No rescaldo do NOS Primavera Sound, nada melhor do que recordar a quarta edição do certame do Parque da Cidade do Porto. O festival irmão do grande certame de Barcelona parece mesmo ter vindo para ficar na Invicta e para marcar o início da temporada dos festivais de Verão. Não só 2015 foi a edição de maior afluência, com 77 mil espectadores de 40 nacionalidades diferentes a comparecer, como já há datas para Junho de 2016.

O festival urbano não só já acolheu momentos únicos e irrepetíveis ao longo destes anos, como, por norma, abre as portas do solo português a bandas e artistas que habitualmente cá não param. Além disto, tem também a diversidade como palavra de ordem, sendo muitos os roteiros que podem ser feitos pelos melómanos.

E este ano não foi excepção. Entre os históricos Patti Smith, Einstürzende Neubauten, The Replacements, Ride e Underworld, as revelações FKA twigs, Yasmine Hamdan e Run the Jewels, ou ainda os aclamados Interpol, Belle & Sebastian e Death Cab for Cutie, confirmam-se, sobretudo, duas tendências neste festival: o regresso aos 90s e um triunfo da música de dança. É também um festival quase dos 8 ou 80. Avistámos famílias com crianças, grupos de jovens e até muitos adultos. Mas o mais surpreendente é que o entusiasmo que carregam não varia. Foi Primavera no Porto durante três dias e contamos aqui como foi.

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Dia 1

Ao primeiro dia de festival, o ímpeto é sempre o de chegar o mais cedo possível ao recinto. Contudo,  ainda a adaptar-nos ao esquema de metro/autocarro que nos levaria até ao recinto e com uma demora maior do que o vulgar à entrada, na revista de segurança, entrámos no parque da cidade numa altura em que os Cinerama já se faziam ouvir no Palco NOS e em que as filas para as coroas de flores se adensavam de forma extraordinária.

Rumamos então ao Palco Super Bock, para o concerto seguinte. Como já é habitual, o primeiro dia faz-se, de forma alternada, entre os dois palcos principais, apenas excepção para um concerto de Patti Smith, que esteve em dose dupla no festival, na tenda Pitchfork. Contornando as toalhas  de quadrados amarelos estendidas pelo relvado, vamos contemplando o cenário, à medida que nos aproximamos do palco.

Membro de uma mão cheia de bandas e braço direito de Ty Segall, Mikal Cronin tem-se vindo a afirmar como uma máquina de fazer singles desde o início da década, com a estreia nos álbuns a solo. Contudo, ainda a aquecer a tarde do Primavera, numa altura em que o sol andava escondido e as pessoas dispersas em busca de brindes ou bebida, o norte-americano escolheu jogar pelo seguro e, mesmo tendo lançado recentemente “MCIII”, tentou antes cativar o público com o seu já consumado antecessor. Ainda que ouvíssemos “Turn Around” e “Made My Mind Up”, foram temas como “Am I Wrong”,  “See It My Way”, “Shout it Out” e “Change”, esta última que ficou mais para o fim, que entusiasmaram o público ainda de óculos de sol na cara e copo na mão, num concerto que foi o primeiro de muitos a invocar os 90s, no Parque da Cidade, mas que fica na memória como morno.

