Currents” é o resultado de uma produção de 3 anos, período onde os Tame Impala se assumiram como cabeças de cartaz da psychedelia actual. Em contraste, os recentes singles mostraram o(s) australiano(s) confortável com a maquinaria da música electrónica.  Este hiato provocou o burburinho de alguns fãs, desconfiados com a mudança repentina do som da banda. Contudo, esta necessidade de comparação impediu o vislumbre dos novos ilhéus a que nos levam as ditas correntes. Esquecendo o despotismo dos rebentos de “Lonerism“, “Currents” ganha logo melhores cores.

Ao longo do prolongado refúgio que originou o álbum, Kevin Parker (a cabeça do projecto) esquematizou a base teórica onde este assenta firmemente, enchida pela confusão, receio e dependência que advêm de relações mal-resolvidas. Ela ascende da base para o núcleo, quando nos apercebemos que todo o registo é um reflexo sonoro desta teorização – há uma insegurança a flutuar em “Currents“, nos seus overdubs de sintetizadores, no seu falsete hesitante. “Let it Happen”, o single que abre o álbum e provavelmente o seu maior trunfo, condensa esta sensação – catchy mas denso, pode não ser imediato devido à sua sonoridade carregada, mas quando nos é absorvido, somos também absorvidos no seu tom alarmante.

A ânsia de prolongação está menos presente do que em “Lonerism“, em prol de estruturas pop e EDM. Não obstante, continua a ser perceptível que esta é uma obra dos Tame Impala: a textura (sonora) tem o mesmo peso que a dos álbuns anteriores, mas com uma diferente consistência. Ao lado de canções bem conseguidas – diga-se uma “Eventually”, a carga sonhadora de “Love/Paranoia” ou o funk de “The Less I Know the Better”o interlúdio “Disciples” (parece ser essa a sua função) passa-nos para o momento fraco do registo: “Cause I’m a Man” e “Reality In Motion”, que não se esforçam por impressionar. De facto, “Currents“, estando duramente agarrado ao seu tema, não se esforça, em particular, por impressionar como um todo.

Com o final de “New Person, Same Old Mistakes”, estamos longe do pop psicadélico bem afinado que consagrou o projecto de Kevin Parker. Contudo, da mesma forma que uns Arctic Monkeys limparam as pegadas dos seus primeiros álbuns para tocar beats impugnáveis com uma postura marota, esta impala tem total liberdade para mudar drasticamente de trajecto musical, se assim entender. Só assim faz sentido continuarmos a ouvir, criticar e saborear música. “Currents” é diferente de “Lonerism“? Sem dúvida. Para melhor ou para pior? Venham os gostos e discutam.

Autor: Gonçalo Tavares

"Currents" é o resultado de uma produção de 3 anos, período onde os Tame Impala se assumiram como cabeças de cartaz da psychedelia actual. Em contraste, os recentes singles mostraram o(s) australiano(s) confortável com a maquinaria da música electrónica.  Este hiato provocou o burburinho de alguns fãs, desconfiados com a mudança repentina do som da banda. Contudo, esta necessidade de comparação impediu o vislumbre dos novos ilhéus a que nos levam as ditas correntes. Esquecendo o despotismo dos rebentos de "Lonerism", "Currents" ganha logo melhores cores. Ao longo do prolongado refúgio que originou o álbum, Kevin Parker (a cabeça do…
Da mesma forma que uns Arctic Monkeys limparam as pegadas dos seus primeiros álbuns para tocar beats impugnáveis com uma postura marota, esta impala tem total liberdade para mudar drasticamente de trajecto musical, se assim entender.

Álbum. Universal, Fiction Records. 17 Julho 2015

Classificação

7.5

Da mesma forma que uns Arctic Monkeys limparam as pegadas dos seus primeiros álbuns para tocar beats impugnáveis com uma postura marota, esta impala tem total liberdade para mudar drasticamente de trajecto musical, se assim entender.

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