O fenómeno Chelsea Wolfe continua a surpreender pela forma repentina como surgiu catapultado online em 2011, após o lançamento de Ἀποκάλυψις. Passados já quatro anos e com o sublime Pain Is Beauty pelo meio, a senhorita Wolfe abraça efectivamente em Abyss os elementos electrónicos e percussivos que em 2013 vieram fundir-se de forma perfeita com o seu folk carregado de misticismo, revivalismo gótico e de um fascínio assumido pelo oculto.

Há muito que Chelsea Wolfe deixou de soar a um projecto de quarto de dormir de uma rapariga só. Em Abyss e para além da sua banda e colaboradores usuais podemos ver creditados os nomes de Mike Sullivan dos Russian Circles e de D. H. Phillips (em “Iron Moon”, por exemplo, é notável o quanto de True Widow é colocado em cima da mesa).

A faixa de abertura de Abyss, “Carrion Flowers” – musica que havia aliás já sido adiantada como single de lançamento há algumas semanas – exibe por ventura o lado mais denso e maquinal de toda a discografia de Wolfe, abrindo o disco com uma avalanche sujíssima de sintetizadores, guitarras distorcidas e percussão de dimensões industriais, seguindo por autênticos vales de ruído e rajadas ainda mais intensas de batuques. Esta mesma fórmula vai surgindo revivida em faixas como “Dragged Out” e especialmente “Color of Blood”, catapultando desde logo Abyss para todo um estatuto de peso que a música de Chelsea Wolfe nunca conheceu; um que no entanto não lhe parece assentar tão bem assim. “Color of Blood” em particular estende-se por praticamente cinco minutos  e acusa, à semelhança de “Carrion Flowers”, alguma falta de dinâmicas e de nuances inerentes à sua estrutura, mostrando-se como pouco cativante em alguns momentos.

Se por vezes vemos a música de Wolfe bater aqui num exagero de vermelho por tempo demais, é precisamente nas faixas com espaço a maior variação que esta se parece sentir verdadeiramente à vontade e mostrar o seu carácter mais especial. “Iron Moon” arranca com uma valente montanha de guitarras que poderiam atribuir facilmente a uns Windhand, e que cai de forma tão violenta como surge para dar espaço a uma das entregas vocais mais serenas e contrastantes de Wolfe. A pegada das guitarras paquidérmicas ressurge de pronto e não tardamos a entrar num dos refrões mais intensos e cativantes em todo o álbum.

Em entrevista recente a Jeff Weiss da LA Weekly, Wolfe referiu que tem vindo a sofrer há largos anos com pesadelos crónicos, visões de figuras dantescas no seu quarto em plena madrugada e de uma qualquer forma de paralisia do sono. Abyss gira precisamente ao redor da fixação e da confrontação da artista com esses seus próprios fantasmas. Olhemos por exemplo para “Simple Death”, uma das músicas mais despidas e interessantes em todo o disco – faixa que no seu início chega a enganar-nos por instantes com a possibilidade de podermos estar, não a ouvir a voz de Chelsea Wolfe, mas sim a de Alice Goldfrapp. Marcada a um ritmo lento e hipnotizante e preenchida na sua totalidade por um coro delicado de sintetizadores, é aqui que Chelsea nos surge a falar de forma mais aberta, como se nos arrastasse para o interior da sua psique sonhadora e nos atasse a ela até que desperte. «Lost and alone in confusion / I’m screaming but I can’t wake up» – diz-nos num tom que mostra tanto de desespero e impotência como de aceitação e de conformidade  perante os factos. «I can’t wake up» – repete-nos bem mais alto em “After The Fall”, uma balada de quase seis minutos que progride lentamente de um coro de ecos fantasmagórico  e de uma espinha dorsal de piano e bumbo arrastado para uma linha de sintetizador digna duma qualquer banda sonora do Cliff Martinez, para ir então terminar num muro distorcido e encorpado em graves.

A chave para o sucesso de Pain Is Beauty residia nas suas estruturas pop, na sua fragilidade e sensualidade quase burlesca, na acessibilidade mas nunca simplismo da entrega vocal de Chelsea Wolfe, mas sobretudo no equilíbrio e balanço ideal que o maturado carácter melódico da sua música atingiu com o lado mais texturizado e menos permeável da mesma. É nestes aspectos que Abyss falha inevitavelmente. Existem aqui momentos de beleza incontornável e de intensidade assinalável, sem dúvida, mas que pecam por surgirem a espaços e de forma algo irregular, acabando Abyss por no seu todo não se revelar nem de perto tão coeso como álbum quanto o seu antecessor. A música da californiana mostra-se agora caída num ocasional exagero de impenetrabilidade, como se algo perdida por entre o turbilhão de tambores e a parede de sintetizadores e guitarras que lhe dá corpo, exibindo uma dificuldade aparente para nos chegar e tocar aqui deste lado do vórtice.

Texto: Rui P. Andrade

O fenómeno Chelsea Wolfe continua a surpreender pela forma repentina como surgiu catapultado online em 2011, após o lançamento de Ἀποκάλυψις. Passados já quatro anos e com o sublime Pain Is Beauty pelo meio, a senhorita Wolfe abraça efectivamente em Abyss os elementos electrónicos e percussivos que em 2013 vieram fundir-se de forma perfeita com o seu folk carregado de misticismo, revivalismo gótico e de um fascínio assumido pelo oculto. Há muito que Chelsea Wolfe deixou de soar a um projecto de quarto de dormir de uma rapariga só. Em Abyss e para além da sua banda e colaboradores usuais…
Existem aqui momentos de beleza incontornável e de intensidade assinalável, sem dúvida, mas que pecam por surgirem a espaços e de forma algo irregular, acabando Abyss por no seu todo não se revelar nem de perto tão coeso como álbum quanto o seu antecessor.

Álbum. Sargent House. 7 Agosto 2015

Classificação

6.6

Existem aqui momentos de beleza incontornável e de intensidade assinalável, sem dúvida, mas que pecam por surgirem a espaços e de forma algo irregular, acabando Abyss por no seu todo não se revelar nem de perto tão coeso como álbum quanto o seu antecessor.

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