Ainda se ouviam os últimos acordes de Mikal Cronin, mas já o Palco NOS tinha, diante de si, uma pequena multidão ansiosa pela chegada que Mac DeMarco, que minutos antes havia feito uma aparição no palco do lado para cantar os parabéns ao tour manager.  No espaço de um ano, esta foi a terceira vez que o canadiano visitou o nosso país – no Vodafone Paredes de Coura 2014, de surpresa, no aniversário do Musicbox, em Lisboa, e agora, no NOS Primavera Sound 2015 – ainda assim o entusiasmo do público parece manter-se. Jardineiras, boné, cigarros e guitarra em punho, DeMarco, sobe ao palco saudado entre vários gritos de entusiasmo e desde logo agarra “Salad Days”, “The Stars Keep on Calling my Name” e “Blue Boy”. Sempre muito divertido e descontraído, no Palco NOS do Primavera Sound, o canadiano superou algum do desleixo que vimos em Paredes de Coura, deixando as brincadeiras para o entre músicas e sendo mais sério na performance. Ainda assim, ao ver as brincadeiras entre Mac, Andy e os restantes membros da banda, temos quase o vislumbre de um ensaio, com mais um brinde ao aniversário do amigo, abrindo uma garrafa de champanhe, jams para entreter durante uma troca de cordas da guitarra. Uma fórmula muito assente na simplicidade e boa disposição mas que resulta, e pode-se ver pelos sorrisos esboçados na cara dos que nos rodeiam. As surpresas do alinhamento foram duas faixas de “Rock and Roll Night Club”, a canção com o mesmo nome e “I’m a Man”, mas não faltaram “Ode to Viceroy”, “Brother”, “Annie” e os acordes contagiantes de “Freaking Out The Neighborhood”. Para o final ficaram “Chamber of Reflection” e “Still Together”, para obrigar o público a dar o melhor das cordas vocais, enquanto Mac fazia o habitual crowdsurf até à régie. Uma coisa é certa, eles divertem-se imenso em palco e nós divertimo-nos também com eles.

Mas já sabíamos o que DeMarco é capaz. A expectativa para este dia recaia, sobretudo, sobre a britânica Tahliah Debrett Barnet, conhecida como FKA twigs e a sua estreia em solo nacional, depois do aclamado álbum de estreia “LP1”. Com todo este burburinho em torno da misteriosa artista, o palco Super Bock estava, naturalmente, apinhado. Conseguimos fixar o lugar próprio para avistar o palco durante “Video Girl”,  uma canção que Twigs escreveu sobre o seu período enquanto dançarina de videoclips. A verdade é que todo o fenómeno FKA twigs pode-se resumir a uma palavra: controlo. O controlo vocal extraordinário que nos deixa assombrados, o controlo sobre a sua carreira, gradualmente feita e premeditada até estar “no ponto” para ser divulgada à escala mundial, controlo dos movimentos, sincronizados com o jogo de luzes, de forma a produzir imagens e estímulos visuais para quem a observa. Contudo, em palco, a abordagem foi bastante simplista, aquém do esperado, com a percussão desconstruída em três partes e algumas explosões de luz. Uma espécie de pacote de festival, cuja atmosfera perdeu muito pelo histerismo da fila da frente. Não faltaram músicas como “Numbers”, “Pendulum” e “Two Weeks”, do primeiro disco, bem como “Papi Pacify” e “Water Me” do “EP2”, a carta de apresentação de Twigs ao mundo, que se sucederam de forma quase hipnótica. Para a despedida ficou então “How’s That”. Apesar de Twigs se mostrar surpreendida com a recepção e entusiasmo e apesar do Primavera ser o palco possível para a sua estreia por terras lusas, o desejo é que Tahliah regresse, para um concerto em nome próprio, numa sala fechada, onde a envolvência possa ser, também ela, controlada e adequada.

Ainda que não o sejam, os Interpol fizeram-nos quase regressar aos seus dias de estreantes, num alinhamento carregado de temas de “Turn on the Bright Lights”, o primeiro disco, e que revisitou, de forma sucinta, o percurso da banda de Nova Iorque que levou o pós-punk de novo à ribalta no início de 2000. Uma jogada pelo seguro no palco NOS, na altura em que todos sabemos que, apesar de ainda serem muito acarinhados pelo público, os Interpol já não são o que eram. As mãos da capa do disco de El Pintor, a preto e branco, projectadas no fundo, compuseram na perfeição, em conjunto com padrões geométricos variados, a atmosfera visual. Com a seriedade que os caracterizam, desferiram “Say Hello to Angels” na abertura, que, juntamente com “Evil”, “The New”, “Narc”, “Take you on a Cruise”, “Slow Hands” e “PDA” fizeram as delícias dos fãs. Pena o som roufenho em palco, que por vezes fazia desaparecer as guitarras e a voz, levados pelo vento. Para o encore deste vibrante concerto ficaram “Untitled”, “Stella Was a Diver and She Was Always Down” e “All the Rage Back Home”, o single forte de “El Pintor”.

