Por entre décadas de mudança e progresso sonoros do pilar do drone que são os americanos Earth, desde o primeiro lançamento em ’91, há algo que permanece intocável e que une todos esses momentos: a persona forte que é Dylan Carlson e o magistral trabalho de guitarra que se lhe reconhece. Do drone arranhado e monocórdico de “Earth 2“, até às reinvenções folk e blues rock de “The Bees Made Honey in the Lion’s Skull“, culminando nas orquestras lentas e latejantes dos volumes “Angels of Darkness, Demons of Light“, a identidade não se dispersa — as mesmas construções sonoras lentas, hipnóticas e repetitivas, em plena reverência do riff.

Primitive and Deadly“, lançado em Setembro do ano passado pela Southern Lord desapega-se das melancolia e das imagens nebulosas do western/country americanos do álbum anterior, e traz uma nova atmosfera que surpreendeu muitos ouvidos. A sonoridade densa de sempre, texturas folk e psicadélicas repetidas até à exaustão.

Numa sala não longe de esgotar, em estreia em Lisboa (já com duas datas somadas no Porto), “There Is a Serpent Coming” faz as honras de abertura de uma hora e pouco mais de hipnose e tremor auditivo. Não houve Mark Lanegan nos vocais (algo a que os Earth não nos têm vindo a habituar no registo habitual), pelo que ficamos “só” com o noise de fundo embrenhado por entre brutais crescendos e baixos da linha de guitarra, acompanhados do compasso ritmado lento de Adrienne Davis na bateria.

“Torn By the Fox of the Crescent Moon” relembra-nos a época de “Pentastar“, o rimo tenso na bateria a acompanhar as braçadas de guitarra rangente como que um motor automóvel. “Badger’s Bane” / “Even Hell Has Its Heroes”, quase que em uníssono, são as tais facilmente reconhecíveis com o cunho Earth – a estrutura clássica dos riffs poderosos intercalados com passagens de guitarra clara, ecoante, juntos a uma linha de baixo serpenteante a cargo de Bill Herzog.

“Ouroboros is Broken”, já do velho “Hibernaculum” de 2007, e uma das primeiras canções gravadas do grupo em meados de ’90, ouve-se na versão deste último EP, sem a agressividade e distorção da primeira versão em 1991 – lenta, letárgica, sombria. A fechar, “High Command”, de “Pentastar” de 1996 joga na fase doom/rock, pelas batidas secas e ritmadas, também ali ao vivo dispensando a presença de voz na versão original, linhas monolíticas de guitarra cuja vibração se sente nas paredes da sala.

A primeira parte ficou a cargo de Filho da Mãe, individualidade de palco respondida por Rui Carvalho, marcada pela sua catarse a dois quinhões – a sua com a guitarra e a guitarra consigo. À “Cabeça” ficaram os íntimos segredos sussurrados entre os dois, extrapolando-se uma índole bastante ponderada: um peso entre o perfeito e o imperfeito, o interior e o exterior, uma questão para o próprio e uma certeza só nossa, que é a humanidade do processo de Filho da Mãe.

Fotografia: Nuno Bernardo
Texto: Telma Correia & Nuno Bernardo

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