas.

 

Fotografia: Tomás Lisboa
Texto: Filipa Martins

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