Apesar de Interpol serem já da casa e sempre uma boa escolha, o concerto da noite (e um dos do festival) foi mesmo o de Caribou. Com “Our Love”, Dan Snaith procurou fazer música para todos dançarem e este novo disco, mais acessível, materializou isto mesmo nas colinas do Palco NOS. Com a capa do álbum em plano de fundo e luzes tão vibrantes como a electrónica experimental do canadiano, que se fez acompanhar de uma banda, a vontade de dançar era muita. E a festa e celebraçãoo foram feitas com “Our Love”, tema que dá o nome ao álbum, “Silver” e “Mars”. Voltámos a “Swim”, de 2010, com “Jamelia”, “Bowls” e a explosiva “Odessa”. E saímos satisfeitos depois de “Your Love Will Set You Free” e do hino de pista de dança “Can’t Do Without You”. Foi, por isso, no topo da colina já, que vimos o regresso de Snaith e companhia ao palco para interpretar “Sun” e trazer então metaforicamente, e literalmente também, dados os feixes de luz amarelos que irrompiam pelo palco, o Sol ao Porto, num assombro que se estendeu muito além dos cerca de seis minutos da faixa em disco. Uma despedida em grande e um momento ideal para crowdsurf por parte de muitos, inclusivamente do compatriota Mac DeMarco.

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Dia 2

Ao segundo dia de festival, já com os quatro palcos em funcionamento, eram muitos os roteiros possíveis à escolha. Começámos por explorar o Palco ATP e o seu verde descampado rodeado de árvores, ao som da música quente e exotica da libanesa Yasmine Hamdan. De Beirute até ao Porto, Yasmine abriu a cultura e herança árabe à electrónica mais contemporânea e dançou descalça no palco, acompanhada da sua banda, apresentando “Ya Nass” ao Parque da Cidade do Porto e justificando a atenção que tem cada vez mais vindo a receber.

Mas as atenções neste dia estavam viradas para um momento que todos sabíamos histórico, mesmo antes de o testemunhar. Patti Smith subiu ao palco NOS, com a vivacidade dos seus (dá para acreditar?) 68 anos, para interpretar na íntegra “Horses”, o seu primeiro álbum de originais e talvez a maior obra prima, que comemora quatro décadas desde o seu lançamento. Um álbum mítico, que tem tanto de homenagem à contra-cultura da geração beat e hippie dos 50s/60s, como de vanguardista para a época, sendo citado como um dos registos referência do punk rock norte-americano, que teve o seu epicentro em Nova Iorque e no clube CBGB. Contudo, o que mais cativou não foi a grandeza do momento, mas sim a sua emoção. Uma lenda viva que estava ali, de corpo e alma, sorridente, pronta a inspirar novas gerações e a relembrar os mais velhos da mensagem e do poder do rock. «Jesus died for somebody’s sins but not mine», a frase que todos esperavam ouvir, deu início ao concerto e a “Gloria”, tema com fulgor que entusiasmou desde logo o público, tal como “Free Money”. «Este é o lado A, agora viramos para o lado B», disse, simulando mesmo o virar o disco, pronto a introduzir no gira-discos. Foi a hora de “Kimberly”, a dramática “Break it up”, escrita aquando da morte de Jim Morrison, a épica “Land” e no final uma “Elegie”, inicialmente escrita em homenagem a Jimi Hendrix, mas que agora estende o seu leque de dedicatórias: os Ramones, Sid Vicious, Joe Strummer, o marido Fred “Sonic” Smith, Lou Reed, foram apenas alguns deles. Findo o disco, foi difícil não deixar as emoções levar a melhor em “Because the Night”, um tema que tem tanto de romântico como épico. Já “People Have the Power”, deixada para a despedida, acolhida de braços no ar, continuous actual e a deixar, com sucesso, uma mensagem de optimismo e esperança. Entre acenos e sorrisos e uma vénia, Patti Smith deixou o palco ao som dos aplausos efusivos do público conquistador. Um concerto que pareceu-nos muito curto, de tão incrível que foi. Mas não sem antes agradecer à organização o convite para vir ao Porto pela primeira vez. Nós é que agradecemos!

No caminho para o Palco ATP descobrimos o agradável indie lo-fi dos australianos Twerps, conferimos a pujança dos The Replacements, que davam ali (ao que consta) o seu último concerto e deixámo-nos encantar pela versão de “Heartbeats”, dos The Knife, na voz quente de José González.

Mas, em busca de sonoridades diferentes, deixámo-nos seduzir pelos graves de stoner e pelo lado mais oculto dos Electric Wizard, que, apesar de terem estado em Portugal ainda em 2014, no palco principal da primeira edição do Reverence Festival Valada, mantiveram a linha e a aposta dos temas dos discos anteriores. Fazendo-se acompanhar de projecções alusivas, iniciaram desde logo o concerto com “Witchcult Today”. “Black Mass” e as poderosíssimas “Dopethrone” e “Funeralopolis”, foram os momentos mais marcantes de um concerto que perdeu com o som disperso.

Depois de viajar pelo oculto, foi tempo de flutuar no espaço, ainda no palco ATP com os Spiritualized, que oscilaram entre a delicadeza de músicas como “Lord Let it Rain on Me” e a potência de “Shine a Light” e “Electric Mainline”. A curiosidade levou-nos a espreitar Belle & Sebastian, só mesmo espreitar, já que o Palco Super Bock estava completamente lotado e com alguns fãs inclusivamente a dançar em cima do palco, junto a Stuart Murdoch. Ainda assim, entre palcos, ainda a ouvir nuances de Spiritualized, soube bem dançar com a leveza de temas mais antigos como “Dirty Dream Number Two” e “The Boy with the Arab Strap”, assim como “Perfect Couples”, retirado de “Girls in Peacetime Want to Dance”, editado ainda este ano pela banda escocesa. Deixámos a festa para ir espreitar Pallbearer, o menos esgotado dos três concertos. No Palco Pitchfork, sem defraudar os fiéis fãs, os norte-americanos apresentaram “Foundation of Burden”, com um som cheio e uma guitarra demolidora.

Antony and the Johnsons parou o festival por inteiro, tendo sido o único momento em que apenas funcionou o Palco NOS. Decisão que, por um lado, é compreensível, dado ser um espectáculo com orquestra que seria estragado e abafado por concertos em simultâneo, mas, por outro, pouco eficiente em contexto de festival, já que, no topo da colina, com o falatório daqueles que apenas cumpriam o tempo de espera até ao próximo concerto, era quase impossível ouvir Antony Hegarty. Ao descer, foi-nos possível testemunhar a sensibilidade, melancolia e vulnerabilidade das suas canções. Além da orquestra, o cenário contemplava ainda algumas projecções que enfatizavam esta mesma melancolia. Com um alinhamento muito centrado em “Swanlights” de 2010, os momentos mais emotivos ficaram para o final com “Her Eyes are Underneath the Ground” e “Hope There’s Someone”.

El-P e Killer Mike têm vindo a trilhar os seus caminhos separadamente, nas margens, mas hoje em dia, têm cativado cada vez mais fãs com Run the Jewels. Ainda que o Primavera seja muito diversificado na oferta, deslocámo-nos ao Palco ATP com o intuito de “sair da caixa” e “limpar o palato musical”. E deparámo-nos com uma enorme enchente e um público enérgico, ávido dos beats, ritmos graves e rimas do duo, que entrou em palco ao som de “We are the Champions”, dos Queen, e começaram desde logo a disparar os (já muitos) êxitos da curta discografia de dois álbuns. “Run The Jewels”, “Oh My Darling Don’t Cry”, “Blockbuster Night Part 1”, que teve direito a crowdsurf e moshpit, foram os primeiros tiros. O público sempre “de pistola e punho cerrado” no ar (o símbolo do grupo), sabia todas as letras de cor e continuou a agitar-se de forma descontrolada durante todo o concerto, uma reacção efusiva que surpreendeu os próprios El-P e Killer Mike, que, divertidos, faziam duelos de deixas e, também eles, dançavam. “36’’ Chain”, “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”, “Lie, Cheat, Steal” foram alguns dos melhores momentos, assim como “Love Again”. “A Christmas Fucking Miracle” seria a despedida, mas, por insistência de uma fã, via Twitter, “Angel Duster” foi o encore e o bónus final.

À saída, esgotadas as energias, ainda espreitámos os australianos Movement, no Palco Pitchfork, que, em formato de banda, certamente bebendo muito do trabalho de James Blake, interpretaram uma versão electrónica, mas com muito soul, de “Hold on, We’re Going Home”, de Drake.

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Dia 3

No início do terceiro dia, ao entrar no recinto, sentimo-nos obrigados, qual dever de missa dominical, a começar a jornada de concertos no Palco ATP. E rapidamente constatámos que não fomos os únicos a sentar-nos à sombra para ver, outra vez, Thurston Moore e a sua banda composta por Steve Shelley, James Sedwards e Debbie George, a apresentar o mais recente “The Best Day”. É certo que os Sonic Youth já lá vão, mas as músicas a solo, como “Germs Burn”, que ouvimos, continuam a inspirar uma certa nostalgia, que acaba sempre por nos compelir a estar presentes.

Ao chegar ao palco Super Bock, deparámo-nos com o grande aparato em torno dos Foxygen, duo norte-americano que fez do Primavera do Porto uma das últimas datas da derradeira digressão que assinala a sua separação, depois de “…And Star Power”, álbum que ficou aquém da excelente estreia que foi “We Are the 21st Century Ambassadors of  Peace & Magic”. Com nove elementos em palco, desde banda a coro feminino, o espectáculo foi orquestrado de tal forma que, por momentos, pareceu-nos que se tratava de um circo ou teatro. A começar pelo som confuso, disparatado e difuso e acabando no frenesim de acontecimentos, desde discussões encenadas entre membros da banda, aos duelos de esgrima, passando pelos jogos de cartas. E o protagonista Sam France (voz) encarnou o seu papel de estrela de rock desequilibrada e excêntrica. “San Francisco”, um dos temas mais fortes de Sam France e Jonathan Rado, foi reduzido, com ousadia, a banda sonora entre saída e entrada em cena, ficando então a memória de “Shuggie” e “No Destruction”. Para a despedida ficou então “Everyone Needs Love” e um aplauso de um público visivelmente entretido com toda a festa descontrolada. Uma coisa é certa, os Foxygen quiseram ficar nas nossas memórias. Se não foi pelo melhor concerto, que seja então pelo mais bizarro.

De nove para um. Damien Rice subiu ao palco NOS sozinho, apenas com a sua guitarra, alguns pedais e uma percussão, enfrentando a imensa estrutura vazia à sua frente e uma enchente considerável no anfiteatro improvisado. O irlandês, que surpreendeu tudo e todos com um novo registo “My Favourite Faded Fantasy”, convenceu logo o público à primeira música. “Delicate” encurtou o tamanho do relvado diante do palco e concentrou de imediato as atenções na figura solitária que ocupava o palco, com um cenário de luzes. E as familiares canções foram seguindo umas atrás das outras, com um grande foco no disco de estreia do cantautor, ”O”. “I Remember”, Cannonball” e claro “The Blower’s Daughter”, a canção mais filmada e “instagramada” de todo o festival, tiveram direito a um coro exímio. Contudo, Damien Rice mostrou que a mestria não se perdeu e que também existem grandes faixas no novo álbum. Desde “Trusty and True”, a pedido de uma fã, a “The Greatest Bastard”, não esquecendo a intensa e arrepiante “It Takes a Lot to Know a Man”, última música do alinhamento, uns quase 10 minutos que permitiram ao irlandês montar o verdadeiro “one man show”, utilizando desde loops no microfone, ao microfone da guitarra, a própria guitarra e percussão, num momento de total entrega e dos melhores do festival.

Rapidamente transitámos, com expectativa, para o Palco Super Bock, imediatamente ao lado. Se há três anos os Death Cab For Cutie cancelaram o concerto no Optimus Primavera Sound e adiaram a sua estreia nos palcos nacionais, em 2015 mostraram-se determinados em acertar as contas e recuperar o tempo perdido. Sem demoras, abriram desde logo o concerto com a intensa linha de baixo de “I Will Possess Your Heart”. E souberam conquistar os fãs, escolhendo os temas chave dos discos mais recentes, como “Doors Unlocked and Open” ou “You Are a Tourist” e misturando-os com uma cuidada selecção de músicas que cresceram connosco, e em nós, nestes mais de dez anos. “Crooked Teeth”, “The New Year”, “Cath..”, na voz inconfundível de Ben Gibbard, todas recebidas com uma alegria desmesurada pelos fãs. Gibbard confessou ainda que a banda teve tempo para passear por Portugal, dado que não estava incluída no cartaz do festival de Barcelona, onde actuou em 2012. Além de surpreendidos com o país, os norte-americanos saíram também surpreendidos com o público, que extasiado, já no final, cantou “Soul Meets Body” a plenos pulmões. Mas a emocionante despedida, com direito a algumas lágrimas, foi feita ao piano, com a mágica “Transatlanticism” a ecoar por entre as árvores.

E se os Ride protagonizaram um regresso aos 90s e perpetuaram a tradição de shoegaze do festival, por onde já passaram My Blood Valentine e Slowdive, os Underworld não se ficaram atrás, tendo montado uma autêntica rave no Parque da Cidade.

Mas antes, porque não quisemos ficar perdidos no tempo, deixámo-nos contagiar pela festa de Dan Deacon, que, com os efeitos vocais e uma máquina humana na bateria, criou um frenesim no palco Super Bock, abrindo concursos de dança entre diferentes fatias do público, coreografando as restantes e parando por diversas vezes o concerto para interrogar-se sobre a origem das plantas que muitos elementos carregavam. Um concerto divertido e refrescante, durante o qual foi impossível estar parado.

dubnobasswithmyheadman” foi o mote para a rave dos Underworld e para o regresso a 1994, tendo os londrinos protagonizado o segundo concerto de “revisitação” de discos do festival, uma tendência cada vez mais crescente. E se Patti Smith virou o disco, os Underworld fizeram o fundo do palco, um LCD onde apareciam os nomes da música segundo o alinhamento do disco. Pudemos testemunhar um dos momentos altos do concerto, piadas à parte, com “Mmm…Skyscraper I Love You” e fomos gritando “I See Elvis” a caminho do Palco ATP, em busca de algo novo com os Ought, banda de pós-punk de uns amigos da Universidade, fundada no Canadá. Ainda que o entre músicas e a conversa com o público fosse abafada pelos beats do palco principal, durante as músicas não faltava energia, desde “The Weather Song”, “Today More Than Any Other Day” e até “Habit”.

Contudo, a rave esperava-nos do outro lado e, ao atravessar o recinto, escutámos “Rez”, a primeira dos bonus track “deste álbum”. Faltava pois então a explosão de “Born Slippy”, célebre faixa da banda sonora do filme de culto Trainspotting, que num abalo colossal levou a uma dança descontrolada conjunta. Para onde quer que olhássemos, as pessoas, felizes, pareciam ter perdido o comando do próprio corpo.

Ao fim de três dias maravilhosos entre o verde esplendor do parque e a brisa marítima da Foz do Douro, assumimos que já temos saudades destes dias e da simbiose quase perfeita entre campo e cidade que o NOS Primavera Sound proporciona. Até para o ano!

Texto: Rita Bernardo
Fotografia: Hugo Lima (Fotografias oficiais)

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